Plano de desenvolvimento individual, ou PDI, é o documento em que uma pessoa registra as competências que trabalhou, as que precisa desenvolver, o que vai fazer para desenvolvê-las, em que prazo, e de que apoio da empresa vai precisar. É escrito pela própria pessoa, dentro de uma estrutura em geral já fixada, e, nas empresas que atendemos, costuma nascer de uma conversa de avaliação.
O problema não é montar o PDI. É que, nos que vemos, a maior parte é preenchida uma vez, arquivada e reencontrada na avaliação seguinte com as mesmas três metas. Este artigo define o instrumento, mostra o que a pesquisa relata sobre o plano que não vira ação e entrega um modelo da CGLC de cinco campos, com exemplo preenchido, para montar um PDI que sobreviva ao mês seguinte.
Resumo rápido
- Definição. O plano de desenvolvimento individual registra as competências que a pessoa trabalhou, as que vai trabalhar, como e em que prazo. É escrito por ela, serve de base para a conversa com o gestor e apoia decisões de treinamento e de promoção.
- O achado que contraria o senso comum. Num levantamento com 2.271 assistentes de farmácia na Holanda, Beausaert e colegas (2013) relatam que quem usava PDI tinha feito mais atividades de aprendizagem no passado do que quem não usava, mas o uso do PDI não estimulou o planejamento de mais atividades para o futuro, e os usuários não se avaliaram significativamente melhor em competências do que os não usuários.
- O documento não é o mecanismo. Numa meta-análise com 430 estudos, Sitzmann e Ely (2011) relatam que nível da meta, persistência, esforço e autoeficácia foram os construtos com efeito mais forte sobre a aprendizagem, enquanto planejamento, monitoramento, busca de ajuda e controle emocional não exibiram relação significativa.
- A meta é o campo que mais importa. Locke e Latham (2002) resumem 35 anos de pesquisa: metas específicas e difíceis superam “faça o seu melhor”, com efeitos entre 0,42 e 0,80 nas meta-análises, e em tarefa nova e complexa a meta certa é de aprendizagem, não de resultado.
- A revisão pode ajudar ou atrapalhar. Kluger e DeNisi (1996) relatam que, em 607 efeitos, o feedback melhorou o desempenho em média (d de 0,41), porém mais de um terço das intervenções o piorou. O que tende a enfraquecer o efeito, na teoria deles, é o feedback que leva a atenção para a pessoa em vez de para a tarefa.
- Por onde começar. Um PDI de cinco campos, modelo da CGLC: lacuna observável, meta específica, difícil e com prazo, ações no formato “se, então”, apoio combinado com o gestor e revisão mensal de 20 minutos. Modelo preenchido no artigo.
O que é plano de desenvolvimento individual
Plano de desenvolvimento individual é a tradução corrente de personal development plan, e a definição que a literatura usa é operacional. Beausaert, Segers e Gijselaers (2011) descrevem o instrumento por quatro traços.
O PDI dá uma visão das competências que a pessoa trabalhou e das que planeja trabalhar. É composto e escrito pela própria pessoa, ainda que a estrutura seja, em geral, fixa. Serve de base para a conversa com o gestor ou coach, que dá feedback e estimula a reflexão. E apoia decisões, do plano de treinamento à adequação a uma promoção.
Beausaert e colegas (2011) registram que o instrumento circula sob vários nomes, entre eles portfólio, plano de desenvolvimento profissional e perfil profissional pessoal. No Brasil o nome que pegou foi a sigla PDI, que convive com outras siglas iguais, como o plano de desenvolvimento institucional das universidades. Neste artigo, PDI é sempre o plano da pessoa.
O que o plano responde, na formulação de Beausaert e colegas (2011), são quatro perguntas: o que eu fiz até aqui, para onde estou indo, como estou indo e qual é o próximo passo. O formulário que eles descrevem pergunta pontos fortes e fracos, o que a pessoa quer alcançar, que competências ainda precisa desenvolver, como e em que prazo, e de que apoio precisa.
Na nossa prática: na PME, o PDI costuma nascer no fim da avaliação de desempenho, quando sobra uma lista de pontos a melhorar e alguém sugere transformá-la em plano. É um começo razoável, mas explica boa parte do que vai dar errado depois: a lista veio da avaliação, e o plano herda a lógica dela.
