Gestão de Pessoas

OKR: o que é, como definir e a diferença para o KPI

OKR é um método de definição de metas que liga o que a empresa quer alcançar ao que cada equipe faz na semana. A sigla vem do inglês Objectives and Key Results: objetivos e resultados-chave. O objetivo diz para onde ir. Os resultados-chave dizem, de forma verificável e com prazo, como se saberá que a empresa chegou lá.

Este guia mostra como escrever objetivos e resultados-chave que sobrevivem ao trimestre, qual a diferença para o KPI e como adaptar o método ao tamanho de uma PME. Mostra também uma coisa que a primeira página do Google não costuma tratar: os casos em que pôr um número na meta atrapalha em vez de ajudar.

Resumo rápido

  • Definição. OKR é um objetivo qualitativo sustentado por três a cinco resultados-chave verificáveis, quase sempre com número, revisados em ciclos curtos, em geral trimestrais.
  • OKR não é KPI. O OKR é a meta de avanço do período. O KPI é o indicador que monitora a saúde contínua da operação. Os dois convivem.
  • Verificável e com prazo é o teste. Se duas pessoas podem discordar sobre se o resultado-chave foi atingido, ele está mal escrito.
  • Nem toda meta pede número. Seijts e Latham (2005) sustentam que, quando o que falta é conhecimento e habilidade, e não esforço, a meta certa é de aprendizado, e não de resultado.
  • O efeito da meta encolhe quando a tarefa individual é complexa. Na meta-análise de Wood, Mento e Locke (1987), o efeito aparece mais forte nas tarefas fáceis e mais fraco nas mais complexas.
  • Cuidado com a meta ambiciosa. Sitkin e colegas (2011) argumentam que metas extremas são mais sedutoras justamente para as organizações que menos podem arcar com o risco delas.
  • Ao desdobrar para a pessoa, escreva contribuição. Em Kleingeld, van Mierlo e Arends (2011), metas individuais voltadas a maximizar o desempenho próprio dentro de grupos interdependentes apareceram com efeito negativo sobre o grupo.
  • Na PME, comece pequeno e não amarre a meta ao bônus no primeiro ciclo, para não transformar o método em negociação de meta fácil.

O que é OKR

Um OKR tem duas partes. O objetivo responde “para onde queremos ir?”. É uma frase curta, qualitativa, sem número, que dá direção. Os resultados-chave respondem “como saberemos que chegamos lá?”. São de três a cinco resultados verificáveis, quase sempre com número de partida, número de chegada e prazo.

A lógica é separar o que motiva do que prova. O objetivo motiva. Os resultados-chave provam. Quando as duas coisas se misturam, sobra uma lista de intenções que ninguém consegue conferir no fim do trimestre.

Um exemplo torna isso concreto. Objetivo: “tornar o atendimento da loja uma referência para o cliente”. Resultados-chave: elevar a nota de satisfação de 7,5 para 9; reduzir o tempo médio de resposta de 8 horas para 2; alcançar 80% de chamados resolvidos no primeiro contato. Sozinho, o objetivo seria vago. São os resultados-chave que o tornam acompanhável.

De onde vem o OKR

O método nasceu na Intel, nos anos 1970, com Andy Grove, que acrescentou os resultados-chave à gestão por objetivos de Peter Drucker. O investidor John Doerr, que trabalhou com Grove, popularizou a sigla e apresentou a ideia aos fundadores do Google em 1999, quando a empresa ainda era pequena. Doerr consolidou o método em 2018, no livro Measure What Matters, publicado no Brasil como Avalie o que Importa.

A teoria que está por trás não nasceu no Vale do Silício. Ela vem da pesquisa sobre definição de metas, consolidada por Locke e Latham (2002) em um artigo que reúne 35 anos de estudo sobre metas e motivação para a tarefa. É dessa literatura que saem as evidências citadas neste guia, e é dela que vêm também as ressalvas.

OKR e KPI: qual a diferença

Na nossa prática: esta é a dúvida que mais aparece, e confundir os dois é o que mais atrapalha na implantação. Em uma frase: o KPI monitora, o OKR empurra. Um mede a saúde da operação de forma contínua. O outro define o avanço que a empresa quer fazer neste período.

