A reunião de abertura tinha oito pessoas, um quadro branco e a matriz de stakeholders pronta em quarenta minutos. As bolinhas foram distribuídas nos quatro quadrantes e todo mundo saiu com a sensação de dever cumprido. Três meses depois o projeto parou.
Quem parou foi o encarregado da expedição. Ele não estava em quadrante nenhum, e descobriu na véspera da virada que o sistema novo mudava a conferência de carga que ele faz há onze anos. Levou o caso ao dono. O dono adiou.
Resumo rápido
- Stakeholder é quem afeta ou é afetado pelo que a empresa faz. A definição é larga o bastante para caber quase todo mundo, e uma lista em que cabe todo mundo não orienta decisão nenhuma.
- O modelo acadêmico de referência tem três atributos, não dois. Mitchell, Agle e Wood (1997) propõem poder, legitimidade e urgência, e derivam daí uma tipologia de classes de stakeholder. A matriz de poder e interesse que circula no mercado é outro instrumento.
- O ponto que o mercado pula. Os autores propõem que os atributos são variáveis, socialmente construídos e não estáticos. E a saliência de que eles tratam é sempre saliência para os gestores.
- O teste empírico apoiou a relação central, mas não o elo com dinheiro. Agle, Mitchell e Sonnenfeld (1999), com dados de 80 presidentes de grandes empresas dos Estados Unidos, relatam forte apoio à relação entre atributos e saliência, e não relatam apoio à relação entre saliência e desempenho financeiro.
- A literatura que prega o tema costuma não fazer o básico. Achterkamp e Vos (2008) avaliaram 42 publicações de gestão de projetos e relatam que apenas uma minoria apresenta definição clara e trata da identificação de stakeholders.
- A consequência prática. Identificar vem antes de classificar. Priorizar uma lista que você nunca construiu direito é organizar a própria distração.
- O que fazemos na CGLC. Trocamos a pergunta “qual o poder dele” por outras duas: que decisão essa pessoa consegue adiar ou reverter, e o que ela precisa saber antes desse momento.
Essa cena se repete tanto que virou o motivo deste texto. O problema quase nunca é a falta de matriz. É que a matriz registra quem o time já estava olhando.
O que são stakeholders
Stakeholder é qualquer pessoa ou grupo que afeta ou é afetado pelo que a empresa faz. Cliente, funcionário, fornecedor, banco, sindicato, prefeitura, vizinho do galpão, o filho do sócio que trabalha no comercial. A tradução usual em português é “parte interessada”, embora o termo em inglês tenha se consolidado no dia a dia das empresas.
Parece uma definição inofensiva. Não é. Ela é larga o bastante para caber quase todo mundo, e é justamente aí que a prática desanda: uma lista em que cabe todo mundo não orienta decisão nenhuma.
Vale registrar que essa imprecisão não é falha da sua empresa. Achterkamp e Vos (2008) avaliaram 42 publicações de gestão de projetos segundo três critérios, entre eles a definição adotada e o tratamento da identificação. Eles relatam que apenas uma minoria das publicações apresenta uma definição clara e trata de como identificar stakeholders. Na literatura de gestão de projetos que eles examinaram, a maior parte falha em pelo menos uma das duas.
| Termo | O que significa aqui | Erro comum |
|---|---|---|
| Identificação | Descobrir quem é stakeholder deste projeto | Ser pulada. O time começa direto pela classificação |
| Classificação | Ordenar os já identificados por algum critério | Ser confundida com o trabalho inteiro |
| Saliência | Quanta atenção o gestor dá a um stakeholder | Ser lida como importância objetiva da pessoa |
Por que a matriz que você desenhou registra a sua atenção
O modelo acadêmico de referência sobre o assunto é o de Mitchell, Agle e Wood, publicado na Academy of Management Review em 1997. Ele propõe que a saliência de um stakeholder para os gestores depende de o stakeholder possuir um ou mais de três atributos: poder, legitimidade e urgência. Combinando os três, os autores derivam uma tipologia de classes de stakeholder e um conjunto de proposições sobre a atenção que cada classe recebe.
Sobre a origem destes achados: Agle e colegas estudaram 80 grandes empresas dos Estados Unidos, e Achterkamp e Vos analisaram literatura de gestão de projetos. Não é PME e não é Brasil.
Repare que são três atributos. A matriz de dois eixos, poder e interesse, que aparece em boa parte dos treinamentos de projeto, é outro instrumento. Ela é mais simples de desenhar, e é comum encontrá-la trocada pelo modelo dos três atributos em material de PME sobre o tema.
Os três atributos, e o que muda ao usá-los
As perguntas da tabela abaixo são a forma como traduzo cada atributo para a conversa de projeto. Das três definições, só a de urgência aparece no resumo que consultei.
| Atributo | Pergunta que ele responde | Como aparece na PME |
|---|---|---|
| Poder | Ele consegue impor a vontade dele? | Quem assina, quem paga, quem pode parar a máquina |
| Legitimidade | A demanda dele é vista como apropriada? | Quem tem contrato, cargo ou norma do lado dele |
| Urgência | A demanda dele exige atenção agora? | Quem tem prazo, multa ou cliente esperando |
Até aqui é o que costumo encontrar no material de treinamento. O que fica de fora são três observações que o próprio resumo do artigo traz, e são as mais úteis para quem toca projeto em empresa pequena.