Para que serve o PDI, e o que muda quando ele serve a duas coisas
Beausaert, Segers e Gijselaers (2011) partem de uma distinção clássica: o PDI pode servir ao desenvolvimento profissional ou à promoção, ao aumento salarial, à seleção e à prestação de contas. Quando serve ao desenvolvimento, a aprendizagem é o centro. Quando serve à promoção, apresentar-se bem passa a importar mais, e os autores supõem que a abertura para a autocrítica fica comprometida.
Beausaert e colegas foram a campo com 367 pessoas, 286 de uma repartição pública regional na Holanda e 81 de uma multinacional de tecnologia médica. Perguntaram para que fim cada uma percebia o PDI, o quanto tinha feito atividades de aprendizagem por causa dele e se ele a tinha ajudado a melhorar o trabalho.
As hipóteses eram que perceber o PDI como instrumento de aprendizagem e desenvolvimento previsse mais atividades de aprendizagem e maior melhora percebida, e que percebê-lo como instrumento de promoção previsse menos atividades de aprendizagem e menor melhora percebida. A terceira hipótese era que, com os dois grupos de propósito no mesmo modelo, o de aprendizagem e desenvolvimento fosse o preditor mais forte das atividades de aprendizagem.
Com os propósitos de aprendizagem, o estudo encontrou o esperado. Perceber o PDI como instrumento de aprendizagem e desenvolvimento previu positivamente as atividades de aprendizagem (betas de 0,18 e 0,20, para os propósitos pessoal e organizacional) e a percepção de melhora do próprio desempenho (0,36 e 0,35).
Mas o mesmo estudo relata que perceber o PDI como instrumento de promoção e seleção também previu positivamente as atividades de aprendizagem (0,16) e a melhora percebida do desempenho (0,32), ao contrário do que os autores esperavam.

A diferença, relata o estudo, apareceu quando os três propósitos entraram no mesmo modelo: o propósito organizacional de aprendizagem continuou prevendo as atividades de aprendizagem, os dois propósitos de aprendizagem continuaram prevendo a melhora percebida, e o de promoção deixou de explicar variância adicional. A conclusão dos autores é que o PDI deve ser apresentado e usado, em primeiro lugar, como instrumento de aprendizagem e desenvolvimento.
Duas ressalvas do próprio estudo valem para quem for usar o resultado. O desenho é transversal, e os autores escrevem que ele não permite concluir causa. E o desempenho é autorrelatado: um dos itens da escala perguntava se usar o PDI ajudou a pessoa a melhorar o trabalho, na avaliação dela mesma.
| Propósito percebido | O que abrange, nos itens do questionário | O que o estudo relatou |
|---|---|---|
| Aprendizagem e desenvolvimento | O PDI serve para o desenvolvimento pessoal ou profissional, para autoavaliação, para estimular aprendizagem e reflexão e para organizar as próprias atividades de aprendizagem (propósito pessoal); e para estimular a colaboração, o desenvolvimento da organização, o cumprimento dos padrões dela, a motivação e a confiança (propósito organizacional) | Previu os dois desfechos sozinho; no modelo conjunto, o organizacional seguiu prevendo atividades de aprendizagem e os dois seguiram prevendo melhora percebida |
| Promoção e seleção | O PDI serve para documentar, entregar evidência ao gestor, obter certificado, preparar entrevista de emprego fora da empresa ou disputar promoção | Previu os dois desfechos sozinho; com os outros propósitos no modelo, não explicou variância adicional |
Leitura da CGLC: o achado desmonta a ideia de que basta desvincular o PDI da promoção para ele funcionar. Perceber o PDI como instrumento de promoção não atrapalhou; o que o estudo relata é que, com os propósitos de aprendizagem no mesmo modelo, ele não explica variância adicional. A pergunta útil para o dono de PME, portanto, não é se o PDI conta para a promoção, e sim se a pessoa o entende como ferramenta dela.
O que a pesquisa relata sobre o plano que não sai do papel
Dois anos depois, Beausaert, Segers, Fouarge e Gijselaers (2013) olharam para o instrumento com outra pergunta, num levantamento com 2.271 assistentes de farmácia na Holanda: usar PDI está associado a mais atividades de aprendizagem e a competências mais altas? O resumo publicado relata três achados.
Quem usava PDI tinha feito mais atividades de aprendizagem no passado do que quem não usava. Usar o PDI, porém, não estimulou os usuários a planejar mais atividades para o futuro. E os usuários não se avaliaram significativamente melhor em competências do que os não usuários.