  OKR KPI
O que é Meta de avanço, formada por objetivo mais resultados-chave Indicador de acompanhamento contínuo
Pergunta que responde Para onde queremos ir neste período? Como está a saúde da operação agora?
Natureza Aspiracional e temporário, muda a cada ciclo Permanente, de monitoramento
Exemplo Objetivo: ser referência em atendimento. Resultado-chave: elevar o NPS de novos clientes de 40 para 60 no trimestre Taxa de cancelamento mensal, ticket médio
Quando muda No fechamento do ciclo Só quando a operação muda
Tabela 1. As diferenças práticas entre OKR e KPI. Os dois se alimentam: um KPI fora da curva vira foco de OKR, e um OKR pode usar um KPI como resultado-chave.

Não é escolher um ou outro. Um indicador que saiu da curva, como o cancelamento subindo, é justamente um bom candidato a virar objetivo do trimestre seguinte. E um resultado-chave pode ser a meta de um KPI que a empresa já acompanha.

Como escrever um bom OKR

A estrutura é sempre a mesma: um objetivo e de três a cinco resultados-chave. O que separa o OKR útil do enfeite de parede é a qualidade da redação de cada parte.

  1. 1. Escreva o objetivo sem número

    Uma frase curta e qualitativa que diga para onde a área quer ir no período. Se tiver número, é resultado-chave disfarçado de objetivo

  2. 2. Escolha o indicador de cada resultado

    Para cada resultado-chave, defina o que exatamente será medido e de onde o dado sai. Indicador sem fonte de dado vira discussão no fechamento

  3. 3. Registre o ponto de partida e o de chegada

    “De 7,5 para 9” diz muito mais do que “9”. Sem o ponto de partida, ninguém sabe se a meta é ambiciosa ou se já estava quase pronta

  4. 4. Marque o prazo e o dono

    Data de fechamento e uma pessoa responsável por trazer o número. O dono não é quem faz sozinho, é quem responde pelo acompanhamento

Diagrama 1. Os quatro passos de redação de um resultado-chave. Ordenação da CGLC a partir da prática de implantação em PME.

Três regras práticas completam o desenho. Meça resultado, não tarefa: “lançar a nova página” é tarefa, “aumentar a conversão da página de 2% para 4%” é resultado. Poucos por vez: de um a três objetivos por equipe, com até cinco resultados-chave cada. Escreva para quem não estava na reunião: se duas pessoas podem discordar sobre se a meta foi atingida, ela está mal escrita.

A exigência de especificidade não é invenção do método. Wood, Mento e Locke (1987) reuniram, em meta-análise, estudos de definição de metas conduzidos entre 1966 e 1985. Uma das comparações que eles analisam é a de metas específicas e difíceis contra pedir às pessoas que fizessem o seu melhor ou não dar meta alguma.

A força dessa base é reconhecida até por quem critica o método: Ordóñez, Schweitzer, Galinsky e Bazerman (2009) abrem o próprio artigo registrando que centenas de estudos, em muitos países e contextos, demonstraram de forma consistente que estabelecer metas específicas e desafiadoras pode impulsionar o comportamento e o desempenho. É essa base que sustenta a exigência de resultado-chave específico e desafiador. O número de partida, o número de chegada e o prazo são a forma de redação da casa para chegar lá.

Quando o resultado-chave numérico atrapalha

Aqui está a parte que quase nenhum guia de OKR conta, e ela muda a forma de escrever o primeiro ciclo de uma PME.

Na mesma meta-análise, Wood, Mento e Locke (1987) classificaram cada estudo pela complexidade da tarefa. O efeito da meta apareceu mais forte nas tarefas fáceis, com d de 0,76, e mais fraco nas tarefas mais complexas, com d de 0,42.

Entre as tarefas que eles classificam como mais complexas estão simulações de jogos de negócio e trabalho científico e de engenharia. O d expressa a diferença entre condições em desvios padrão.

Duas ressalvas importam antes de usar esses números. O resumo do estudo apresenta esses dois números como achado geral de três conjuntos de análise, sem dizer de qual conjunto cada um sai. E são medidas de diferença entre condições de pesquisa, não de resultado de empresa. Servem para indicar direção e ordem de grandeza, não para prever o efeito de um OKR específico.

Seijts e Latham (2005) vão adiante e nomeiam a situação. Eles argumentam que a meta de resultado pode ter efeito deletério sobre o desempenho. E sustentam que, quando o que falta é aquisição de conhecimento e habilidade, e não aumento de esforço e persistência, o que se deve estabelecer é uma meta de aprendizado, específica e desafiadora.

A meta de aprendizado, escrevem eles, desvia a atenção do resultado final e a coloca na descoberta de estratégias e processos eficazes.

