O turnover é a taxa de rotatividade de pessoas numa empresa: quantas saíram e foram substituídas num período, em relação ao total do time. É um dos poucos números de gestão de pessoas que qualquer PME já calcula, mesmo sem RH estruturado, porque a conta é simples. O que costuma faltar não é a conta. É saber o que fazer com o resultado dela.
Leitura da CGLC: a maioria dos guias sobre turnover trata toda saída como perda e toda redução como vitória. A pesquisa que reunimos aqui não sustenta essa leitura binária. Existe turnover que dói e existe turnover que ajuda, e a diferença não aparece na taxa. Aparece em quem saiu, por que saiu e o que a saída custou de fato, não só em reposição, mas no que a empresa entrega para o cliente.
Resumo rápido
- O que é. Turnover é a taxa de saída e substituição de colaboradores num período, calculada como o número de desligamentos dividido pelo número médio de colaboradores, vezes 100.
- Nem toda saída pesa igual. Dalton, Todor e Krackhardt (1982) propõem que tratar toda saída como voluntária ou involuntária exagera a gravidade do turnover, e defendem separar o que é funcional (a empresa ganha com a saída) do que é disfuncional (a empresa perde).
- Por que as pessoas saem. Tett e Meyer (1993) encontram que satisfação no trabalho e comprometimento organizacional predizem, cada um de forma independente, a intenção de sair, e que essa intenção concentra quase todo o vínculo entre essas atitudes e a saída de fato. Griffeth, Hom e Gaertner (2000) reúnem o espectro mais amplo de fatores associados à saída, com força variando conforme moderadores que o estudo identifica.
- A relação com o desempenho é fraca na média e mais forte em contextos específicos. Hancock e colegas (2013), em meta-análise com 48 amostras independentes e N total de 24.943, relatam correlação corrigida média de -0,03 entre turnover e desempenho da firma, mais forte em manufatura e transporte, em cargos gerenciais e quando o desempenho é medido por atendimento ao cliente ou qualidade/segurança.
- O índice sozinho não explica a causa. Rubenstein e colegas (2018) atualizam o mapa de fatores que antecedem a saída voluntária e relatam que o efeito de muitos desses fatores depende do contexto, o que pesa contra decidir uma meta de turnover sem olhar para quem está saindo.
- Escopo das fontes. Nenhuma das cinco pesquisas mediu PME brasileira. São quatro meta-análises e um artigo teórico, publicados em periódicos internacionais.
O que é turnover
Turnover é o nome que a gestão de pessoas dá à rotatividade: a proporção de colaboradores que saem de uma empresa, voluntária ou involuntariamente, e precisam ser substituídos num determinado período. Dalton, Todor e Krackhardt (1982) descrevem o conceito tradicional de turnover como a contagem de saídas classificadas em voluntárias (a pessoa pede demissão) ou involuntárias (a empresa demite), sem outra distinção.
Na leitura da CGLC, é exatamente essa contagem simples que faz o número enganar. Uma taxa de 20% ao ano pode descrever tanto uma empresa perdendo os talentos que mais queria manter quanto uma empresa finalmente substituindo quem não performava. A taxa não diferencia as duas situações, e é por isso que este guia trata primeiro do que a taxa não conta, antes de chegar à fórmula.
Como calcular a taxa de turnover
A fórmula mais usada é direta: divide-se o número de desligamentos no período pelo número médio de colaboradores no mesmo período, e multiplica-se por 100 para obter um percentual.
| Elemento da fórmula | Como obter |
|---|---|
| Desligamentos no período | Total de saídas no mês, trimestre ou ano, somando pedidos de demissão e desligamentos pela empresa |
| Número médio de colaboradores | (Colaboradores no início do período + colaboradores no fim do período) ÷ 2 |
| Taxa de turnover | (Desligamentos ÷ número médio de colaboradores) × 100 |
Exemplo hipotético, só para ilustrar a conta: uma empresa começa o mês com 40 colaboradores e termina com 36, depois de 4 desligamentos ao longo do mês. O número médio é (40+36)/2 = 38. A taxa de turnover do mês é (4/38) × 100, ou aproximadamente 10,5%. Os números deste exemplo são inventados para ilustrar o cálculo, não uma medição real.