A implicação prática que os autores tiram é que o PDI vale como instrumento de feedback, mas precisaria ser usado também como instrumento de feed-forward: para planejar o que vem, e não só registrar o que passou.
O resultado combina com o que uma meta-análise maior encontrou sobre como adultos regulam a própria aprendizagem. Sitzmann e Ely (2011) reuniram 430 estudos e 90.380 pessoas e organizaram os achados num quadro de 16 construtos de aprendizagem autorregulada. Nível da meta, persistência, esforço e autoeficácia foram os de efeito mais forte, e juntos responderam por 17% da variância na aprendizagem, depois de controlar habilidade cognitiva e conhecimento prévio.
Sitzmann e Ely relatam ainda que quatro processos não exibiram relação significativa com a aprendizagem: planejamento, monitoramento, busca de ajuda e controle emocional.
Leitura da CGLC: um PDI é, por definição, um instrumento de planejamento. Juntando os dois estudos, o que aparece associado a aprender é o tamanho da meta, o esforço que ela puxa e a confiança de que dá para alcançá-la, e não o ato de planejar. Isso não torna o plano inútil. Torna claro que o documento é o suporte, e que o trabalho está em como a meta é escrita e no que acontece nas semanas seguintes.
Essa síntese é nossa. Nenhum dos dois estudos foi desenhado para testar o PDI contra os construtos da meta-análise.
Como montar o PDI em cinco campos
O modelo abaixo é o que usamos na Cogestão de RH quando a empresa ainda não tem um. Cada campo se apoia nas fontes deste artigo, indicadas na legenda. Não é uma lista solta: o campo 2 é onde a maioria dos PDIs que vemos falha, e os campos 4 e 5 são os que costumam nem existir.
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1. Lacuna observável
A competência a desenvolver, escrita como algo que alguém consegue ver acontecer ou não, com a evidência que mostrou a lacuna. “Comunicação” não é lacuna; “sai da reunião com fornecedor sem prazo de pagamento fechado” é
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2. Meta específica, difícil e com prazo
Um resultado ou um número de estratégias a descobrir e testar, com data. Se a tarefa é nova e complexa para a pessoa, a meta é de aprendizagem (quantas maneiras de fazer a tarefa ela vai descobrir e testar), não de resultado
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3. Ações no formato “se, então”
Cada ação amarrada a um gatilho de quando, onde e como. “Estudar negociação” não é ação; “se for quinta às 9h, então reviso os contratos que vencem em 60 dias e preparo uma proposta de prazo” é
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4. Apoio combinado com o gestor
O que o gestor vai fazer, e não só o que a pessoa vai fazer: explicar por que a meta importa, dar acesso a situações reais de prática e a alguém que já faz bem aquilo
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5. Revisão curta e sobre a tarefa
Vinte minutos por mês, olhando o que foi tentado, o que aconteceu e qual estratégia vem agora. Sem nota, sem comparação com colegas e sem transformar a conversa em avaliação da pessoa
Campo 2: a meta decide o resto
Locke e Latham (2002) resumem 35 anos de pesquisa em uma frase que vale para qualquer PDI: quando se pede às pessoas que façam o seu melhor, elas não fazem.
Metas específicas e difíceis levaram a desempenho consistentemente maior do que a exortação a fazer o melhor, com tamanhos de efeito entre 0,42 e 0,80 nas meta-análises que Locke e Latham revisam. A base que os dois descrevem passa de 40.000 participantes em mais de 100 tarefas diferentes.
A explicação que Locke e Latham dão é simples: “faça o seu melhor” não tem referência externa, então cada pessoa define sozinha o que é aceitável. “Melhorar a comunicação com fornecedores”, que é a meta mais comum nos PDIs que recebemos, é exatamente isso.
Há uma condição que Locke e Latham destacam e que o PDI ignora com frequência. Em tarefa complexa e ainda não automatizada, o efeito da meta depende de a pessoa descobrir estratégias adequadas, e ele fica menor. Nas meta-análises que os dois relatam, meta específica e difícil contra “faça o seu melhor” deu 0,41 nas tarefas mais complexas contra 0,77 nas menos complexas.
