Retrabalho, na definição de trabalho da CGLC, é todo serviço, peça ou documento que precisa ser refeito, corrigido ou complementado porque não saiu certo, completo ou conforme o pedido na primeira vez. Na nossa prática, em uma PME ele raramente aparece numa linha da planilha: aparece como hora extra, entrega atrasada e a sensação de que a equipe trabalha muito e adianta pouco.
Este guia explica o que é retrabalho, como medi-lo com uma conta simples, onde ele costuma nascer no fluxo de trabalho e o que três estudos científicos examinaram sobre o tema. O que for método da casa vem marcado no texto.
Resumo rápido
- O que é: na definição de trabalho da CGLC, fazer de novo o que deveria ter saído pronto. Pedido novo e pago do cliente não entra na conta; correção do que já foi entregue entra.
- Como medir: taxa de retrabalho (horas refazendo ÷ horas trabalhadas) e rendimento na primeira passada (itens aprovados de primeira ÷ itens produzidos). São medidas de gestão usadas pela CGLC, e não resultados dos estudos citados.
- Onde nasce: em cinco pontos do fluxo (leitura da CGLC): pedido, especificação, execução, conferência e entrega. Na nossa prática, a maior parte costuma nascer antes da execução, e isso não vem dos estudos.
- Hwang et al. (2009) analisaram 359 projetos de construção. Relatam que os impactos do retrabalho diferem conforme as características do projeto e que as principais fontes não diferem significativamente entre as categorias. Mudança feita pelo dono da obra e erro ou omissão de projeto foram as fontes mais citadas em primeiro lugar.
- Love e Edwards (2004) levantaram 161 projetos de construção na Austrália e relatam que mudanças iniciadas pelo cliente e o uso ineficaz de tecnologia da informação por profissionais de projeto contribuem significativamente para o retrabalho.
- Limite das fontes: nenhuma tem foco em retrabalho em PME, e duas tratam de construção. Elas orientam as perguntas, não garantem resultado na sua empresa.
Na nossa prática: o dono de PME costuma enxergar o retrabalho como falha de pessoas (“o pessoal não presta atenção”). Quando o registro é feito por duas semanas, a origem mais frequente costuma estar no que foi pedido, combinado ou passado adiante antes de a tarefa começar. O restante do texto mostra como chegar a essa leitura com os dados da própria empresa.
O que é retrabalho e o que não é
Leitura da CGLC: a definição acima tem um critério prático: o trabalho foi dado como pronto, ou deveria ter sido, e voltou para a bancada. A tabela separa situações que costumam ser misturadas na conversa do dia a dia.
| Situação | É retrabalho? (leitura da CGLC) | Por quê |
|---|---|---|
| Peça entregue com medida errada e refeita | Sim | Foi dada como pronta e voltou |
| Proposta enviada sem um item combinado e reenviada | Sim | Saiu incompleta na primeira vez |
| Cliente muda o pedido depois de iniciado, sem cobrar nem reprogramar | Sim (critério da CGLC), de origem externa | O que estava feito é refeito sem que o prazo ou o preço mudem |
| Cliente pede um item novo, com preço e prazo combinados | Não | É escopo novo, e não correção do que já foi feito |
| Conferência que acha o erro antes da entrega | Não, é prevenção | O custo existe, mas o cliente não recebe o defeito |
| Melhoria em processo que já funcionava | Não | Não havia falha a corrigir |
Leitura da CGLC: a linha da mudança de pedido sem renegociação é a que mais surpreende o dono de PME. O trabalho refeito tem custo de hora e material mesmo quando a causa está fora da empresa, e por isso ele entra no registro com a origem anotada como “cliente”.