Na nossa prática, duas escolhas de método mudam o resultado e merecem ficar explícitas em qualquer relatório: se a conta inclui só desligamentos voluntários ou todos, e se o período de referência é mensal, trimestral ou anual. Comparar a taxa deste mês com a taxa do ano passado, sem checar se as duas usam o mesmo critério, produz uma conclusão errada com mais frequência do que se imagina.
Nem todo turnover é o mesmo problema
Dalton, Todor e Krackhardt (1982) argumentam que a divisão tradicional entre turnover voluntário e involuntário “tem o efeito claro de exagerar a gravidade do turnover para qualquer organização”, porque perpetua a ideia de que toda saída voluntária prejudica a empresa. Os autores propõem uma taxonomia alternativa, separando o turnover funcional do disfuncional.
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Voluntário x involuntário
Quem decidiu sair: a pessoa (voluntário) ou a empresa (involuntário). É a classificação mais comum, e a que Dalton, Todor e Krackhardt (1982) consideram insuficiente sozinha
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Funcional x disfuncional
O que a saída representa para a empresa: funcional quando a saída de um colaborador de baixo desempenho ou baixo encaixe abre espaço para melhora; disfuncional quando a empresa perde alguém que queria manter
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As duas se cruzam
Uma demissão pela empresa (involuntária) de alguém que não performava é, ao mesmo tempo, funcional. Um pedido de demissão (voluntário) de um talento-chave é, ao mesmo tempo, disfuncional. A taxa de turnover sozinha não distingue nenhum dos dois cruzamentos
Na nossa prática, a pergunta mais útil antes de reagir a uma taxa de turnover não é “subiu ou caiu”, e sim “quem saiu”. Uma taxa estável pode esconder a saída recorrente de quem a empresa mais queria reter, enquanto uma taxa em alta pode refletir a saída de quem não se encaixava. Tratar as duas como o mesmo problema é o erro mais comum que vemos em diagnósticos de RH na PME.
Por que as pessoas saem: o que a pesquisa mostra
Tett e Meyer (1993) reuniram 178 amostras independentes de 155 estudos para examinar como satisfação no trabalho e comprometimento organizacional se relacionam com a intenção de sair e com a saída de fato. Os autores relatam que satisfação e comprometimento contribuem, cada um de forma independente, para prever a intenção de sair, com a satisfação pesando mais do que o comprometimento nessa previsão.
O achado que, na leitura da CGLC, mais importa para quem está tentando agir sobre o turnover é a posição da intenção de sair na cadeia. Os autores relatam que a intenção de sair medeia quase todo o vínculo entre as atitudes de trabalho e a saída real. Em termos estatísticos, satisfação e comprometimento quase não se ligam à saída por um caminho direto: o efeito deles passa pela intenção de sair.
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1. Satisfação e comprometimento
Como a pessoa avalia o trabalho e o quanto se sente ligada à empresa. Os dois pesam de forma independente, com a satisfação pesando mais
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2. Intenção de sair
O elo que concentra quase todo o efeito das duas atitudes anteriores sobre o que acontece depois
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3. Turnover real
A saída de fato. Segundo Tett e Meyer (1993), quase todo o efeito das atitudes sobre ela passa pela intenção de sair
Griffeth, Hom e Gaertner (2000) foram além. Reuniram o que os autores descrevem como a revisão quantitativa mais abrangente até então sobre a força preditiva de diversos antecedentes do turnover, junto com uma investigação de moderadores dessas correlações.
Na leitura da CGLC, o ponto que atravessa o estudo é que nenhum fator isolado explica bem quem vai sair. A força dos antecedentes muda conforme moderadores que o estudo identifica. É outra forma de dizer que uma lista genérica de “motivos de turnover” vale menos do que perguntar, dentro da própria empresa, o que está pesando para quem saiu.
Uma ressalva vale para as duas fontes desta seção, e para as demais citadas neste guia: nenhuma delas mediu empresas brasileiras de pequeno ou médio porte. São quatro meta-análises e um artigo teórico, publicados em periódicos internacionais.
Turnover alto prejudica mesmo o negócio?
