Lean é um sistema de gestão que organiza o trabalho em torno de uma pergunta só: o que, nesta operação, o cliente não pagaria para ver acontecer. O que sobra dessa pergunta é o que a literatura chama de desperdício, e o método existe para achar e tirar isso do caminho, de forma contínua, com quem executa a tarefa.
O método vem da indústria automotiva japonesa e é por isso que a maior parte do material disponível fala de estoque, linha de montagem e chão de fábrica. A consequência prática é ruim para quem não tem fábrica: o dono de uma clínica, de um escritório de contabilidade ou de uma distribuidora lê sobre kanban e conclui que o assunto não é dele. Trinta anos de indústria dizem o contrário: o desperdício fora da fábrica é maior, e é pior, porque ninguém o vê empilhado num canto.
Resumo rápido
- Definição. Lean é um sistema de gestão que persegue desperdício, entendido como qualquer etapa que consome recurso sem criar valor para quem paga. Ele nasceu na indústria e o vocabulário ainda é industrial, mas o alvo é o fluxo de trabalho, e a máquina vem depois.
- Serve fora da fábrica, e com uma ressalva que a própria pesquisa faz. Na revisão sistemática de Gupta, Sharma e Sunder M. (2016), lean é aplicável em serviços, porém a transferência dos princípios da manufatura tem limites por causa das características dos serviços, e os autores apontam a necessidade de olhar a diferença de processo entre os dois. A mesma revisão registra que a pesquisa sobre lean em serviços ainda está em estágio inicial e pede estudos em países em desenvolvimento, o que, na nossa leitura, deixa a base brasileira rala.
- O que o estudo liga ao tamanho é a adoção, e não o resultado. Shah e Ward (2003), com dados do censo industrial da revista IndustryWeek, examinaram o efeito de três fatores de contexto (tamanho da planta, idade da planta e sindicalização) sobre a probabilidade de implantar 22 práticas. A evidência sustentou fortemente a influência do tamanho, enquanto sindicalização e idade pesaram menos do que a sabedoria convencional sugere. A amostra é de indústria americana, não de serviço e não de PME brasileira.
- O que precisa estar presente muda com o estágio. Knol, Slomp, Schouteten e Lauche (2018) analisaram 33 PMEs industriais holandesas por autoavaliação com múltiplos respondentes, e os achados indicaram que a criticidade dos fatores de sucesso depende do estágio. No começo, as empresas poderiam avançar de baixo para cima por fatores locais (foco em aprendizagem, treinamento em melhoria e congruência do apoio). Já com práticas mais avançadas, alguns fatores de toda a empresa precisam estar presentes, entre eles o apoio da alta direção.
- Não é garantido. A revisão de 83 estudos de Negrão, Godinho Filho e Marodin (2016) registra que a aplicação ainda ocorre de forma fragmentada. Quarenta e um artigos sugeriram efeito positivo em pelo menos uma métrica operacional, financeira ou ambiental, e cinco estudos apontaram efeito negativo de algumas práticas sobre desempenho operacional ou financeiro.
- Por onde começar. Leitura da CGLC, a partir da prática com PMEs: escolha um fluxo que o cliente enxerga, meça o tempo total de ponta a ponta, separe o que é espera do que é trabalho, e ataque a maior espera primeiro.
O que é lean
Lean é um sistema de gestão cujo princípio organizador é a eliminação sistemática de desperdício ao longo de um fluxo de trabalho. A palavra em inglês significa magro, enxuto, e entrou no vocabulário de gestão nos anos 1990 para descrever o modo de produzir que pesquisadores ocidentais observaram na indústria automotiva japonesa, sobretudo na Toyota.
Em português o termo circula como produção enxuta ou mentalidade enxuta. No dia a dia das empresas ficou mesmo o nome em inglês.
Uma formulação muito difundida do método organiza o trabalho em cinco movimentos: definir o que é valor do ponto de vista de quem paga, enxergar o fluxo inteiro que produz esse valor, fazer esse fluxo correr sem interrupção, puxar a produção a partir da demanda real em vez de empurrar contra previsão, e repetir.
Essa é a arrumação que se popularizou na literatura de gestão nos anos 1990. Ela vale aqui como definição e como história do termo, não como evidência de resultado. A evidência é mais cheia de ressalvas do que o mercado costuma dizer.
Vale marcar uma diferença que confunde muita gente. Lean não é um conjunto de ferramentas que se compra e se instala. Na revisão de Hines, Holweg e Rich (2004), a falta de definição precisa do conceito é apontada como causa de confusão e de fronteiras difusas com outros conceitos de gestão.
Ou seja, a bagunça de nomenclatura é reconhecida dentro da própria literatura. Não é impressão de quem está começando.
Onde está o desperdício quando não existe fábrica
O vocabulário que a literatura herdou da Toyota nomeia sete tipos de desperdício, e todos os sete têm nome industrial: superprodução, espera, transporte, processamento em excesso, estoque, movimentação e defeito.
É essa lista que faz o dono de uma empresa de serviços fechar a aba. Transporte e estoque parecem não ter tradução quando o que a empresa entrega é um laudo, uma apólice, uma consulta ou um contrato.
