Líder de primeira viagem é a pessoa que assume pela primeira vez a responsabilidade pelo resultado de outras pessoas, muitas vezes depois de ter sido muito boa naquilo que fazia sozinha. Neste guia, essa é a definição de trabalho da CGLC, e ela já aponta o problema: a promoção costuma olhar o desempenho de ontem e cobrar, de um dia para o outro, uma habilidade diferente.
O texto descreve os erros a evitar nos primeiros meses, resume o que três estudos publicados em periódicos científicos relatam sobre promoção e treinamento de líderes e propõe cinco passos para a PME preparar quem foi promovido. O que for critério da casa vem marcado no texto.
Resumo rápido
- Quem é: quem lidera pessoas pela primeira vez, muitas vezes promovido por ter sido o melhor executor. Definição de trabalho da CGLC.
- O risco da promoção: Benson, Li e Shue (2019), com dados de profissionais de vendas de 131 empresas, relatam que as empresas tendem a promover pelo desempenho atual no cargo, e não pelas características que melhor preveem o sucesso como gestor. Dizem que o resultado é coerente com o princípio de Peter e que promover quem tem menos potencial gerencial é custoso, o que sugere decisões ineficientes ou incentivos que compensam esse custo.
- Os erros (Leitura da CGLC): o mais visível é continuar fazendo o trabalho de antes, e outros, como controlar demais, não delegar e adiar a conversa difícil, costumam andar junto com ele. A lista é da CGLC.
- O que a pesquisa registra sobre treino: Lacerenza e colegas (2017), numa meta-análise de 335 amostras independentes, relatam efeitos positivos do treinamento de líderes em reações, aprendizagem, transferência e resultados, e efeitos mais fortes associados a análise de necessidades, feedback, vários métodos de entrega (sobretudo prática) e sessões espaçadas.
- Ressalva de escopo: nenhum dos três estudos tem a PME brasileira como foco. Benson, Li e Shue estudam a promoção de profissionais de vendas a cargos de gestão, o que, na leitura da CGLC, se aproxima da primeira liderança, mas em 131 empresas e sem foco em PMEs; Lacerenza e colegas, assim como Day e colegas, tratam de desenvolvimento de líderes em geral. A aplicação ao seu negócio é leitura da CGLC.
- Como preparar: cinco passos da CGLC: nomear a mudança de papel, escolher com critério, combinar três rotinas, treinar com prática acompanhada e revisar aos 90 dias.
Na nossa prática: isto é observação, e não resultado dos estudos citados adiante. Na PME, a promoção costuma acontecer porque a vaga abriu e a pessoa era a melhor opção disponível.
Ninguém explica o que muda na segunda-feira seguinte. O novo gestor então faz o que sabe fazer, que é executar, e o time sente que ganhou um colega mais ocupado, e não um líder.
Quem é o líder de primeira viagem e por que a promoção é um risco
O líder de primeira viagem muda de jogo sem mudar de crachá, de mesa ou de colegas. Antes, o resultado dele dependia do que ele entregava. Agora depende do que as outras pessoas conseguem entregar com a ajuda dele. Leitura da CGLC: são três mudanças de papel, e quase todo erro do começo é uma delas ainda não feita.
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1. Do fazer ao fazer acontecer
O valor deixa de ser a própria entrega e passa a ser a entrega do time
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2. Do colega ao responsável
Ex-colegas passam a esperar decisão, prioridade e feedback
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3. Do improviso à rotina
Conversas e acompanhamento têm dia e hora, não dependem de sobrar tempo
Benson, Li e Shue (2019), no Quarterly Journal of Economics, estudam promoções com dados de profissionais de vendas de 131 empresas. Os autores relatam que as empresas tendem a promover com base no desempenho atual no cargo, e não nas características que melhor preveem o desempenho como gestor, e que o resultado é coerente com o princípio de Peter.
Segundo os autores, promover quem tem menos potencial gerencial é custoso, o que sugere decisões ineficientes ou incentivos que compensam esse custo.
Eles relatam ainda que as empresas dão menos peso ao desempenho em vendas quando o cargo de gestão tem mais responsabilidade e quando a remuneração da linha de frente está muito ligada ao desempenho.
Leitura da CGLC: o estudo trata de profissionais de vendas, sem foco em PMEs brasileiras. Ele entra aqui como alerta sobre o critério de escolha: o melhor executor não é, por definição, o melhor candidato a gestor. Daí a importância de preparar quem foi escolhido, em vez de presumir que a competência virá junto com o cargo.