Locke e Latham descrevem um experimento em que uma meta de resultado, num simulador de controle de tráfego aéreo, atrapalhou a aquisição do conhecimento necessário à tarefa. E descrevem outro em que a solução foi trocar o tipo de meta. Com uma meta específica e difícil de aprendizagem, definida como o número de estratégias a descobrir, o desempenho na tarefa complexa superou o de quem foi mandado fazer o melhor.
| Situação da pessoa | Tipo de meta que o PDI deve trazer | Exemplo |
|---|---|---|
| Já sabe fazer, precisa fazer mais ou melhor | Meta de resultado, específica e difícil, com prazo | Fechar 90% das negociações com prazo de pagamento igual ou maior que 45 dias até 30/11 |
| Nunca fez, ou a tarefa é nova e complexa para ela | Meta de aprendizagem: quantas estratégias vai identificar e testar, com prazo | Identificar e testar três táticas diferentes de negociação de prazo com fornecedores recorrentes até 30/11 |
| Meta grande e longe, em tarefa nova e complexa para a pessoa | Manter a meta final e acrescentar metas próximas, com marcos mensais | Mês 1: observar duas negociações. Mês 2: conduzir uma com o gerente ao lado. Mês 3: conduzir duas sozinha |
Campo 3: o “se, então” é o que move a meta para a agenda
Ter uma intenção, mesmo forte, não garante a ação. Gollwitzer e Sheeran (2006) reuniram 94 testes independentes do que chamam de intenção de implementação: um plano no formato “se a situação Y acontecer, então eu faço Z”, que especifica de antemão o quando, o onde e o como. O efeito sobre alcançar a meta, relatam eles, foi de magnitude média a grande, com d de 0,65.
Gollwitzer e Sheeran, num texto posterior que resume a meta-análise, dão o contraexemplo que mais se parece com um PDI. Um plano que diz “fazer mais exercício” na parte do então, e “amanhã” na parte do se, não especificou uma oportunidade inequívoca nem uma resposta específica. A pessoa, escrevem eles, não parece estar em situação melhor do que se tivesse só formado a intenção.
No mesmo texto, Gollwitzer e Sheeran também relatam que o efeito é maior quando a intenção de fundo é forte e está ativada, e quando o projeto combina com os interesses da pessoa, e não com pressão externa.
Na nossa prática: o teste que fazemos com cada linha do campo 3 é perguntar em que dia, em que lugar e em que momento ela vai acontecer. Se a resposta for “quando der”, a linha volta.
A base da meta-análise de Gollwitzer e Sheeran (2006) é majoritariamente de comportamentos de saúde e de rotina, e não de trabalho, o que pede cautela ao transportar o d de 0,65 para o contexto de trabalho.
Na nossa prática: o formato “se, então” não custa nada para adotar, mesmo assim.
Campo 4: o que o gestor faz aparece ligado ao quanto a pessoa se engaja em aprender
Bezuijen, van Dam, van den Berg e Thierry (2010) estudaram 1.112 empregados e seus 233 líderes diretos, em sete organizações. A pergunta era como a qualidade da relação entre líder e liderado se traduz em engajamento em atividades de aprendizagem.
Bezuijen e colegas relatam que, na análise multinível, a dificuldade e a especificidade da meta mediaram a ligação entre a qualidade da relação líder-liderado e o engajamento: a relação boa aparece ligada a mais engajamento em atividades de aprendizagem por meio das metas específicas e difíceis que o líder define.
Locke e Latham (2002) acrescentam duas coisas que cabem no PDI. A primeira é que, do ponto de vista motivacional, uma meta atribuída pelo gestor foi tão eficaz quanto uma definida em conjunto, desde que a razão da meta fosse explicada. Atribuída de forma seca, sem explicação, levou a desempenho significativamente menor.
A segunda é sobre a confiança da pessoa. Locke e Latham escrevem que os líderes podem elevar a autoeficácia garantindo treino que produz experiências de sucesso, oferecendo modelos com quem a pessoa se identifica e expressando confiança de que ela consegue.
É por isso que o campo 4 pede três coisas concretas do gestor, e não “apoiar”. São elas: a razão da meta dita em voz alta, situações reais em que a pessoa vai praticar, e alguém que já faz bem aquilo para ela observar.
Na nossa prática: na PME esse alguém costuma ser o próprio dono, e o campo 4 é onde ele descobre quanto tempo o PDI vai custar a ele.
