Inteligência Artificial

Como criar um agente de IA: o que é, como fazer sem time de tecnologia e a ficha de 8 campos para começar

Como criar um agente de IA começa pela tarefa, e não pela ferramenta: criar um agente é definir o objetivo, o que ele pode acessar, o que pode fazer sozinho e quem confere o resultado, e só então ligar um modelo de linguagem a esse desenho.

Este guia mostra o caminho para uma PME que não tem time de tecnologia: a ficha de 8 campos, a escolha da primeira tarefa, o teste antes de ligar e o que a pesquisa examinou sobre o tema. Na nossa leitura, o difícil não é montar o agente, e sim decidir o que ele não pode fazer.

Resumo rápido

  • Agente é o sistema que recebe um objetivo, escolhe os passos e age. Usamos esta definição de trabalho para separar o agente da automação de regra fixa e do assistente que só responde.
  • Existe revisão sistemática sobre construção de agentes. Wang e colegas (2024) revisaram os estudos sobre agentes baseados em modelos de linguagem, em construção, aplicações e avaliação. O resumo não menciona PME.
  • Combinar pessoa e IA nem sempre rende mais. Vaccaro e colegas (2024) revisaram 106 estudos experimentais e relatam perdas em tarefas de decisão e ganhos maiores em tarefas de criação de conteúdo.
  • Os ganhos medidos, em campo e em experimento, são de assistentes. Brynjolfsson e colegas (2025) relatam 15% a mais de chamados resolvidos por hora entre 5.172 atendentes, e Noy e Zhang (2023) relatam queda de 40% no tempo de escrita. Nenhum dos dois mediu agente autônomo.
  • O método abaixo é da CGLC, e não resultado de estudo: ficha de 8 campos, primeira tarefa de risco baixo, teste com casos reais e autonomia em degraus.

O que é um agente de IA e o que significa criar um

Neste guia, agente de IA é um sistema que recebe um objetivo, decide os passos para chegar lá e executa esses passos, acionando ferramentas e sistemas. É uma definição de trabalho da CGLC, a mesma do nosso guia sobre agentes de IA na PME. O assistente, que só responde, e a automação de regra fixa ficam de fora.

Criar um agente, então, não é programar um robô. É escrever o contrato entre o dono da tarefa e o sistema que vai executá-la. Na prática, existem três caminhos, e a escolha depende de quanto a tarefa toca os sistemas da empresa.

Caminho Como funciona Quando serve O que continua com a empresa
Plataforma pronta de agentes Você configura objetivo, instruções e fontes numa ferramenta já montada Tarefa com entrada em texto e saída que uma pessoa confere A ficha, os testes e o responsável
Fluxo montado sem código Você liga o modelo a e-mail, planilha ou sistema por conectores visuais Tarefa de poucos passos, em sistemas que têm conector pronto As permissões, o registro e a revisão do fluxo
Desenvolvimento sob medida Um time técnico escreve e mantém o agente Tarefa que mexe em sistema próprio ou em dado sensível A definição do que o agente pode fazer e a aceitação do resultado
Os três caminhos para criar um agente numa PME. Quadro de leitura da CGLC, e não classificação de estudo.

Leitura da CGLC: a última coluna é a que importa. Em qualquer dos três caminhos, a ficha, o teste e o responsável pelo resultado continuam do lado da empresa. Quem terceiriza isso terceiriza a decisão.

O que a pesquisa examinou sobre agentes e sobre pessoa mais IA

Wang e colegas (2024) fizeram uma revisão sistemática dos estudos sobre agentes autônomos baseados em modelos de linguagem. Eles discutem a construção desses agentes, propondo um quadro unificado, apresentam as aplicações em ciências sociais, ciências naturais e engenharia e examinam as estratégias de avaliação mais usadas. A avaliação aparece como um dos três eixos da revisão.

Vaccaro, Almaatouq e Malone (2024) fizeram uma revisão sistemática com metanálise de 106 estudos experimentais, com 370 tamanhos de efeito. Segundo os autores, em média as combinações de pessoa e IA tiveram desempenho significativamente pior do que o melhor entre a pessoa sozinha e a IA sozinha (g de Hedges = −0,23). Eles relatam perdas em tarefas de decisão e ganhos significativamente maiores em tarefas de criação de conteúdo.

Os autores relatam ainda um achado condicional: quando a pessoa sozinha superava a IA sozinha, a combinação ganhava, e quando a IA sozinha superava a pessoa, a combinação perdia. Eles apontam limitações, como possível viés de publicação e variação no desenho dos estudos.

