P&D é a sigla de pesquisa e desenvolvimento. O Manual de Frascati, da OECD (2015), define P&D como trabalho criativo e sistemático feito para aumentar o estoque de conhecimento e conceber novas aplicações do conhecimento disponível.
Este guia explica o que é P&D e o que não é, resume o que três estudos publicados relatam sobre empresas de menor porte e propõe cinco passos para estruturar a prática sem montar um laboratório. O que for critério da casa vem marcado no texto.
Resumo rápido
- O que é: trabalho criativo e sistemático feito para aumentar o estoque de conhecimento e conceber novas aplicações do conhecimento disponível (definição do Manual de Frascati, OECD, 2015).
- Critério de entrada: o Manual de Frascati lista cinco critérios para uma atividade contar como P&D: ser nova, criativa, incerta, sistemática e transferível e/ou reprodutível.
- Medição: Kleinknecht (1987) relata que as pesquisas de P&D da OECD eram consideravelmente enviesadas para subestimar o P&D das empresas pequenas, numa comparação com dados holandeses. O estudo é antigo.
- Dinheiro: Hall (2002), numa revisão da evidência sobre a lacuna de financiamento do P&D, conclui que empresas pequenas e novas que inovam enfrentam custo de capital alto, só em parte aliviado pelo capital de risco.
- Inovação e desempenho: Rosenbusch, Brinckmann e Bausch (2011), numa meta-análise de estudos sobre PMEs, relatam que a relação entre inovação e desempenho depende do contexto, como idade da empresa, tipo de inovação e contexto cultural. O estudo mede inovação, e não P&D em si. Os três estudos tratam, respectivamente, de medição do P&D, de financiamento do P&D e de inovação e desempenho.
- Método: os cinco passos e os indicadores deste guia são leitura da CGLC, e não resultado dos estudos.
Leitura da CGLC: na PME, P&D costuma ser confundido com laboratório, e o dono conclui que é coisa de empresa grande. O que costuma faltar não é prédio nem doutor: é uma pergunta técnica bem feita, um orçamento pequeno e fechado e alguém com a responsabilidade de registrar o que foi aprendido.
O que é P&D e o que não é
O Manual de Frascati (OECD, 2015) é a referência internacional para medir P&D. Além da definição, ele estabelece cinco critérios para uma atividade contar como P&D: ser nova, criativa, incerta, sistemática e transferível e/ou reprodutível.
Leitura da CGLC: o critério da incerteza é o que mais ajuda o gestor, porque separa P&D de trabalho de rotina. O teste prático para a PME cabe em uma pergunta: a equipe já sabe como fazer e só precisa executar, ou existe dúvida real sobre se vai funcionar? Se já sabe, é melhoria, produção ou projeto, e tudo bem. Se há dúvida técnica genuína, é P&D. Tentar uma liga, uma receita ou um software que ninguém na empresa dominou é.
Leitura da CGLC: P&D também não é sinônimo de inovação. A inovação inclui o que a empresa leva ao mercado ou à operação, e o P&D é uma das formas de chegar lá, não a única (veja o que é inovação). Uma PME pode inovar copiando uma boa prática de outro setor, sem fazer pesquisa nenhuma.
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1. Bancada
O dono ou o técnico reserva horas fixas por semana para testar uma dúvida técnica
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2. Parceria
Um instituto, universidade ou fornecedor ajuda na parte que a empresa não domina
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3. Equipe dedicada
Uma ou mais pessoas com P&D como função, quando a demanda justifica
O que três estudos relatam sobre empresas de menor porte
Os três estudos abaixo têm desenhos diferentes: uma comparação entre pesquisas de P&D, uma revisão da evidência sobre financiamento do P&D e uma meta-análise sobre inovação em PMEs. A aplicação ao dia a dia de uma PME brasileira é leitura da CGLC.
| Estudo | Tipo | O que os autores relatam |
|---|---|---|
| Kleinknecht (1987), The Journal of Industrial Economics | Comparação entre a pesquisa oficial holandesa de P&D e uma pesquisa própria do autor com 3.000 empresas | As pesquisas de P&D da OECD eram consideravelmente enviesadas para subestimar o P&D das empresas pequenas; o autor observa que a base é holandesa e que a pesquisa holandesa é compatível com as de outros países da OECD; o resultado põe em dúvida diversos estudos empíricos, como os sobre estrutura de mercado e P&D, tamanho da empresa e P&D, e P&D e crescimento |
| Hall (2002), Oxford Review of Economic Policy | Revisão da evidência sobre a lacuna de financiamento do P&D | Empresas pequenas e novas que inovam enfrentam custo de capital alto, só em parte aliviado pelo capital de risco; há limites ao capital de risco como solução, sobretudo onde os mercados de ações abertos são pouco desenvolvidos |
| Rosenbusch, Brinckmann e Bausch (2011), Journal of Business Venturing | Meta-análise da relação entre inovação e desempenho em PMEs | A pesquisa empírica tem resultados controversos; a relação inovação e desempenho depende do contexto, e fatores como a idade da empresa, o tipo de inovação e o contexto cultural afetam bastante o impacto da inovação no desempenho |
Pesquisas de P&D da OECD subestimaram o P&D da empresa pequena
Kleinknecht (1987), no Journal of Industrial Economics, comparou a pesquisa oficial holandesa de P&D com uma pesquisa própria entre 3.000 empresas. Relata que as pesquisas de P&D da OECD eram consideravelmente enviesadas para subestimar o P&D das empresas pequenas.