Os erros a evitar nos primeiros meses
Leitura da CGLC: o quadro abaixo reúne sete erros que costumam aparecer quando alguém assume a primeira liderança. A lista vem da prática da CGLC com líderes de PME, e não de uma contagem em estudo. Em todos, o que muda é o comportamento observável, aquilo que o gestor faz ou deixa de fazer na segunda-feira de manhã.
| Erro | Como aparece na rotina | O que fazer no lugar |
|---|---|---|
| Continuar executando o trabalho de antes | O gestor resolve ele mesmo o que o time deveria resolver, porque é mais rápido | Definir o que só ele faz e o que passa a ser do time, e aceitar uma entrega diferente da dele |
| Controlar cada passo | Pede cópia de tudo, reabre decisões do time, corrige detalhe de forma | Combinar o resultado esperado e os pontos de checagem, e deixar o caminho com quem executa. Veja o guia sobre microgerenciamento |
| Delegar sem explicar ou não delegar | Entrega a tarefa sem contexto e sem prazo, ou guarda tudo por medo de errar | Delegar com resultado, prazo, limite de autonomia e data de retorno. O passo a passo está em delegação de tarefas |
| Adiar a conversa difícil | Espera o problema passar, e ele aparece depois, maior e com plateia | Falar cedo, sobre fato observável, e combinar o próximo passo. Combinar antes quem fala, quando e sobre qual fato |
| Tratar ex-colegas como antes, sem ajustar o combinado | Mistura amizade com decisão e fica sem jeito de cobrar, ou se afasta e vira o chefe distante | Conversar uma vez, de forma aberta, sobre o que muda e o que continua igual |
| Querer mudar tudo nos primeiros dias | Anuncia mudanças de processo antes de conhecer as razões do que existe | Ouvir o time e entender o que funciona antes de propor mudança |
| Deixar o acompanhamento para quando sobrar tempo | Conversa individual só quando há problema | Rotina fixa de conversas individuais, curtas e previsíveis. O formato está em reunião one on one |
Leitura da CGLC: exemplo ilustrativo, sem empresa real. Uma distribuidora de porte médio promove o vendedor com melhor número do ano para gerente comercial. Nas primeiras semanas ele continua visitando os clientes que já eram dele e deixa para a equipe os clientes menores.
O time conclui que a regra é cada um por si, e o gerente só percebe o problema quando a equipe passa a esconder dificuldade. O ponto é que o erro não está na pessoa, e sim em ninguém ter nomeado, junto com ela, o que deixa de ser trabalho dela.
O que a pesquisa registra sobre promoção e treinamento de líderes
Os três estudos abaixo têm desenhos diferentes: um analisa critérios de promoção em empresas, o segundo reúne pesquisas sobre treinamento de líderes e o terceiro revisa 25 anos de literatura sobre desenvolvimento de líderes. A tradução dos termos dos estudos é nossa, e a aplicação ao dia a dia de uma PME brasileira é leitura da CGLC.
| Estudo | Tipo | O que os autores relatam |
|---|---|---|
| Benson, Li e Shue (2019), Quarterly Journal of Economics | Análise de promoções com dados de profissionais de vendas de 131 empresas (sem foco em PMEs) | As empresas tendem a promover pelo desempenho atual, e não pelas características que melhor preveem o sucesso como gestor, resultado coerente com o princípio de Peter; promover quem tem menos potencial gerencial é custoso, o que sugere decisões ineficientes ou incentivos que compensam o custo; o peso dado ao desempenho em vendas é menor quando o cargo de gestão tem mais responsabilidade e quando a remuneração da linha de frente está muito ligada ao desempenho |
| Lacerenza e colegas (2017), Journal of Applied Psychology | Meta-análise de 335 amostras independentes sobre treinamento de líderes (sem foco declarado em PMEs nem em primeira liderança) | Efeitos estimados em δ = 0,63 para reações, 0,73 para aprendizagem, 0,82 para transferência e 0,72 para resultados; efeitos mais fortes associados a análise de necessidades, feedback, vários métodos de entrega (sobretudo prática), sessões espaçadas, local de trabalho e formato presencial não autoadministrado |
| Day e colegas (2014), The Leadership Quarterly | Revisão de cerca de 25 anos de literatura, centrada em artigos da própria revista (sem foco em PMEs) | Define desenvolvimento de liderança de forma ampla, inclui o desenvolvimento do líder, e examina aspectos intrapessoais e interpessoais, com ênfase nos processos de feedback multifonte, além de estudos longitudinais e questões de método |
O que a meta-análise sobre treinamento de líderes relata
Lacerenza e colegas (2017), no Journal of Applied Psychology, partem de um incômodo: as organizações gastam grande parte do orçamento de treinamento com programas de liderança, mas poucas os consideram muito eficazes. A meta-análise usa dados de funcionários, avalia os resultados pelos quatro critérios de Kirkpatrick (reações, aprendizagem, transferência e resultados) e examina 15 moderadores de desenho e entrega do treinamento.