Hancock, Allen, Bosco, McDaniel e Pierce (2013) fizeram uma meta-análise específica sobre essa pergunta, reunindo 48 amostras independentes, com N total de 24.943, relacionando turnover ao desempenho da firma.
| O que foi medido | O que Hancock e colegas (2013) relatam |
|---|---|
| Correlação corrigida geral entre turnover e desempenho | -0,03 (efeito médio fraco) |
| Manufatura e transporte | Correlação mais forte, em torno de -0,07 |
| Cargos gerenciais | Correlação mais forte, em torno de -0,08 |
| Desempenho medido por atendimento ao cliente ou qualidade/segurança | Correlação mais forte, entre -0,10 e -0,12 |
Leitura da CGLC: o número geral, -0,03, é pequeno o bastante para não sustentar a frase “turnover sempre prejudica o resultado”. O que o estudo de fato sustenta é outra coisa, mais específica e mais útil. O efeito aparece com mais força em contextos em que a saída de gente interrompe algo difícil de substituir rapidamente, como coordenação gerencial ou qualidade de atendimento.
Os próprios autores relatam que resultados de desempenho organizacional mais próximos da operação medeiam a relação entre turnover e resultados financeiros. Ou seja: o efeito passa primeiro pelo que acontece dentro da operação, antes de aparecer nos resultados financeiros.
Rubenstein, Eberly, Lee e Mitchell (2018) atualizaram o mapa de antecedentes do turnover voluntário, incluindo fatores mais recentes ao lado dos tradicionais. Testaram também um conjunto de moderadores que podem aumentar ou reduzir o efeito de cada antecedente.
Na leitura da CGLC, a contribuição mais prática do estudo, para quem gerencia uma PME, é o alerta contra tratar a lista de motivos de saída como fixa e igual para qualquer empresa. O que pesa mais numa organização depende de fatores de contexto que os autores tratam como moderadores, e não como constantes.
O que fazer com o número na PME
Na nossa prática, o roteiro abaixo existe para levar a distinção entre turnover funcional e disfuncional, e a leitura de contexto que os resultados de Rubenstein e colegas (2018) sugerem, para dentro de uma rotina que cabe numa empresa sem RH estruturado. Para quem a empresa quer reter, vale ligar o diagnóstico a um plano de desenvolvimento individual, que dá um motivo concreto para ficar.
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1. Calcule com o mesmo critério todo mês
Defina se a taxa inclui só voluntários ou todos os desligamentos, e mantenha o critério fixo para poder comparar período a período
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2. Classifique cada saída, não só o total
Para cada desligamento, registre se foi voluntário ou involuntário e se, na avaliação do gestor direto, foi funcional ou disfuncional para a equipe
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3. Separe a taxa geral da taxa dos cargos críticos
Uma taxa geral estável pode esconder rotatividade alta exatamente nas posições mais difíceis de repor. Acompanhe as duas separadamente
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4. Use a entrevista de desligamento para perguntar o que antecedeu a decisão, não só o motivo declarado
Tett e Meyer (1993) relatam que quase todo o efeito das atitudes sobre a saída passa pela intenção de sair. Perguntar há quanto tempo a pessoa vinha pensando em sair costuma revelar mais do que o motivo formal apontado na saída
O passo 3, separar a taxa geral da taxa dos cargos críticos, é o que mais gestores de PME pulam, porque a taxa geral já existe numa planilha e recortar por cargo dá trabalho extra.
Na prática da CGLC, é também o passo que mais muda a decisão. Uma empresa de 30 pessoas pode ter turnover geral de 8% ao ano e, ao mesmo tempo, perder metade da equipe comercial no mesmo período: dois números que a taxa única esconde um dentro do outro.
Turnover também se conecta a outras frentes de gestão de pessoas que já tratamos aqui. Quem quer entender melhor a diferença entre reter talento e apenas reduzir número pode ver o que escrevemos sobre retenção de talentos.
Para separar quem sai por baixo desempenho de quem sai apesar do bom desempenho, o processo de avaliação de desempenho é o ponto de partida. E toda saída volta a abrir uma vaga, o que liga o tema diretamente ao processo de recrutamento e seleção.
Erros comuns ao medir e reagir ao turnover
| Erro | Por que atrapalha | O que fazer no lugar |
|---|---|---|
| Comparar taxas calculadas com critérios diferentes | Mudar de “só voluntário” para “todos” entre um período e outro cria uma variação que não existiu de fato | Fixar o critério e documentá-lo junto do número |
| Tratar toda redução de turnover como vitória | Reduzir a saída de quem não performava é perder o efeito funcional que aquela saída trazia | Olhar quem ficou e quem saiu, não só o total |
| Fixar uma meta de turnover sem entender a causa | Griffeth, Hom e Gaertner (2000) e Rubenstein e colegas (2018) relatam moderadores e efeitos que dependem do contexto, então a mesma meta pode exigir ações opostas em duas empresas | Diagnosticar antes de definir a meta numérica |
Quer entender o que está por trás do turnover da sua equipe, e não só o número?