O autor observa que o resultado se baseia em dados holandeses, mas que a pesquisa oficial holandesa é plenamente compatível com as de outros países da OECD.
Leitura da CGLC: o estudo é antigo e de outro país, e por isso não dá número para a PME brasileira. A lição que a CGLC tira dele é de gestão: a PME que não registra o que faz não consegue ver o próprio P&D. Horas de bancada, protótipos descartados e testes com fornecedor precisam entrar em algum controle, ainda que seja uma planilha.
Empresas pequenas e novas que inovam enfrentam custo de capital alto
Hall (2002), no Oxford Review of Economic Policy, revisa a evidência sobre a lacuna de financiamento do P&D, com foco nas razões do mercado financeiro para o investimento insuficiente. Conclui que empresas pequenas e novas que inovam enfrentam custo de capital alto, só em parte aliviado pelo capital de risco.
Aponta ainda limites do capital de risco como solução, especialmente em países cujos mercados de ações abertos são pouco desenvolvidos.
Leitura da CGLC: sem transpor os achados de Hall (2002) à PME brasileira, a consequência prática que a CGLC enxerga é desenhar o P&D de modo que caiba no caixa próprio: projetos curtos, com teto de gasto definido antes de começar e uma decisão de continuar ou parar em datas marcadas. Um projeto de P&D que depende de captar dinheiro para sobreviver é um risco que o dono precisa ver de frente.
Inovar nem sempre traz resultado, e o contexto pesa
Rosenbusch, Brinckmann e Bausch (2011), no Journal of Business Venturing, sintetizam estudos empíricos sobre inovação e desempenho em pequenas e médias empresas. Relatam resultados controversos.
Constatam que a relação depende do contexto: a idade da empresa, o tipo de inovação e o contexto cultural afetam bastante o impacto da inovação no desempenho. O estudo mede inovação, e não P&D especificamente.
Leitura da CGLC: como o impacto da inovação depende do contexto, a CGLC recomenda tratar cada projeto de P&D como uma aposta com critério de parada, e não como investimento de fé. Para escolher em que apostar e quando parar, o nível de maturidade da tecnologia ajuda (veja o que é TRL).
Como estruturar P&D na PME em cinco passos
Leitura da CGLC: os cinco passos abaixo são método da CGLC, construído a partir da prática de projetos em empresas pequenas e médias. Eles não vêm dos estudos citados.
- Formule uma pergunta técnica com incerteza real. Em vez de "vamos inovar em embalagem", pergunte: "um filme de menor espessura aguenta o transporte até o cliente?" Se a resposta já existe, a pergunta não é de P&D.
- Fixe um teto de tempo e de dinheiro. Defina, antes de começar, quanto a empresa aceita perder neste teste, em horas e em reais, e quem responde pelo teste.
- Nomeie um responsável. Sem nome, o projeto vira tarefa de todos e de ninguém. Na PME, costuma ser o técnico mais experiente ou o próprio dono, com horas reservadas na agenda.
- Marque pontos de decisão. A cada etapa, a pergunta é continuar, mudar ou parar. Um teste rápido, como o de um produto mínimo viável (MVP), ajuda a decidir antes de gastar mais.
- Registre o aprendizado, inclusive o do que não funcionou. Anote o que foi testado, o resultado e o motivo da decisão, de modo que o conhecimento fique na empresa e não na cabeça de uma pessoa.
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1. Pergunta
Dúvida técnica com incerteza real
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2. Teste curto
Teto de tempo e de dinheiro definido antes
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3. Decisão
Continuar, mudar ou parar, com data marcada
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4. Registro
O que foi testado e por que se decidiu assim
Na nossa prática: o erro mais comum de uma PME é pular o passo 2. Sem teto, o teste se arrasta, consome as horas dos melhores técnicos e só termina quando alguém cansa. Com teto, o fracasso barato vira informação, e não prejuízo.