Como medir o retrabalho na PME
Na nossa prática: a PME não precisa de sistema para começar. Duas contas e uma folha de registro bastam.
| Medida | Conta | O que responde |
|---|---|---|
| Taxa de retrabalho | horas gastas refazendo ÷ horas totais trabalhadas no período | Quanto do tempo pago volta para a mesma tarefa |
| Rendimento na primeira passada | itens aprovados sem correção ÷ itens produzidos no período | Quanto sai certo na primeira vez |
| Custo do retrabalho | horas refeitas × custo da hora + material perdido + custo do atraso, quando ele existe | Quanto o refazer custou em dinheiro |
Leitura da CGLC: exemplo ilustrativo, com números inventados só para mostrar a conta. Uma marcenaria com quatro pessoas trabalha 640 horas no mês e registra 64 horas refazendo portas e ajustando medidas. A taxa de retrabalho é 64 ÷ 640 = 10%. Se 90 das 100 portas do mês saíram sem correção, o rendimento na primeira passada é 90%. Os números reais são os da sua empresa; esta conta mostra só o formato.
O dado que alimenta as contas vem de uma folha de registro, preenchida por duas semanas, no momento em que o retrabalho acontece. A ficha abaixo é um ponto de partida.
| Campo | O que anotar | Exemplo ilustrativo |
|---|---|---|
| Data e item | O que voltou e quando | Porta do armário do pedido de um cliente, 12/10 |
| O que foi refeito | Em uma frase, sem culpado | Refilar a borda por medida diferente da combinada |
| Onde nasceu | Pedido, especificação, execução, conferência ou entrega | Especificação |
| Horas e material | Tempo de quem refez e o que foi descartado | 3 horas e uma tábua |
| Quem pediu | Equipe, cliente ou fornecedor | Cliente alterou a medida por mensagem |
Na nossa prática: a coluna “onde nasceu” é a mais valiosa da ficha, porque separa o defeito de execução (que aparece na bancada) do defeito de origem (que aparece na conversa anterior ao trabalho). É ela que direciona a ação no fim do período. Escolha poucos números e acompanhe-os todo mês, em vez de medir tudo.
Onde o retrabalho nasce no processo
Leitura da CGLC: o diagrama abaixo mostra cinco pontos do fluxo em que o retrabalho costuma ser plantado. É método de trabalho da CGLC, e não resultado de pesquisa.
-
1. Pedido
O que o cliente quer fica incompleto, verbal ou espalhado em várias mensagens
-
2. Especificação
Medida, material, prazo e critério de aceite não são fechados por escrito
-
3. Execução
A pessoa que executa não recebe toda a informação ou trabalha com pressa
-
4. Conferência
O erro é achado tarde, no fim, quando refazer custa mais
-
5. Entrega
O cliente recebe e devolve: o retrabalho já virou reclamação
Na nossa prática: quando o registro de duas semanas é somado por etapa, os pontos 1 e 2 costumam concentrar parte importante das horas refeitas, embora o defeito só apareça nos pontos 4 e 5. A etapa em que o defeito é visto não é a etapa em que ele nasceu, e é por isso que reforçar a conferência final, sozinho, raramente reduz a taxa.
Para enxergar a cadeia completa de uma tarefa, o fluxograma de processos mostra quem passa a informação para quem, e o diagrama de Ishikawa ajuda a organizar as causas de um defeito específico.
O que a pesquisa examinou
Uma ressalva vem antes dos dados e vale para todo o artigo. Dois dos três estudos são de construção civil e o terceiro trata da dinâmica de melhoria de processos em uma empresa. Nenhum tem foco em retrabalho em PME.
| Fonte | O que examinou | O que os autores relatam | Limite para a PME |
|---|---|---|---|
| Hwang et al. (2009) | Retrabalho e desempenho de custo em 359 projetos de construção do banco de dados do Construction Industry Institute | Os impactos do retrabalho diferem conforme as características do projeto, e as principais fontes de retrabalho não diferem significativamente entre as categorias de projeto. Mudança do dono e erro ou omissão de projeto foram as fontes mais frequentemente apontadas em primeiro lugar | Projetos de capital do banco de dados do CII. Sem foco em PME nem em serviços |
| Love e Edwards (2004) | Determinantes do retrabalho em 161 projetos de construção na Austrália, com custos diretos e indiretos somados | Mudanças iniciadas pelo cliente e o uso ineficaz de tecnologia da informação por profissionais de projeto contribuem significativamente para o retrabalho. Os autores relatam também que o retrabalho em si pode afetar negativamente a segurança do projeto | Associações estatísticas em obras na Austrália. Sem foco em PME |
| Repenning e Sterman (2002) | Estudo de uma empresa que tentava melhorar dois processos centrais, com modelo dinâmico | Os autores propõem que o sucesso dos esforços de aprender e melhorar depende das interações entre as atribuições dos gestores sobre a causa do mau desempenho e a estrutura física do local de trabalho, em particular os atrasos entre investir em melhoria e perceber as recompensas | Trata de melhoria de processos, sem foco em retrabalho. Um estudo de uma empresa |
O que fica para a PME: leitura da CGLC e o que está em aberto
Os dois estudos de construção citam mudança feita por quem encomenda a obra. Em Hwang et al. (2009), mudança do dono e erro ou omissão de projeto estão entre as fontes mais frequentemente apontadas em primeiro lugar. Em Love e Edwards (2004), mudanças iniciadas pelo cliente aparecem entre os fatores que contribuem significativamente para o retrabalho. As medidas são diferentes (num caso, a frequência com que a fonte foi apontada em primeiro lugar; no outro, a contribuição estatística).