Perguntas frequentes
O que é turnover?
É a taxa de rotatividade de colaboradores numa empresa: quantas pessoas saíram, voluntária ou involuntariamente, e precisaram ser substituídas num período. Calcula-se dividindo o número de desligamentos pelo número médio de colaboradores no período, multiplicando por 100.
Como calcular a taxa de turnover?
Taxa de turnover (%) = (número de desligamentos no período ÷ número médio de colaboradores no período) × 100. O número médio de colaboradores é (colaboradores no início + colaboradores no fim) ÷ 2. Defina se a conta inclui só desligamentos voluntários ou todos, e mantenha o mesmo critério para poder comparar períodos.
Qual taxa de turnover é considerada alta?
Não existe um número universal. Hancock e colegas (2013) relatam que a relação entre turnover e desempenho depende do setor, do tipo de cargo e de como o desempenho é medido. Ela é mais forte em manufatura e transporte, em cargos gerenciais e em indicadores de atendimento ou qualidade. Comparar a taxa da própria empresa ao longo do tempo, e não a um número de referência genérico, costuma trazer leitura mais confiável. A amostra do estudo não inclui PME brasileira.
Turnover alto sempre é um problema?
Não necessariamente. Dalton, Todor e Krackhardt (1982) argumentam que classificar toda saída como voluntária ou involuntária exagera a gravidade do turnover. Os autores propõem separar o turnover funcional, quando a saída abre espaço para melhora, do disfuncional, quando a empresa perde quem queria manter. A mesma taxa pode esconder as duas situações.
Quais são os principais motivos que levam alguém a sair da empresa?
Tett e Meyer (1993) relatam que satisfação no trabalho e comprometimento organizacional predizem, cada um de forma independente, a intenção de sair, e que essa intenção concentra quase todo o vínculo entre essas atitudes e a saída de fato. Griffeth, Hom e Gaertner (2000) reúnem um espectro mais amplo de fatores associados à saída, com peso que varia conforme moderadores que o estudo identifica. Isso pesa contra uma lista fixa de motivos válida para qualquer organização. Nenhuma das duas fontes mediu PME brasileira.
Turnover zero é uma boa meta?
Na leitura da CGLC, não. Se turnover funcional existe, como propõem Dalton, Todor e Krackhardt (1982), uma meta de turnover zero também bloquearia a saída de quem a empresa teria benefício em ver sair. A meta mais útil, na nossa prática, é separar a taxa por tipo de saída e por cargo crítico, em vez de perseguir um número único.
Fontes e referências
- Dalton, D. R., Todor, W. D., & Krackhardt, D. M. (1982). Turnover overstated: The functional taxonomy. Academy of Management Review, 7(1), 117-123. https://doi.org/10.5465/amr.1982.4285499
- Griffeth, R. W., Hom, P. W., & Gaertner, S. (2000). A meta-analysis of antecedents and correlates of employee turnover: Update, moderator tests, and research implications for the next millennium. Journal of Management, 26(3), 463-488. https://doi.org/10.1177/014920630002600305
- Hancock, J. I., Allen, D. G., Bosco, F. A., McDaniel, K. R., & Pierce, C. A. (2013). Meta-analytic review of employee turnover as a predictor of firm performance. Journal of Management, 39(3), 573-603. https://doi.org/10.1177/0149206311424943
- Rubenstein, A. L., Eberly, M. B., Lee, T. W., & Mitchell, T. R. (2018). Surveying the forest: A meta-analysis, moderator investigation, and future-oriented discussion of the antecedents of voluntary employee turnover. Personnel Psychology, 71(1), 23-65. https://doi.org/10.1111/peps.12226
- Tett, R. P., & Meyer, J. P. (1993). Job satisfaction, organizational commitment, turnover intention, and turnover: Path analyses based on meta-analytic findings. Personnel Psychology, 46(2), 259-293. https://doi.org/10.1111/j.1744-6570.1993.tb00874.x
Nenhuma das cinco fontes mediu empresas brasileiras de pequeno ou médio porte. Onde este guia propõe um roteiro de ação, a proposta é da CGLC e está identificada como tal.
Por: Luciana Silva, administradora especializada em neurociência aplicada à gestão de pessoas, da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 25/09/2026.
A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
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