Em campo, Brynjolfsson, Li e Raymond (2025) estudaram a introdução de um assistente conversacional de IA com dados de 5.172 atendentes de suporte. Relatam alta média de 15% em chamados resolvidos por hora, com heterogeneidade entre os trabalhadores: os menos experientes melhoraram velocidade e qualidade, e os mais experientes tiveram ganho pequeno de velocidade e pequena queda de qualidade.

Noy e Zhang (2023) fizeram um experimento pré-registrado com 453 profissionais com ensino superior, em tarefas de escrita de nível intermediário. O grupo exposto ao ChatGPT levou, em média, 40% menos tempo, e a qualidade do texto subiu 18%.

Fonte O que examinou O que NÃO examinou
Wang e colegas (2024) Revisão de estudos sobre agentes baseados em modelos de linguagem: construção, aplicações e avaliação PME (não mencionada no resumo)
Vaccaro e colegas (2024) 106 experimentos com pessoa, IA e as duas juntas Agente que age sozinho em sistemas reais
Brynjolfsson e colegas (2025) Assistente de IA para 5.172 atendentes de suporte Agente autônomo e PME
Noy e Zhang (2023) Escrita profissional com um assistente de chat, em experimento Agente autônomo, trabalho do dia a dia ao longo de meses e PME
O que cada fonte examinou e o que ela não examinou. Quadro de leitura da CGLC.

Ressalva de escopo: nenhuma das quatro fontes mediu um agente autônomo criado por uma PME. Três mediram pessoa e IA trabalhando juntas, e a quarta é uma revisão de estudos sobre agentes. Tudo o que vem a seguir sobre o passo a passo é método da CGLC, e não resultado de estudo.

Leitura da CGLC: o padrão de Vaccaro e colegas orienta a primeira tarefa. Se os ganhos aparecem mais em criação de conteúdo e as perdas em decisão, o primeiro agente de uma PME deve produzir rascunhos e deixar a decisão com a pessoa. Classificar e organizar entram por escolha nossa, porque o erro é barato e fácil de conferir, e não porque o estudo as separe. O estudo também não testou agentes de PME.

Passo a passo para criar um agente de IA numa PME

O caminho abaixo é o que a CGLC propõe para PMEs. Ele tem seis passos, e o segundo, a ficha, é o que separa um agente que ajuda de um agente que ninguém sabe explicar.

  1. 1. Escolha uma tarefa

    Repetitiva, com entrada digital, erro barato e um dono na empresa

  2. 2. Preencha a ficha

    Oito campos que dizem o que o agente faz, acessa, decide e registra

  3. 3. Monte o mínimo

    Uma plataforma pronta ou um fluxo curto, só com as permissões da ficha

  4. 4. Teste com casos reais

    Um conjunto de casos antigos, com a resposta certa conhecida pelo responsável

  5. 5. Ligue com aprovação

    O agente propõe, a pessoa aprova, e cada ação fica registrada

  6. 6. Revise e amplie

    Só depois de um período sem erro grave a autonomia sobe um degrau

Os seis passos para criar um agente de IA numa PME, propostos pela CGLC. É um método de aplicação da casa, e não um achado de pesquisa.

Passo 1: escolha a tarefa pelo risco, e não pelo brilho

A primeira tarefa decide se o projeto ganha confiança ou perde. Usamos cinco perguntas, e a tarefa precisa passar nas cinco. Se falhar em uma, ela espera.

Pergunta Passa quando Falha quando
Repete? Acontece toda semana, com a mesma forma Cada caso é uma exceção
Entra em formato digital? E-mail, formulário, planilha ou texto Depende de ligação, de visita ou de papel
O erro é barato? Alguém confere antes de chegar ao cliente O erro vira dinheiro ou promessa na hora
Dá para conferir a resposta? O responsável sabe dizer se está certo Só o tempo mostra se estava certo
Tem dono? Uma pessoa responde pelo resultado Ninguém é dono da tarefa hoje
As cinco perguntas da CGLC para a primeira tarefa de um agente. É critério de método, e não resultado de estudo.

Na nossa prática: as primeiras tarefas que costumam passar são triagem de pedidos de orçamento, rascunho de resposta a perguntas frequentes, resumo de reunião com lista de pendências e organização de dados de planilha. As que costumam falhar são reembolso, preço e qualquer resposta jurídica. Para ampliar a lista, o guia de casos de uso de IA ajuda a priorizar.

Passo 2: preencha a ficha de 8 campos

A ficha cabe numa página e é escrita antes de abrir qualquer ferramenta. Ela é o documento que o responsável assina e que o agente, na prática, executa. Sem ela, o agente faz o que a ferramenta permite, e não o que a empresa quer.