É importante dizer o que esse texto é: um artigo de argumentação dirigido a executivos, publicado na Academy of Management Perspectives, e não uma meta-análise. Ele organiza uma tese e a defende.

Situação da equipe O que está faltando Meta que cabe Como fica escrito
Já sabe fazer, o desafio é constância Esforço e persistência Meta de resultado “Elevar a resolução no primeiro contato de 62% para 80% até 31/03”
Nunca fez isso antes Conhecimento e método Meta de aprendizado “Testar três formas de reduzir o retrabalho na montagem e documentar o que funcionou, até 31/03”
A causa do problema é desconhecida Diagnóstico Meta de aprendizado “Mapear as cinco maiores origens de devolução e quantificar cada uma, até 31/03”
Processo estável e repetitivo Ritmo Meta de resultado “Reduzir o prazo médio de emissão de 3 dias para 1 até 31/03”
Tabela 2. Como decidir entre meta de resultado e meta de aprendizado. A distinção segue o argumento de Seijts e Latham (2005); os exemplos de redação são da CGLC.

Leitura da CGLC: na PME, o primeiro ciclo quase sempre cai na segunda linha da tabela. A empresa nunca fez OKR, a equipe não conhece o próprio indicador e ninguém sabe qual alavanca move o número. Escrever uma meta de resultado agressiva nesse cenário é pedir ao time que corra antes de saber para onde. O ciclo de estreia rende mais quando ao menos um resultado-chave é de aprendizado.

O ciclo de OKR na prática

O OKR não é um documento que se escreve uma vez e se arquiva. Ele vive em um ciclo, quase sempre trimestral, com quatro momentos.

  1. Planejamento

    No início do ciclo, a empresa define os OKRs do período, do topo às equipes, e deixa todos visíveis. Quando cada time enxerga o objetivo dos outros, o alinhamento deixa de depender de reunião

  2. Check-ins

    Conversas curtas, semanais ou quinzenais, em que cada dono atualiza o quanto avançou e diz o que está travando. É aqui que o método vive ou morre

  3. Fechamento

    No fim do ciclo, cada resultado-chave recebe uma pontuação, em geral de 0 a 1, comparando o que foi alcançado com o que tinha sido combinado

  4. Retrospectiva

    O time discute o que funcionou, o que não funcionou e o que a nota ensina sobre a calibragem da próxima meta. Sem esta etapa, o fechamento vira só uma nota

Diagrama 2. Os quatro momentos do ciclo trimestral de OKR. Sequência da CGLC, usada nas implantações em PME.

A pontuação serve para calibrar e aprender, não para punir. É por aí que o OKR se conecta, sem se confundir, com a avaliação de desempenho: uma coisa é avaliar a meta da área, outra é avaliar a pessoa.

A meta ambiciosa e o paradoxo do stretch goal

Circula no mercado uma regra de bolso: OKR é ambicioso de propósito, e atingir cerca de 70% já é um bom resultado. É convenção de mercado, e não achado de pesquisa. A ideia tem um fundo razoável, que é evitar a meta fácil combinada para ser batida. Mas ela costuma ser repetida sem a contrapartida, e a contrapartida existe.

Sitkin, See, Miller, Lawless e Carton (2011) investigaram a busca organizacional por metas aparentemente impossíveis, que a literatura chama de stretch goals. A partir da análise dos mecanismos pelos quais essas metas poderiam influenciar o aprendizado e o desempenho da organização, eles propõem um quadro de contingência.

O quadro separa quais organizações estão posicionadas para se beneficiar de metas extremas e quais são as mais propensas a persegui-las. A conclusão que tiram é desconfortável: as metas extremas são, paradoxalmente, mais sedutoras para as organizações que menos podem arcar com os riscos associados a elas.

O que este estudo é, e o que ele não é. É um artigo teórico publicado na Academy of Management Review, que propõe um quadro conceitual e o defende. Não é uma medição de empresas. Ele não quantifica quanto a meta extrema custa, e nada no texto autoriza dizer que ela funciona ou deixa de funcionar em uma empresa específica.

Leitura da CGLC: na nossa prática, a PME que vem de um trimestre ruim é quem mais se anima com a meta gigante, porque ela promete resolver tudo de uma vez. É a hora de desconfiar do impulso. Nada disso está em Sitkin e colegas, que não nomeiam condição nenhuma.

Ainda a leitura da CGLC: uma meta ambiciosa pede caixa para absorver o erro e tempo para aprender com ele. As duas coisas costumam estar curtas justamente quando a meta gigante parece mais atraente. Se a empresa vai usar a régua dos 70%, que seja com o combinado explícito de que a nota não vira cobrança pessoal.