Primeira: os atributos são variáveis, e não estados fixos. Quem tinha urgência em março pode não ter em setembro. Segunda: eles são socialmente construídos, ou seja, dependem de percepção, e não de uma medida objetiva. Terceira: a saliência de que os autores tratam é saliência para os gestores. É a atenção deles que está sendo descrita.
Junte as três e o desenho no quadro branco muda de natureza. Ele deixa de ser um retrato do mundo e passa a ser um retrato de quem o time estava olhando naquela manhã. O encarregado da expedição não apareceu na matriz porque ninguém pensou nele, não porque ele tenha pouco poder.
O achado que não aparece nas apresentações de fornecedor
Dois anos depois do modelo, saiu um teste em campo assinado por dois dos autores. Agle, Mitchell e Sonnenfeld (1999) publicaram na Academy of Management Journal um estudo com dados fornecidos pelos presidentes de 80 grandes empresas dos Estados Unidos, examinando atributos, saliência, valores do executivo e desempenho da empresa.
O resumo do estudo relata três resultados. Houve forte apoio à relação entre os atributos e a saliência: poder, legitimidade e urgência apareceram associados a quem o presidente atende primeiro. Houve algumas relações significativas entre valores do executivo, saliência e desempenho social da empresa. E não houve apoio à relação entre saliência e desempenho financeiro.
Leia o terceiro com calma, porque ele é desconfortável e é fácil de exagerar nos dois sentidos. Ele não diz que cuidar de stakeholder não serve para nada. Diz que, naquela amostra, dar mais atenção a um grupo não apareceu ligado a resultado financeiro melhor.
A leitura da CGLC é direta: o mapa não é a alavanca. A alavanca é o que muda por causa dele. Se o desenho no quadro não altera nenhuma decisão, nenhum prazo e nenhuma conversa da semana seguinte, ele foi uma reunião cara e nada mais.
Identificar vem antes de classificar
É aqui que costumo ver o projeto de PME perder o jogo. O time abre o quadro já com a lista pronta na cabeça: cliente, dono, equipe, fornecedor. Depois gasta a hora inteira arrumando essas quatro caixas em quadrantes. A hora foi gasta classificando, e a identificação nunca aconteceu.
Achterkamp e Vos (2008) chamam a atenção para uma categoria que nem sempre entra nos modelos de stakeholder de projeto: os passivos, afetados pelo resultado sem conseguir influenciá-lo. Numa fábrica, é o operador do turno da noite que vai receber a mudança pronta.
A pergunta que acha o passivo, na nossa experiência, acha também um segundo grupo, e este é leitura da CGLC, não da fonte: quem tem poder de fato na execução e simplesmente não foi lembrado no mapeamento. O encarregado da expedição, lá do começo do texto, é desse segundo tipo. Ele não é passivo, tanto que parou o projeto. Ele estava ausente do mapa.
Os dois somem pelo mesmo motivo e aparecem tarde pelo mesmo motivo: ninguém percorreu o trabalho antes de desenhar o quadro.
Como fazer isso em uma hora, na prática
O roteiro abaixo é o que uso quando entro numa empresa e o projeto já está andando. Ele inverte a ordem, de propósito: primeiro achar, depois ordenar.
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1. Percorra o fluxo, não o organograma
Liste as etapas do processo que vai mudar e escreva o nome de quem executa cada uma. O organograma esconde quem faz o trabalho
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2. Some quem está fora da empresa
Cliente, fornecedor, transportadora, banco, contador, órgão que fiscaliza. Quem recebe a saída do processo e quem entrega a entrada
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3. Pergunte quem vai ficar sabendo depois
Essa pergunta acha o stakeholder passivo, afetado pelo resultado sem conseguir influenciá-lo, e também quem tem poder na execução e ficou fora do mapa. É a que mais rende
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4. Só agora ordene
Com a lista completa na mão, ordene pelas duas perguntas da seção seguinte. Antes disso, você estaria ordenando as pessoas de quem já lembrava
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5. Marque data para refazer
Se os atributos variam, o mapa vence. Trinta dias é um intervalo razoável em projeto de PME
Se a sua empresa ainda não tem o processo desenhado, o passo 1 fica difícil. Nesse caso, comece por aí: o fluxograma de processos resolve em uma tarde e serve de base para o resto.