Campo 5: a revisão que ajuda e a que atrapalha
Kluger e DeNisi (1996) reuniram 607 efeitos de intervenções de feedback sobre desempenho, em 23.663 observações. Em média o feedback melhorou o desempenho, com d de 0,41. Porém mais de um terço das intervenções o piorou, e os autores escrevem que isso não se explica por erro amostral nem pelo sinal do feedback, positivo ou negativo.
A teoria que Kluger e DeNisi propõem, e que chamam de preliminar, é sobre para onde o feedback leva a atenção. Sinais que dirigem a atenção para a própria pessoa, como comparação com outros, elogio ou desencorajamento, e qualquer coisa percebida como ameaça ao eu, tendem a enfraquecer o efeito.
Sinais que dirigem a atenção para a tarefa, como o quanto a pessoa avançou desde a última vez, ou a solução correta apresentada junto com o que ela errou, tendem a fortalecer o efeito do feedback. Kluger e DeNisi também propõem que metas combinadas com feedback ampliam o efeito.
Leitura da CGLC: a revisão de PDI que vira nota, ranking ou conversa sobre a pessoa é a versão do feedback que a teoria prevê como capaz de enfraquecer o efeito e até de prejudicar o desempenho. A revisão que funciona é sobre a tarefa: o que você tentou, o que aconteceu, qual estratégia vem agora.
Nós mantemos a conversa em 20 minutos justamente para que não sobre espaço para ela virar avaliação. A técnica de conduzir essa conversa está no artigo sobre como dar feedback.
Modelo de PDI preenchido
O exemplo abaixo é o de uma analista de compras numa indústria de 40 pessoas, cuja lacuna apareceu numa avaliação 360: os fornecedores a descreviam como educada e o financeiro, como alguém que não segura prazo de pagamento. É um caso composto a partir de situações que atendemos, sem nome e com números alterados.
| Campo | O que escrever | Exemplo preenchido |
|---|---|---|
| 1. Lacuna observável | Comportamento visível e a evidência que o mostrou | Sai da reunião com fornecedor sem prazo de pagamento fechado; nos últimos três meses, quatro pedidos entraram à vista sem negociação |
| 2. Meta | De aprendizagem, porque nunca negociou prazo formalmente; com número e data | Identificar e testar três táticas de negociação de prazo com os cinco fornecedores recorrentes até 30/11 |
| 3. Ações “se, então” | Uma linha por ação, com gatilho de tempo e lugar | Se for quinta às 9h, então reviso os contratos que vencem em 60 dias e preparo uma proposta de prazo. Se um fornecedor pedir antecipação de pagamento, então respondo com contraproposta de prazo antes de aceitar |
| 4. Apoio do gestor | Razão da meta, prática real e modelo | O gerente explica por que prazo é a variável que mais pesa no caixa; ela observa duas negociações dele em setembro e conduz uma em outubro com ele ao lado |
| 5. Revisão | Data fixa, 20 minutos, três perguntas sobre a tarefa | Última sexta de cada mês: o que tentou, o que aconteceu, qual tática vem agora. Sem nota |
Repare no que o modelo não tem: nota, comparação com colegas, lista de cursos e a palavra “melhorar” sem número ao lado. O que ele tem em excesso, e de propósito, é data.
Erros comuns no plano de desenvolvimento individual da PME
| Erro | Como aparece | O que fazer |
|---|---|---|
| Meta escrita como intenção | “Melhorar a comunicação”, “ser mais organizado”, “desenvolver liderança” | Reescrever com número e data. Se a tarefa é nova e complexa, trocar por meta de aprendizagem: quantas estratégias vai descobrir e testar |
| PDI como lista de cursos | Três treinamentos on-line e nenhuma situação real de prática | Trocar pelo menos um curso por uma situação de trabalho em que a competência é exigida, com o gestor por perto |
| Plano sem gatilho | Ações sem dia, hora ou lugar, que dependem de “quando der” | Formato “se, então” em cada linha do campo 3 |
| Gestor ausente do plano | O campo de apoio diz “acompanhar” ou está em branco | Escrever o que o gestor faz, com data: explicar a razão, abrir a prática, servir de modelo |
| Revisão que vira avaliação | A conversa mensal produz uma nota ou compara com colegas | Três perguntas sobre a tarefa, 20 minutos, sem nota |
| Plano copiado do modelo do site | Todo mundo da empresa com as mesmas três metas | Cada plano parte de uma evidência própria; sem lacuna observável, o plano espera |
| Um plano por ano | Escrito na avaliação e reaberto na avaliação seguinte | Ciclo de três a quatro meses, com revisão mensal |
Como acompanhar se o PDI está funcionando
Na nossa prática: a pergunta certa não é se o plano foi cumprido, e sim se a competência apareceu no trabalho.