Leitura da CGLC: quando a dúvida técnica está fora do que a equipe domina, a parceria com um instituto de pesquisa, uma universidade ou um fornecedor é uma saída; o caminho é descrito em inovação aberta. Para a empresa que quer criar o ambiente em que essa prática se sustenta, vale ler também sobre cultura de inovação.
Como medir o retorno do P&D sem se enganar
Rosenbusch e colegas (2011) relatam que o impacto da inovação depende do contexto. Leitura da CGLC: a consequência para a medição é que não existe um número único que sirva a toda PME. Por isso, a proposta é acompanhar poucos indicadores, cada um escolhido por responder a uma pergunta de gestão.
| Indicador | Pergunta de gestão que responde |
|---|---|
| Horas e gasto registrados em P&D | Quanto a empresa realmente investe em tentar algo novo? |
| Projetos com decisão registrada (continuar, mudar, parar) | Os testes estão terminando em decisão, ou apenas se arrastando? |
| Tempo da pergunta ao primeiro protótipo ou teste | A equipe está testando rápido o bastante? |
| Aprendizados registrados por projeto | O conhecimento fica na empresa quando o responsável sai? |
| Projetos que chegaram à operação ou ao mercado | O P&D está se convertendo em algo que o cliente ou a produção usa? |
Leitura da CGLC: a lista deliberadamente não traz meta de percentual do faturamento, porque a CGLC não a inventa. O primeiro indicador da tabela, o registro de horas e gasto, é o ponto de partida: a empresa que não se mede não consegue sequer discutir o retorno.
Erros comuns ao estruturar P&D na PME
Leitura da CGLC: os erros abaixo vêm da prática da CGLC com empresas pequenas e médias, e não de estudo.
- Começar pela estrutura, e não pela pergunta. Contratar o profissional ou montar a sala antes de saber o que se quer descobrir.
- Chamar de P&D o que é rotina. Se não há incerteza, é melhoria ou produção, e o rótulo inflado atrapalha a medição.
- Não definir quando parar. Projeto sem critério de parada vira custo fixo.
- Não registrar o que deu errado. A empresa paga duas vezes pelo mesmo erro quando a pessoa que o cometeu sai.
- Esperar retorno de curto prazo de toda aposta. Parte dos testes vai terminar em "não funciona", e isso também é resultado.
Quer estruturar o P&D da sua empresa, com uma pergunta real e um teste de prazo e custo definidos?
Perguntas frequentes
O que é P&D?
P&D é pesquisa e desenvolvimento. O Manual de Frascati (OECD, 2015) o define como trabalho criativo e sistemático feito para aumentar o estoque de conhecimento e conceber novas aplicações do conhecimento disponível. Leitura da CGLC: na PME, o teste prático é perguntar se há dúvida técnica real sobre o resultado.
P&D é só para indústria ou empresa grande?
Leitura da CGLC: não. A pergunta técnica com incerteza pode existir em qualquer empresa com produto, processo ou serviço técnico.
Quanto uma PME deve investir em P&D?
Hall (2002) relata que empresas pequenas e novas que inovam enfrentam custo de capital alto. Leitura da CGLC: este guia não adota um percentual, e a CGLC não o inventa. O caminho prudente é definir um teto que o caixa aguente, por projeto, antes de começar.
Qual a diferença entre P&D e melhoria contínua?
O Manual de Frascati inclui a incerteza entre os cinco critérios de P&D. Leitura da CGLC: na melhoria contínua, a equipe já sabe o caminho e busca ganho incremental; no P&D, existe dúvida real sobre se vai funcionar.
Como medir o retorno de P&D?
Rosenbusch, Brinckmann e Bausch (2011) relatam que a relação entre inovação e desempenho em PMEs depende do contexto. Leitura da CGLC: comece registrando horas e gasto, as decisões tomadas por projeto e os aprendizados, e só depois discuta retorno financeiro.
Fontes e referências
- OECD (2015). Frascati Manual 2015: Guidelines for Collecting and Reporting Data on Research and Experimental Development. Paris: OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/9789264239012-en
- Kleinknecht, A. (1987). Measuring R & D in small firms: how much are we missing? The Journal of Industrial Economics, 36(2), 253. https://doi.org/10.2307/2098417
- Hall, B. H. (2002). The financing of research and development. Oxford Review of Economic Policy, 18(1), 35-51. https://doi.org/10.1093/oxrep/18.1.35
- Rosenbusch, N., Brinckmann, J., & Bausch, A. (2011). Is innovation always beneficial? A meta-analysis of the relationship between innovation and performance in SMEs. Journal of Business Venturing, 26(4), 441-457. https://doi.org/10.1016/j.jbusvent.2009.12.002
Por: Clayton Lambert, engenheiro de produção e consultor de transformação e inovação da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 05/11/2026.
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