As perguntas que substituem a matriz
Depois de anos vendo matrizes bonitas não mudarem nada, passei a pedir outra coisa. Para cada nome da lista, o time responde duas perguntas curtas e escreve a resposta ao lado.
| Pergunta | Por que preferimos essa pergunta |
|---|---|
| Que decisão essa pessoa consegue adiar ou reverter? | Obriga a nomear o momento concreto do travamento, em vez de estimar poder no abstrato |
| O que ela precisa saber, e quando, para não travar? | Vira tarefa com dono e data. A matriz não vira |
No caso da expedição, as respostas teriam sido óbvias e baratas. A pessoa consegue adiar a virada do sistema, porque é ela quem confere a carga. E ela precisava saber, umas quatro semanas antes da virada, o que muda na conferência dela. Uma conversa de vinte minutos, naquele momento, provavelmente teria evitado a parada.
Três erros que vejo com mais frequência
| Erro | Como ele se manifesta | Correção |
|---|---|---|
| Mapa feito só na sala | A lista sai da memória de quem está na reunião | Percorrer o fluxo onde o trabalho acontece |
| Mapa feito uma vez | O desenho de janeiro rege o projeto em agosto | Data marcada para refazer, com o projeto andando |
| Mapa sem consequência | Ninguém consegue apontar o que mudou depois dele | Cada nome vira uma conversa com dono e data |
Tem um projeto parado e ninguém sabe explicar onde travou? No InovaPME a CGLC entra na sua operação, percorre o fluxo com o seu time e devolve o mapa de quem decide, com as conversas que faltam e a data de cada uma.
Perguntas frequentes
O que são stakeholders de uma empresa?
São as pessoas e os grupos que afetam ou são afetados pelo que a empresa faz. Entram clientes, funcionários, sócios, fornecedores, bancos, órgãos reguladores e a comunidade do entorno. Achterkamp e Vos (2008) relatam que, entre 42 publicações de gestão de projetos que avaliaram, apenas uma minoria apresenta uma definição clara e trata de como identificar stakeholders.
Qual a diferença entre stakeholder e shareholder?
Shareholder é quem tem participação no capital, ou seja, sócio ou acionista. Stakeholder é mais amplo e inclui quem não tem participação nenhuma, como um funcionário, um cliente ou um fornecedor. Todo shareholder é stakeholder, e a maioria dos stakeholders de uma PME não é sócia.
Como mapear stakeholders de um projeto?
Comece identificando, não classificando. Percorra as etapas do processo que vai mudar e anote quem executa cada uma, some quem está fora da empresa e pergunte quem vai ficar sabendo só depois. Essa última pergunta acha quem é afetado pelo resultado sem conseguir influenciá-lo. Só com a lista completa vale a pena ordenar. E marque data para refazer, porque a situação de cada um muda ao longo do projeto.
A matriz de poder e interesse é o modelo de Mitchell, Agle e Wood?
Não. São instrumentos diferentes e a confusão é comum. A matriz de poder e interesse tem dois eixos e quatro quadrantes. O modelo de Mitchell, Agle e Wood (1997) trabalha com três atributos, poder, legitimidade e urgência, e deriva deles uma tipologia de classes de stakeholder, com proposições sobre a atenção que cada classe recebe dos gestores.
Cuidar bem dos stakeholders melhora o resultado financeiro?
Esse estudo específico não encontrou essa ligação. Agle, Mitchell e Sonnenfeld (1999), com dados de 80 presidentes de grandes empresas dos Estados Unidos, relatam forte apoio à relação entre atributos e saliência, algumas relações significativas envolvendo valores do executivo, saliência e desempenho social, e nenhum apoio à relação entre saliência e desempenho financeiro. Não é o mesmo que dizer que cuidar de stakeholder não serve para nada: o que não apareceu ligado a resultado financeiro, naquela amostra, foi dar mais atenção a um grupo. O estudo não mede PME nem empresa brasileira.
Com que frequência refazer o mapa de stakeholders?
Mitchell, Agle e Wood (1997) propõem que os atributos são variáveis, não estados fixos, o que implica que qualquer retrato envelhece. Quanto tempo até envelhecer é pergunta que o modelo não responde. Em projeto de PME, trabalhamos com trinta dias, por experiência própria, e antecipamos a revisão sempre que entra fornecedor novo ou muda quem responde por uma área.
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Fontes e referências
- Mitchell, R. K., Agle, B. R., & Wood, D. J. (1997). Toward a theory of stakeholder identification and salience: Defining the principle of who and what really counts. Academy of Management Review, 22(4), 853-886. https://doi.org/10.2307/259247
- Agle, B. R., Mitchell, R. K., & Sonnenfeld, J. A. (1999). Who matters to CEOs? An investigation of stakeholder attributes and salience, corporate performance, and CEO values. Academy of Management Journal, 42(5), 507-525. https://doi.org/10.2307/256973
- Achterkamp, M. C., & Vos, J. F. J. (2008). Investigating the use of the stakeholder notion in project management literature, a meta-analysis. International Journal of Project Management, 26(7), 749-757. https://doi.org/10.1016/j.ijproman.2007.10.001
Por: Clayton Lambert, engenheiro de produção e responsável por Transformação e Inovação na CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 17/08/2026.
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