Blume, Ford, Baldwin e Huang (2010), numa meta-análise de 89 estudos sobre transferência de treinamento, relatam relações positivas entre transferência e motivação, conscienciosidade, habilidade cognitiva e um ambiente de trabalho que dá suporte.
A maior parte das variáveis que Blume e colegas examinaram, entre elas motivação e ambiente de trabalho, teve relação mais forte com a transferência em habilidades abertas, como desenvolvimento de liderança, do que em habilidades fechadas, como software.
Blume e colegas trazem também um aviso de medição: quando o resultado da transferência foi obtido da mesma fonte, no mesmo contexto, a relação saiu consistentemente inflada.
Na nossa prática: perguntar à própria pessoa se ela melhorou é a medida mais exposta a esse tipo de inflação. Por isso cada PDI tem um indicador de trabalho, e não de plano, que alguém além da pessoa consegue observar. No exemplo da analista de compras, é a proporção de pedidos que entram com prazo de pagamento negociado, medida pelo financeiro, e não por ela.
O plano pode estar todo cumprido e o indicador parado. Quando isso acontece, o que muda é a estratégia, nos campos 2 e 3, não o esforço.
| Se a lacuna é de | O indicador de trabalho pode ser | Quem observa |
|---|---|---|
| Negociação com fornecedor | Proporção de pedidos que entram com prazo de pagamento negociado | Financeiro |
| Condução de reunião | Proporção de reuniões que terminam com dono e data para cada decisão | Quem participa |
| Delegação | Número de decisões delegadas que voltaram para quem delegou, no mês | Quem recebeu a tarefa delegada |
| Atendimento ao cliente | Tempo até a primeira resposta e proporção de casos reabertos | Quem coordena o atendimento, pelo relatório do sistema |
| Escrita e clareza | Proporção de entregas devolvidas para refazer por falta de informação | Quem recebe a entrega |
Três sinais dizem que o PDI está vivo no fim do primeiro mês. A pessoa consegue dizer o que tentou sem consultar o papel. O gestor cumpriu a parte dele no campo 4. E a revisão aconteceu na data, em 20 minutos. Se um dos três falhou, o problema é do desenho do plano, e vale mexer nele antes de cobrar a pessoa.
Para o repertório completo de processos de pessoas na empresa pequena, o guia de gestão de pessoas reúne o percurso, da seleção à retenção. Sobre as competências que costumam aparecer nos PDIs, o artigo sobre soft skills explica o que são e como se desenvolvem.
Perguntas frequentes
O que é plano de desenvolvimento individual?
É o documento em que a pessoa registra as competências que trabalhou, as que vai trabalhar, como, em que prazo e com que apoio da empresa. Na definição de Beausaert, Segers e Gijselaers (2011), ele é escrito pela própria pessoa, serve de base para a conversa com o gestor e apoia decisões de treinamento e de promoção. No Brasil é conhecido pela sigla PDI.
Qual é a diferença entre PDI e avaliação de desempenho?
A avaliação de desempenho olha para trás e julga o que foi entregue; o PDI registra o que a pessoa já trabalhou e organiza o que ela vai aprender. Beausaert, Segers e Gijselaers (2011) sugerem manter as duas conversas separadas e usar critérios diferentes em cada uma: indicadores de crescimento no PDI, indicadores de atingimento na avaliação. Na nossa prática: o PDI costuma nascer da avaliação, e isso é aceitável desde que a conversa mensal de revisão não vire uma segunda avaliação.
Quem deve escrever o PDI, a pessoa ou o gestor?
A pessoa escreve, e o gestor entra em dois pontos. Locke e Latham (2002) relatam que, do ponto de vista motivacional, uma meta atribuída pelo gestor foi tão eficaz quanto uma definida em conjunto, desde que a razão da meta fosse explicada, e que quem participou da definição das estratégias teve desempenho e autoeficácia maiores. Ou seja, o gestor pode propor a meta, precisa explicar por quê, e a pessoa constrói o como.
O PDI deve estar ligado a promoção ou aumento?