Como desdobrar o OKR sem quebrar o time

Há um achado de meta-análise que muda a forma de descer o OKR da equipe para a pessoa. Kleingeld, van Mierlo e Arends (2011) reuniram estudos sobre metas de grupo e desempenho de grupo.

Metas específicas e difíceis produziram desempenho bem acima do de metas não específicas, com d de 0,80 sobre 23 tamanhos de efeito. O efeito geral de todas as metas de grupo ficou em d de 0,56 sobre 49 tamanhos de efeito.

O que mais interessa aqui vem do inventário que eles fizeram de metas individuais dentro de grupos interdependentes. Metas voltadas a maximizar o desempenho da própria pessoa produziram efeito negativo forte sobre o desempenho do grupo, com d de -1,75. Metas escritas como contribuição para o resultado do grupo produziram efeito positivo, com d de 1,20.

Esses dois últimos números saem de poucos estudos, 6 e 4 tamanhos de efeito, e por isso pedem leitura cautelosa. A direção é mais confiável do que a magnitude.

Um segundo resultado do mesmo estudo contraria o senso comum do mercado. Os autores relatam que, inesperadamente, a interdependência da tarefa, a complexidade da tarefa e a participação não moderaram o efeito das metas de grupo. Isso não briga com Wood, Mento e Locke (1987): aqui a medida é do desempenho do grupo, e lá era da tarefa que a pessoa executava.

A participação do time em definir a própria meta é tratada como pré-requisito em boa parte do material sobre OKR, e nesta meta-análise ela não apareceu como condição para o efeito.

Leitura da CGLC: isso não é licença para impor meta de cima para baixo. Participação tem outros efeitos, sobre compromisso e sobre clima, que este estudo não mediu. O que o achado autoriza dizer é mais modesto e mais útil: a empresa que não conseguiu montar um processo participativo elaborado não deve adiar o OKR por causa disso.

Um limite que os próprios autores apontam: eles registram a escassez marcante de estudos de campo recentes em ambientes organizacionais nessa área. Vale lembrar disso antes de transportar qualquer número para o chão da empresa.

Na prática da redação, a diferença é pequena e decisiva. São a mesma pessoa e o mesmo número, em molduras opostas:

  • Desempenho próprio: “fechar 12 contratos no trimestre”.
  • Contribuição para o time: “contribuir com 12 dos 40 contratos que o time precisa fechar no trimestre”.

O acompanhamento disso é conversa de rotina, e cabe no mesmo espírito do nosso guia de como dar feedback.

O outro lado: quando a meta faz estrago

Vale conhecer a crítica, porque ela é séria e teve réplica pública. Ordóñez, Schweitzer, Galinsky e Bazerman (2009) argumentam que os efeitos benéficos da definição de metas foram superestimados e que o dano sistemático causado por elas foi largamente ignorado.

Eles catalogam seis efeitos colaterais. A recomendação que fazem é tratar meta não como remédio de balcão, mas como medicamento de prescrição, com dosagem cuidadosa, atenção aos efeitos colaterais e supervisão próxima.

Efeito colateral apontado no estudo Como ele costuma aparecer num ciclo de OKR
Foco estreito que negligencia áreas fora da meta A área bate o resultado-chave e deixa cair algo que ninguém escreveu, como a manutenção ou o pós-venda
Preferências de risco distorcidas Perto do fechamento, com a meta longe, o time aposta alto porque a nota já está perdida de qualquer jeito
Aumento de comportamento antiético Venda empurrada, número maquiado, chamado fechado sem resolver para caber no indicador
Aprendizado inibido Ninguém testa caminho novo no meio do trimestre, porque testar arrisca a nota
Corrosão da cultura organizacional Áreas param de se ajudar, porque ajudar não conta na meta de quem ajuda
Motivação intrínseca reduzida O trabalho que a pessoa gostava de fazer vira obrigação de bater número
Tabela 3. Os seis efeitos colaterais catalogados por Ordóñez, Schweitzer, Galinsky e Bazerman (2009). A primeira coluna é do estudo; a segunda é a leitura da CGLC sobre como cada um se manifesta na implantação de OKR em PME.

A réplica veio no mesmo número da revista. Locke e Latham (2009) sustentam que os críticos feriram princípios de boa pesquisa, por tirar o tema central de evidência anedótica, usar citações não representativas da literatura, relatar resultados de forma incorreta e preferir metáforas emotivas à linguagem contida.