Campo Pergunta que responde Exemplo ilustrativo
1. Objetivo Que resultado o agente entrega? Classificar pedidos de orçamento recebidos por e-mail e preparar um rascunho de resposta
2. Entradas O que ele recebe e de onde? A caixa de e-mail comercial e a tabela de serviços da empresa
3. Ferramentas e permissões O que ele pode ler e o que pode alterar? Pode ler e-mail e tabela, pode criar rascunho, não pode enviar nem editar a tabela
4. Autonomia O que faz sozinho e o que pede aprovação? Classifica sozinho, e todo rascunho passa pela aprovação do comercial
5. Regra de parada Quando ele para e chama uma pessoa? Pedido fora da tabela, valor acima do combinado ou cliente reclamando
6. Registro O que fica guardado de cada ação? E-mail recebido, classificação, rascunho e quem aprovou
7. Responsável Quem responde pelo resultado? A pessoa do comercial, com nome
8. Teste e métrica Como saberemos que está bom? Casos antigos conferidos pelo responsável e contagem de erros graves
A ficha de 8 campos da CGLC, com um exemplo ilustrativo, sem dados de cliente. É método da casa, e não resultado de estudo.

Leitura da CGLC: é comum pular os campos 3, 4 e 5, porque descrevem o que o agente não faz. Mas é justamente neles que mora o risco. Quem quiser aprofundar encontra o desenho completo de limites no guia de governança de agentes de IA.

Passo 3: monte o mínimo

Com a ficha pronta, escolha o caminho da tabela anterior e monte apenas o que ela pede. Se a ficha diz que o agente cria rascunho e não envia, a conta do agente não deve ter permissão de envio, porque a permissão que não existe não pode ser usada por engano.

Na plataforma ou no fluxo, as instruções do agente são a ficha em linguagem direta: objetivo, fontes, limites e regra de parada. Evite instruções vagas como “seja útil”. Prefira frases que um novo funcionário entenderia no primeiro dia.

Passo 4: teste com casos reais antes de ligar

Separe uma amostra de casos antigos da própria empresa, com a resposta certa já conhecida pelo responsável, e rode o agente sobre ela sem enviar nada a ninguém. Na prática da CGLC, começamos com cerca de vinte casos, incluindo os difíceis. O número é uma regra prática nossa, e não um critério de estudo.

Conte três coisas: quantos casos o responsável aprovaria como estão, quantos precisariam de ajuste e quantos teriam causado um erro grave. A regra de decisão é simples: qualquer erro grave volta para a ficha, e a ligação espera. A avaliação é um dos eixos que Wang e colegas (2024) examinam. Na nossa prática: é o passo que a pressa costuma cortar.

Na nossa prática: os erros do teste costumam não ser do modelo. Costumam ser uma regra de parada que faltava ou uma fonte desatualizada, e as duas se resolvem na ficha, não na ferramenta.

Passos 5 e 6: ligue com aprovação e suba a autonomia em degraus

Parasuraman, Sheridan e Wickens (2000) propõem, já no título, um modelo de tipos e níveis de interação humana com automação. Na leitura da CGLC, isso lembra que a autonomia não é uma chave de liga e desliga. A escada abaixo é da CGLC.

Degrau O que o agente faz Quem decide Quando subir
1. Sugere Propõe e explica A pessoa, em tudo Já no início
2. Rascunha Entrega o material pronto para revisar A pessoa aprova cada item Depois do teste sem erro grave
3. Executa com aprovação Age depois de um aval registrado A pessoa libera a ação Depois de um período sem erro grave em produção
4. Executa e avisa Age e informa depois A pessoa revisa por amostra Só em tarefa de erro barato e reversível
A escada de autonomia da CGLC. É critério de método, e não resultado de estudo.

Leitura da CGLC: a maioria das PMEs deveria parar no degrau 2 ou 3 por bastante tempo. O degrau 4 só faz sentido onde o erro é barato e reversível. Aprovação humana não é garantia por si só, e por isso o registro de cada ação e a regra de parada continuam valendo em todos os degraus.

Erros comuns ao criar o primeiro agente

Na nossa prática, estes são os erros que mais esperamos ver:

  • Começar pela ferramenta. Quem escolhe a plataforma antes da tarefa acaba adaptando a tarefa à plataforma.
  • Dar a primeira tarefa errada. Tarefa que envolve dinheiro, preço ou promessa ao cliente é a pior estreia possível.
  • Pular o teste. O agente liga no mesmo dia em que é montado, e o primeiro teste é o cliente.
  • Dar permissão demais. A conta do agente pode herdar o acesso de quem a criou, e ninguém revisa.
  • Não ter dono. Quando o agente erra, ninguém sabe a quem avisar, e a confiança do time cai de uma vez.
  • Medir só o tempo. Tempo ganho com erro grave escondido não é ganho.