A pesquisa não sustenta a resposta fácil, e o que ela mediu foi o propósito de promoção e seleção, não o de aumento salarial. Em Beausaert, Segers e Gijselaers (2011), perceber o PDI como instrumento de promoção também previu atividades de aprendizagem, mas, com os propósitos de aprendizagem no mesmo modelo, não explicou variância adicional, e os autores recomendam apresentá-lo primeiro como ferramenta de aprendizagem e desenvolvimento. Leitura da CGLC: pode contar para a promoção e para o aumento, desde que a revisão mensal não vire a conversa de carreira nem a de salário.
Quantas metas um PDI deve ter?
Na nossa prática: uma ou duas, com ciclo de três a quatro meses, e não cinco metas para o ano. Locke e Latham (2002) relatam que a meta funciona quando é específica, difícil e recebe feedback de progresso; a conclusão de que isso não se divide por cinco metas é nossa. Em tarefa nova e complexa, a meta é de aprendizagem, definida como o número de estratégias a descobrir; no nosso modelo, a pessoa também testa cada uma.
De quanto em quanto tempo revisar o PDI?
Na nossa prática: uma vez por mês, em 20 minutos, com três perguntas sobre a tarefa (o que tentou, o que aconteceu, qual estratégia vem agora). Kluger e DeNisi (1996) relatam que mais de um terço das intervenções de feedback piorou o desempenho, e a teoria que eles propõem liga a queda ao feedback que leva a atenção para a pessoa em vez de para a tarefa. Por isso a revisão não tem nota nem comparação com colegas.
Fontes e referências
- Beausaert, S., Segers, M., e Gijselaers, W. (2011). Using a personal development plan for different purposes: Its influence on undertaking learning activities and job performance. Vocations and Learning, 4(3), 231-252. https://doi.org/10.1007/s12186-011-9060-y
- Beausaert, S., Segers, M., Fouarge, D., e Gijselaers, W. (2013). Effect of using a personal development plan on learning and development. Journal of Workplace Learning, 25(3), 145-158. https://doi.org/10.1108/13665621311306538
- Bezuijen, X. M., van Dam, K., van den Berg, P. T., e Thierry, H. (2010). How leaders stimulate employee learning: A leader-member exchange approach. Journal of Occupational and Organizational Psychology, 83(3), 673-693. https://doi.org/10.1348/096317909X468099
- Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T., e Huang, J. L. (2010). Transfer of training: A meta-analytic review. Journal of Management, 36(4), 1065-1105. https://doi.org/10.1177/0149206309352880
- Gollwitzer, P. M., e Sheeran, P. (2006). Implementation intentions and goal achievement: A meta-analysis of effects and processes. Advances in Experimental Social Psychology, 38, 69-119. https://doi.org/10.1016/S0065-2601(06)38002-1
- Kluger, A. N., e DeNisi, A. (1996). The effects of feedback interventions on performance: A historical review, a meta-analysis, and a preliminary feedback intervention theory. Psychological Bulletin, 119(2), 254-284. https://doi.org/10.1037/0033-2909.119.2.254
- Locke, E. A., e Latham, G. P. (2002). Building a practically useful theory of goal setting and task motivation: A 35-year odyssey. American Psychologist, 57(9), 705-717. https://doi.org/10.1037/0003-066X.57.9.705
- Sitzmann, T., e Ely, K. (2011). A meta-analysis of self-regulated learning in work-related training and educational attainment: What we know and where we need to go. Psychological Bulletin, 137(3), 421-442. https://doi.org/10.1037/a0022777
- Os experimentos de Kanfer e Ackerman (1989), Winters e Latham (1996), Latham e Seijts (1999) e Latham, Erez e Locke (1988), e as meta-análises de Wood, Mento e Locke (1987) e de Locke e Latham (1990), são citados neste artigo conforme relatados em Locke e Latham (2002). O formato “se, então”, o contraexemplo do plano “fazer mais exercício amanhã” e os moderadores da intenção de implementação vêm de “Implementation Intentions”, texto posterior dos mesmos autores que resume a meta-análise de 2006; nesse texto, os dois moderadores são relatados a partir de Sheeran, Webb e Gollwitzer (2005) e de Koestner, Lekes, Powers e Chicoine (2002). A distinção entre os dois grupos de propósito do PDI é atribuída por Beausaert e colegas a Smith e Tillema (2001).
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Por: Luciana Silva, administradora com especialização em neurociência aplicada à gestão, responsável pelo silo de Gestão de Pessoas da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 02/09/2026. Última atualização: 02/09/2026.
A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
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