Eles acrescentam que quase todas as armadilhas apontadas já tinham sido publicadas por eles próprios. Na tréplica, Ordóñez e colegas (2009) reafirmam a comparação com o medicamento potente e pedem mais pesquisa sobre a amplitude dos efeitos.

Leitura da CGLC: o debate não se resolveu, e o gestor de PME não precisa escolher lado. O que os dois lados concedem é que as armadilhas existem. Na implantação, isso vira uma regra simples: nenhum resultado-chave entra no ciclo sem que alguém tenha perguntado em voz alta o que ele pode estragar se for perseguido com afinco.

Exemplos de OKR para PME

Exemplo de OKR costuma vir de empresa de tecnologia com centenas de pessoas, e não ajuda quem tem trinta. Os quatro abaixo foram escritos no tamanho de uma PME, com indicadores que a empresa já tem ou consegue montar em uma planilha.

Setor Objetivo do trimestre Resultados-chave Erro comum nesse setor
Varejo de bairro Fazer de quem entra na loja um cliente que volta Elevar a recompra em 90 dias de 18% para 28%; cadastrar 70% dos compradores no clube; reduzir a ruptura dos 20 itens mais vendidos de 12% para 4% Escrever “vender mais” como objetivo e não ter nenhum resultado-chave que fale de recorrência
Serviços B2B (contabilidade, agência, TI) Entregar com previsibilidade, sem depender de herói Subir a entrega no prazo combinado de 71% para 92%; reduzir o retrabalho por erro interno de 14% para 5%; documentar os 8 processos mais executados Medir horas trabalhadas em vez de entrega, o que premia quem demora
Indústria pequena Tirar do chão de fábrica a perda que ninguém contabiliza Reduzir a perda de material de 6,2% para 3,5%; cortar o tempo de troca da linha principal de 48 para 25 minutos; fechar 100% das ordens com apontamento no dia Um resultado-chave por máquina, o que produz vinte metas e nenhuma prioridade
Clínica ou consultório Ocupar a agenda sem sacrificar a experiência do paciente Reduzir o não comparecimento de 22% para 10%; elevar a ocupação da agenda de 64% para 80%; manter a espera na recepção abaixo de 15 minutos em 9 de cada 10 atendimentos Puxar ocupação para 100% e destruir a folga que absorve atraso e encaixe
Tabela 4. Quatro OKRs escritos no tamanho de uma PME. Exemplos ilustrativos da CGLC, com números fictícios que servem de modelo de redação, e não de referência de mercado.

Repare no que os quatro têm em comum. O objetivo nunca tem número. A maioria dos resultados-chave traz o ponto de partida e o de chegada. Os que não trazem ou são de aprendizado, como documentar os oito processos mais executados, ou já nascem com o alvo em valor absoluto, e não como variação, caso de cadastrar 70% dos compradores no clube. E nenhum deles é um meio que pode mudar no caminho: não aparece “contratar um sistema”, “treinar a equipe” nem “criar o clube de vantagens”.

OKR na PME: como começar sem burocracia

Na nossa prática: não é preciso software caro nem área dedicada. Um ciclo inicial enxuto já entrega valor, e o excesso de estrutura é o que mais mata a implantação no primeiro trimestre.

Passo O que fazer no primeiro ciclo O que adiar para o segundo
Escopo Um OKR da empresa e um por equipe Desdobramento individual
Ferramenta Uma planilha ou um quadro compartilhado Sistema dedicado de gestão de metas
Ritmo Check-in de 15 minutos por semana Relatório formal de acompanhamento
Tipo de meta Ao menos um resultado-chave de aprendizado Metas ambiciosas em tudo
Remuneração Nenhuma amarração com bônus Discussão sobre peso na variável, se houver
Tabela 5. O que entra no primeiro ciclo de OKR de uma PME e o que pode esperar. Recomendação da CGLC.

A linha da remuneração é a que mais gera discussão e a que menos admite meio-termo no começo. Quando o OKR vira a régua principal do bônus, o time passa a propor metas fáceis, e a ambição, que é o ponto do método, desaparece na primeira rodada de negociação.

Leitura da CGLC: implantado assim, o OKR deixa de ser modismo e vira o que deveria ser, um jeito de dar foco e clareza. Ele é peça do mesmo quebra-cabeça da gestão de pessoas que sustenta a retenção de talentos e prepara o plano de sucessão.