Com 335 amostras independentes, os autores relatam que o treinamento de liderança parece mais eficaz do que se supunha, com tamanhos de efeito (δ) de 0,63 para reações, 0,73 para aprendizagem, 0,82 para transferência e 0,72 para resultados.
Segundo os autores, a força dos efeitos varia com o desenho, a entrega e a implementação. Análise de necessidades, feedback, vários métodos de entrega (especialmente a prática), sessões espaçadas, realização no local de trabalho e formato presencial que não seja autoadministrado aparecem associados a efeitos mais fortes. Conteúdo, política de presença e duração também influenciam a eficácia.
O guia sobre treinamento de liderança aprofunda o tema.
O que a revisão de 25 anos sobre desenvolvimento de líderes relata
Day e colegas (2014), na The Leadership Quarterly, revisam cerca de 25 anos de literatura teórica e empírica sobre desenvolvimento de líderes e de liderança, com foco principal em artigos publicados na própria revista.
Os autores definem o desenvolvimento de liderança de forma ampla, de modo a incluir o desenvolvimento do líder, e observam que o estudo sistemático do tema é relativamente jovem em comparação com a pesquisa sobre liderança em geral.
A revisão examina aspectos intrapessoais e interpessoais da busca por liderança eficaz, descreve como o desenvolvimento acontece com ênfase nos processos de feedback multifonte, analisa estudos longitudinais e discute questões de método.
Leitura da CGLC: essa revisão não tem a primeira liderança como foco declarado, mas a ênfase em feedback multifonte e em estudos longitudinais é coerente com a ideia de que desenvolver um líder é um processo ao longo do tempo, com retorno de quem convive com ele.
Leitura da CGLC: a meta-análise de Lacerenza e colegas trata de treinamento de líderes em geral, sem foco declarado em quem lidera pela primeira vez, e as associações que ela relata não provam que cada característica, isolada, causa o efeito. Os autores associam características como análise de necessidades, feedback, prática e sessões espaçadas a efeitos mais fortes, e a CGLC lê nisso uma razão para preferir programas com diagnóstico, prática e retorno a um curso único. Essa combinação é leitura da CGLC, e não achado do estudo.
Como a PME prepara quem foi promovido: cinco passos
Leitura da CGLC: os passos abaixo são método da casa, montados pela CGLC a partir da leitura dos três estudos e da prática com líderes de PME. Nenhum deles foi testado como pacote em estudo.
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Antes do anúncio
Nomear a mudança de papel e escolher com critério
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Primeira semana
Combinar as três rotinas: conversa individual, delegação e feedback
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Meses 1 a 3
Treinar com prática, casos reais e retorno ao longo do tempo
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Dia 90
Revisar o que funciona, o que o time diz e o que falta aprender
- Nomear a mudança de papel, por escrito. Antes de anunciar a promoção, conversar com a pessoa sobre o que deixa de ser trabalho dela e o que passa a ser. Uma página basta: três responsabilidades novas, uma ou duas tarefas que ela entrega ao time e quem decide o quê.
- Escolher com critério, e não só pelo desempenho. Benson, Li e Shue (2019) relatam que as empresas tendem a promover pelo desempenho atual e que promover quem tem menos potencial gerencial é custoso, o que os autores leem como decisões ineficientes ou incentivos que compensam o custo. Na leitura da CGLC, vale perguntar também se a pessoa tem interesse genuíno em desenvolver os outros e se já conduziu, de alguma forma, o trabalho de colegas. Observar candidatos antes de a vaga abrir ajuda a decidir com calma.