Também é possível que os estudos de construção definam retrabalho de modo diferente da definição de trabalho da CGLC.
Leitura da CGLC: a interpretação que fazemos para a PME é que a pergunta “onde nasceu?” merece o mesmo peso que a pergunta “quem errou?”. Os estudos não foram desenhados para testar isso em PME. Eles tratam de projetos de construção. Nesse setor, pedido e projeto costumam ser etapas separadas da obra, e a PME de serviços ou de produção pode ter uma fronteira bem menos nítida entre as etapas.
Repenning e Sterman (2002) acrescentam um ponto sobre o que determina o sucesso de esforços de melhoria. Segundo os autores, ele depende da interação entre o que os gestores atribuem como causa do mau desempenho e a estrutura física do local de trabalho, em particular os atrasos entre investir em melhoria e perceber a recompensa.
Leitura da CGLC: essa descrição é coerente com o que vemos na PME: consertar a peça hoje dá resultado hoje, e investigar a causa só retorna daqui a algumas semanas. O estudo tem foco em melhoria de processos, e a ligação com o retrabalho é nossa interpretação, que serve como hipótese para observar na sua empresa.
Ressalva de escopo, válida para toda menção a essas fontes neste artigo: são dois levantamentos em construção e um estudo de uma empresa sobre melhoria de processos. Não são evidência de quanto retrabalho existe nem de quanto um programa o reduz em uma PME.
Como reduzir o retrabalho: quatro passos
Na nossa prática: o roteiro abaixo é da CGLC e não vem dos estudos citados. Ele serve para a PME que não tem setor de qualidade e quer começar com o que já tem.
Passo 1: registrar por duas semanas, sem procurar culpado
Use a ficha da seção anterior. Quem refaz anota no momento em que refaz, em uma frase. A regra é que o registro nunca vira advertência. Se virar, a equipe para de registrar e o retrabalho some da planilha, e não da operação.
Passo 2: somar por onde nasceu e começar pelo maior bloco
No fim do período, some as horas por etapa de origem (pedido, especificação, execução, conferência, entrega) e depois por quem pediu. O maior bloco define o foco. Leitura da CGLC: atacar um bloco de cada vez rende mais do que espalhar ações pelas cinco etapas e não terminar nenhuma.
Passo 3: tratar a causa e não o sintoma
Para o bloco escolhido, pergunte “por quê?” até chegar a algo que a empresa possa mudar, como um campo que faltava no pedido, uma medida que não era conferida ou um aviso que não chegava a quem executa. O diagrama de Ishikawa ajuda a listar as causas, e o ciclo PDCA organiza a mudança em uma volta curta: planejar a correção, testar, conferir se a taxa caiu e padronizar o que funcionou.
Passo 4: mover a conferência para mais perto da origem
Na nossa prática: três ações simples costumam ter bom retorno: um modelo de pedido com os campos obrigatórios, uma confirmação por escrito de medida e prazo antes de iniciar, e uma conferência curta ao fim de cada etapa, em vez de só no final. Para a lógica de eliminar desperdício no fluxo, veja o guia de Lean.
Erros comuns ao tratar o retrabalho
Leitura da CGLC: os erros abaixo vêm da nossa prática com PMEs e não de estudo.