Quando chamar um time de tecnologia

O caminho deste guia serve ao primeiro agente, de risco baixo. Chame um time técnico quando a tarefa mexer em sistema próprio, em dado pessoal sensível ou em ações que não se desfazem, ou quando o volume pedir manutenção contínua. Mesmo assim, a ficha continua sendo da empresa, e é ela que o time técnico implementa.

Antes de ampliar, vale também conduzir um piloto de IA com critério de decisão, e olhar o guia de automação com inteligência artificial para saber o que ainda dispensa agente.

Quer criar o primeiro agente sem apostar a operação? No Bootcamp de IA da CGLC, líderes e times aprendem a escolher a tarefa, escrever a ficha e testar antes de ligar.

Perguntas frequentes

Preciso saber programar para criar um agente de IA?

Na leitura da CGLC, não para o primeiro agente. Plataformas prontas e fluxos sem código permitem montar tarefas simples. O que não se terceiriza é a ficha: objetivo, permissões, regra de parada e responsável. Quando a tarefa toca sistema próprio ou dado sensível, convém chamar um time técnico. Nenhuma fonte citada mediu PMEs sem time de tecnologia.

Qual a diferença entre criar um agente e usar um assistente como o ChatGPT?

O assistente responde e devolve a decisão à pessoa. O agente, na definição usada aqui, recebe um objetivo, escolhe os passos e age em sistemas. Os ganhos medidos por Brynjolfsson e colegas (2025) e por Noy e Zhang (2023) vieram de assistentes, e não de agentes autônomos, por isso não devem ser lidos como promessa para agentes.

Qual a primeira tarefa que vale dar a um agente?

Na leitura da CGLC, uma tarefa repetitiva, digital, de erro barato, com resposta conferível e dono definido. Vaccaro e colegas (2024) relatam ganhos maiores em criação de conteúdo e perdas em decisão, o que sugere começar por rascunho. Classificar e organizar entram por escolha da CGLC, pelo erro barato, e o estudo não testou agentes de PME.

Como testar um agente antes de colocá-lo para trabalhar?

Rode o agente sobre casos antigos da empresa, com a resposta certa já conhecida, sem enviar nada a ninguém. Conte os aprovados, os que precisam de ajuste e os erros graves. Na prática da CGLC, qualquer erro grave volta para a ficha. A avaliação é um dos eixos da revisão de Wang e colegas (2024).

O agente pode agir sem aprovação de uma pessoa?

Pode, mas a leitura da CGLC é subir a autonomia em degraus, e só em tarefa de erro barato e reversível. Vaccaro e colegas (2024) relatam perdas em tarefas de decisão e, em média, combinações de pessoa e IA abaixo do melhor entre as duas sozinhas. Isso não indica se aprovar é melhor ou pior, e o estudo não mediu agentes autônomos em PMEs.

Outros artigos relacionados

Fontes e referências

  • Brynjolfsson, E., Li, D., & Raymond, L. (2025). Generative AI at work. The Quarterly Journal of Economics, 140(2), 889-942. https://doi.org/10.1093/qje/qjae044
  • Noy, S., & Zhang, W. (2023). Experimental evidence on the productivity effects of generative artificial intelligence. Science, 381(6654), 187-192. https://doi.org/10.1126/science.adh2586
  • Parasuraman, R., Sheridan, T. B., & Wickens, C. D. (2000). A model for types and levels of human interaction with automation. IEEE Transactions on Systems, Man, and Cybernetics – Part A: Systems and Humans, 30(3), 286-297. https://doi.org/10.1109/3468.844354
  • Vaccaro, M., Almaatouq, A., & Malone, T. (2024). When combinations of humans and AI are useful: A systematic review and meta-analysis. Nature Human Behaviour, 8(12), 2293-2303. https://doi.org/10.1038/s41562-024-02024-1
  • Wang, L., Ma, C., Feng, X., Zhang, Z., Yang, H., Zhang, J., et al. (2024). A survey on large language model based autonomous agents. Frontiers of Computer Science, 18(6), 186345. https://doi.org/10.1007/s11704-024-40231-1

Por: José Erlan Dias Alves, fundador da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.

Publicado em 05/10/2026.

A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.

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