- Combinar três rotinas desde a primeira semana. (a) conversa individual com cada pessoa do time, em frequência combinada (a CGLC costuma sugerir quinzenal, ajustável); (b) uma regra clara de delegação, com resultado, prazo, limite e retorno; (c) um espaço para feedback curto e frequente. São as rotinas que a CGLC usa para atacar os erros do quadro anterior.
- Treinar com prática e retorno ao longo do tempo. Lacerenza e colegas (2017) associam prática, feedback e sessões espaçadas a efeitos mais fortes. Na leitura da CGLC, isso se traduz em encontros curtos e repetidos, com casos reais do próprio time, em vez de uma tarde de palestra. Day e colegas (2014) revisam estudos longitudinais e dão ênfase a processos de feedback de várias fontes, o que a CGLC lê como reforço da ideia de desenvolvimento ao longo do tempo.
- Revisar aos 90 dias. Sentar com o novo gestor e com quem o apoia, olhar três perguntas (o que está funcionando, o que o time diz que mudou, o que falta aprender) e ajustar o plano. A escolha dos 90 dias é critério prático da CGLC, não prazo extraído de estudo.
Leitura da CGLC: para o dono ou o sócio que também lidera, o primeiro apoio ao novo gestor é a própria conduta de quem promove. Se a diretoria continua passando por cima dele para falar direto com o time, nenhuma rotina se sustenta. O guia sobre desenvolvimento de lideranças mostra como organizar esse apoio em toda a empresa.
Promoveu alguém e quer que o primeiro ano de liderança dê certo, com prática e acompanhamento?
Perguntas frequentes
O que é um líder de primeira viagem?
Neste guia, é quem assume pela primeira vez a responsabilidade pelo resultado de outras pessoas, em geral promovido por ter se destacado como executor. É uma definição de trabalho da CGLC. O que caracteriza essa fase é a mudança de papel: o valor deixa de estar na entrega individual e passa para a entrega do time.
Quais erros evitar para quem lidera pela primeira vez?
Na leitura da CGLC, os que merecem atenção são continuar executando o trabalho de antes, controlar cada passo, delegar sem contexto ou não delegar, adiar a conversa difícil, não ajustar o combinado com ex-colegas, querer mudar tudo cedo demais e deixar o acompanhamento para quando sobrar tempo. A lista vem da prática da CGLC, e não de uma contagem em estudo.
Promover o melhor executor é uma boa ideia?
Benson, Li e Shue (2019), com dados de profissionais de vendas de 131 empresas, relatam que as empresas tendem a promover pelo desempenho atual, e não pelas características que melhor preveem o sucesso como gestor, e que promover quem tem menos potencial gerencial é custoso, o que sugere decisões ineficientes ou incentivos que compensam o custo. O estudo não tem as PMEs brasileiras como foco. Na leitura da CGLC, o bom desempenho na função é um dado a considerar, mas não basta como único critério.
Treinamento de liderança funciona?
Lacerenza e colegas (2017), numa meta-análise de 335 amostras independentes, relatam efeitos positivos do treinamento de liderança em reações, aprendizagem, transferência e resultados, e efeitos mais fortes associados a análise de necessidades, feedback, vários métodos de entrega (sobretudo prática) e sessões espaçadas. A meta-análise trata de treinamento de líderes em geral, sem foco declarado em quem lidera pela primeira vez nem em PMEs.
Quanto tempo leva para um novo gestor se firmar?
O prazo é critério da CGLC, e não resultado de estudo. Na leitura da CGLC, uma revisão formal aos 90 dias é um ponto de checagem prático, e não um limite para a pessoa se sentir à vontade no papel. O importante é que haja um momento combinado para olhar o que funcionou e ajustar o plano.
Fontes e referências
- Benson, A., Li, D., & Shue, K. (2019). Promotions and the Peter Principle. The Quarterly Journal of Economics, 134(4), 2085-2134. https://doi.org/10.1093/qje/qjz022
- Lacerenza, C. N., Reyes, D. L., Marlow, S. L., Joseph, D. L., & Salas, E. (2017). Leadership training design, delivery, and implementation: A meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 102(12), 1686-1718. https://doi.org/10.1037/apl0000241
- Day, D. V., Fleenor, J. W., Atwater, L. E., Sturm, R. E., & McKee, R. A. (2014). Advances in leader and leadership development: A review of 25 years of research and theory. The Leadership Quarterly, 25(1), 63-82. https://doi.org/10.1016/j.leaqua.2013.11.004
Por: Wilma Morais, psicóloga e executive coach na CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 03/11/2026.
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