- Medir só o que o cliente devolve. O retrabalho interno, que nunca chega ao cliente, pode ser grande e fica invisível.
- Tratar o registro como controle individual. O dado passa a ser maquiado e a causa de origem se perde.
- Reforçar só a conferência final. O defeito é visto ali, mas nasceu antes.
- Aceitar toda mudança de pedido sem renegociar. O refazer vira custo da empresa, sem que ninguém o veja.
- Trocar de ferramenta antes de entender a causa. Um software novo não corrige um pedido mal especificado.
Quando vale ter apoio externo
Na nossa prática: a maioria das PMEs consegue fazer o registro e os dois primeiros passos sozinha. O apoio externo passa a valer a pena quando a causa está espalhada por várias áreas, quando o dono não tem tempo de conduzir a rotina de melhoria, ou quando o retrabalho já pesa na margem e a empresa precisa decidir onde investir. Essa lista é critério da CGLC e não de pesquisa. Para o quadro mais amplo de como a empresa aprende a melhorar, veja o guia de cultura de inovação.
Sua equipe passa horas refazendo o que já deveria estar pronto? O InovaPME, a solução de cultura de inovação da CGLC para PMEs, começa por um diagnóstico da sua empresa, ajuda a achar onde o processo planta o retrabalho e a estruturar as melhorias de forma que a equipe consiga mantê-las.
Perguntas frequentes
O que é retrabalho?
Na definição de trabalho da CGLC, é todo serviço, peça ou documento que precisa ser refeito, corrigido ou complementado porque não saiu certo, completo ou conforme o pedido na primeira vez. Na leitura da CGLC, pedido novo e pago do cliente não conta, e correção do que já foi entregue conta.
Como calcular a taxa de retrabalho?
Divida as horas gastas refazendo pelas horas totais trabalhadas no período. É a conta que a CGLC usa na prática com PMEs, e não um índice extraído dos estudos citados. Se uma equipe trabalha 640 horas e 64 são de retrabalho, a taxa é 10% (exemplo ilustrativo).
O que os estudos de construção apontam como fontes de retrabalho?
Em 359 projetos de construção, Hwang et al. (2009) relatam que mudança feita pelo dono da obra e erro ou omissão de projeto foram as fontes mais frequentemente apontadas em primeiro lugar. Love e Edwards (2004), em 161 projetos na Austrália, relatam que mudanças iniciadas pelo cliente e o uso ineficaz de tecnologia da informação por profissionais de projeto contribuem significativamente. Na leitura da CGLC, a PME deve registrar a origem do próprio retrabalho, porque esses estudos não têm foco em empresas pequenas.
Retrabalho e defeito são a mesma coisa?
Na leitura da CGLC, não: o defeito é o problema encontrado no produto ou no serviço, e o retrabalho é o trabalho gasto para corrigi-lo. Um defeito achado na conferência e corrigido antes da entrega gera retrabalho interno sem chegar ao cliente.
Por onde começar a reduzir o retrabalho na PME?
Com um registro de duas semanas, em que quem refaz anota o que foi refeito, onde nasceu e quantas horas custou. Na leitura da CGLC, o passo seguinte é somar por etapa de origem e atacar o maior bloco, em vez de reforçar a conferência final.
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Fontes e referências
- Hwang, B.-G., Thomas, S. R., Haas, C. T., & Caldas, C. H. (2009). Measuring the impact of rework on construction cost performance. Journal of Construction Engineering and Management, 135(3), 187-198. https://doi.org/10.1061/(ASCE)0733-9364(2009)135:3(187)
- Love, P. E. D., & Edwards, D. J. (2004). Determinants of rework in building construction projects. Engineering, Construction and Architectural Management, 11(4), 259-274. https://doi.org/10.1108/09699980410547612
- Repenning, N. P., & Sterman, J. D. (2002). Capability traps and self-confirming attribution errors in the dynamics of process improvement. Administrative Science Quarterly, 47(2), 265-295. https://doi.org/10.2307/3094806
Por: Clayton Lambert, engenheiro de produção e consultor de transformação e inovação da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 15/10/2026.
A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
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