Quer implantar OKRs e dar foco às metas da sua PME?

Perguntas frequentes

O que é OKR?

OKR é um método de definição de metas formado por um objetivo, qualitativo e sem número, e por três a cinco resultados-chave, que são resultados verificáveis, quase sempre com número de partida, número de chegada e prazo. A sigla vem do inglês Objectives and Key Results. O ciclo costuma ser trimestral, com conversas curtas de acompanhamento pelo caminho.

Qual a diferença entre OKR e KPI?

O KPI é um indicador de monitoramento contínuo, que mostra a saúde da operação, como o cancelamento ou o ticket médio. O OKR é uma meta de avanço para um período, que empurra a empresa para a frente. Os dois convivem: um KPI fora da curva pode virar o foco de um OKR, e um OKR pode usar um KPI como resultado-chave.

Todo resultado-chave precisa ter número?

Precisa ser verificável, e quase sempre isso significa número. A exceção aparece quando o que falta à equipe é conhecimento, e não esforço. Seijts e Latham (2005) sustentam que, nesse caso, a meta certa é de aprendizado, voltada à descoberta de estratégias e processos eficazes. Ela continua específica e com prazo, mas verifica método, e não resultado.

Quantos OKRs uma equipe deve ter?

Poucos. O recomendado é de um a três objetivos por equipe, com até cinco resultados-chave cada. O método existe para criar foco, e OKR demais produz o efeito contrário. Na PME, o primeiro ciclo rende mais com um OKR da empresa e um por equipe, sem desdobramento individual.

OKR serve para pequena empresa?

Sim, e não exige software nem área dedicada. Uma planilha e check-ins semanais bastam para começar. Para a PME, o segredo é começar pequeno, com um OKR da empresa e um por equipe, deixar ao menos um resultado-chave voltado a aprender, e não amarrar a meta ao bônus no primeiro ciclo.

Atingir 70% do OKR é bom resultado?

É uma convenção de mercado, não um achado de pesquisa, e ela existe para evitar a meta fácil combinada para ser batida. Sitkin e colegas (2011) argumentam que metas extremas são mais sedutoras justamente para as organizações que menos podem arcar com o risco delas. Se for adotar a régua, combine desde o início que a nota serve para calibrar, e não para cobrar pessoas.

Fontes e referências

  • Locke, E. A., & Latham, G. P. (2002). Building a practically useful theory of goal setting and task motivation: A 35-year odyssey. American Psychologist, 57(9), 705-717. https://doi.org/10.1037/0003-066X.57.9.705
  • Wood, R. E., Mento, A. J., & Locke, E. A. (1987). Task complexity as a moderator of goal effects: A meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 72(3), 416-425. https://doi.org/10.1037/0021-9010.72.3.416
  • Seijts, G. H., & Latham, G. P. (2005). Learning versus performance goals: When should each be used? Academy of Management Perspectives, 19(1), 124-131. https://doi.org/10.5465/ame.2005.15841964
  • Sitkin, S. B., See, K. E., Miller, C. C., Lawless, M. W., & Carton, A. M. (2011). The paradox of stretch goals: Organizations in pursuit of the seemingly impossible. Academy of Management Review, 36(3), 544-566. https://doi.org/10.5465/amr.2008.0038
  • Kleingeld, A., van Mierlo, H., & Arends, L. (2011). The effect of goal setting on group performance: A meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 96(6), 1289-1304. https://doi.org/10.1037/a0024315
  • Ordóñez, L. D., Schweitzer, M. E., Galinsky, A. D., & Bazerman, M. H. (2009). Goals gone wild: The systematic side effects of overprescribing goal setting. Academy of Management Perspectives, 23(1), 6-16. https://doi.org/10.5465/amp.2009.37007999
  • Locke, E. A., & Latham, G. P. (2009). Has goal setting gone wild, or have its attackers abandoned good scholarship? Academy of Management Perspectives, 23(1), 17-23. https://doi.org/10.5465/amp.2009.37008000
  • Ordóñez, L. D., Schweitzer, M. E., Galinsky, A. D., & Bazerman, M. H. (2009). On good scholarship, goal setting, and scholars gone wild. Academy of Management Perspectives, 23(3), 82-87. https://doi.org/10.5465/amp.2009.43479265
  • Doerr, J. (2018). Measure What Matters. Portfolio/Penguin.

Por: Luciana Silva, administradora com especialização em neurociência e responsável por Gestão de Pessoas na CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.

Publicado em 23/06/2026. Última atualização: 18/09/2026.

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