Têm tradução, e é quase sempre a mesma coisa com outro nome. A tabela abaixo é leitura da CGLC, construída a partir do que vemos nas empresas que acompanhamos.
Ela existe porque o passo que trava a PME de serviço não é aceitar o método. É reconhecer o próprio desperdício quando ele aparece descrito em linguagem de galpão.
| Nome industrial | Como isso aparece em serviço | Sinal de que está acontecendo |
|---|---|---|
| Superprodução | Relatório que ninguém lê, campo preenchido que ninguém consulta, reunião de status que existe porque sempre existiu | Se você parasse de produzir isso por um mês, quem reclamaria? Se a resposta for ninguém, achou |
| Espera | Processo parado aguardando aprovação, assinatura, resposta de e-mail, retorno de cliente ou a pessoa que detém a senha | O prazo prometido é de dois dias, o trabalho leva quatro horas, e o resto é fila |
| Transporte | O caso que passa por quatro caixas de entrada até chegar a quem decide, cada passagem com um resumo novo | Mais de quatro mãos tocando o mesmo pedido, do início ao fim |
| Processamento em excesso | Conferência que repete a conferência anterior, formatação de documento interno, três aprovações para a mesma despesa pequena | Duas pessoas checando a mesma coisa sem que nenhuma saiba da outra |
| Estoque | Fila de pedidos parados no sistema, casos abertos sem movimentação, pendências acumuladas na mesa de alguém | Um relatório de itens abertos que nunca zera e que ninguém consegue explicar inteiro |
| Movimentação | Procurar informação. Abrir quatro sistemas para montar uma resposta, pedir por mensagem um dado que existe em algum lugar | A pergunta “onde está aquele arquivo” sendo feita mais de uma vez por dia |
| Defeito | Retrabalho. Proposta com preço errado, cadastro digitado de novo, entrega devolvida por falta de um documento | Qualquer tarefa que apareça duas vezes na agenda da mesma pessoa |
Repare que quase todos viram, na prática, alguma forma de espera ou de refazer. É esse o motivo de o desperdício em serviço ser difícil de ver: ele não ocupa espaço físico. Um galpão com estoque parado incomoda a vista de todo mundo que passa.
Uma fila de casos parados no sistema não incomoda ninguém, até o cliente ligar.
Lean fora da fábrica: o que a pesquisa sustenta e o que ela não sustenta
Esta é a parte em que convém ser exato, porque é aqui que o mercado costuma prometer demais. A revisão sistemática de Gupta, Sharma e Sunder M. (2016), publicada no International Journal of Productivity and Performance Management, classificou a literatura de lean em serviços por tempo, editora, região e conteúdo. A conclusão dos autores é dupla, e as duas metades importam.
A primeira metade é favorável: lean é aplicável em serviços. A segunda metade é a ressalva, e está no mesmo parágrafo do resumo do estudo: a transferência dos princípios da manufatura para serviços tem certos limites, por causa das características dos serviços, e é preciso focar na diferença de processo entre serviço e manufatura.
Os autores também escrevem que respeito pelas pessoas e engajamento são críticos para o lean em serviço, e identificam a necessidade de padronizar definição, princípios e ferramentas para o setor.
Há ainda uma limitação que os próprios autores declaram e que, no que vemos, quase nunca é repetida por quem cita o estudo: eles registram que a literatura reunida não é, de forma alguma, exaustiva, e apontam estudos rigorosos por setor, especificamente em países em desenvolvimento, como área para pesquisa futura. Leitura da CGLC: na prática, isso quer dizer que quem aplica lean em serviço numa PME brasileira está trabalhando com uma base de evidência fina, e deveria tratar cada mudança como experimento medido, não como implantação de receita.
A crítica, aliás, é antiga e está registrada dentro da literatura. Hines, Holweg e Rich (2004) listam, entre as objeções feitas à abordagem lean, justamente a aplicabilidade limitada fora de ambientes de manufatura repetitiva de alto volume, além da falta de integração humana.
O artigo deles é uma revisão que comenta as tentativas de responder a essas lacunas e propõe um quadro para entender a evolução do conceito, ligando-a às escolas de contingência e de organização que aprende. Não mede efeito, e nenhum número sai dele.
| Sobre lean em serviços | Situação nas fontes deste artigo |
|---|---|
| É aplicável fora da manufatura | Sustentado. É a conclusão de Gupta, Sharma e Sunder M. (2016) numa revisão sistemática |
| Os princípios se transferem sem adaptação | Não sustentado. Os mesmos autores registram limites decorrentes das características dos serviços e pedem foco na diferença de processo |
| A crítica de que lean só serve para alto volume repetitivo é nova | Não. Hines, Holweg e Rich (2004) já a registravam entre as objeções feitas à abordagem |
| Existe base sólida para serviços em países em desenvolvimento | Não. Gupta, Sharma e Sunder M. (2016) dizem que a pesquisa está em estágio inicial e pedem estudos rigorosos por setor, especificamente nesses países |
| Há magnitude conhecida de ganho em serviço | Não nas fontes deste artigo. Nenhuma das duas revisões citadas nesta seção reporta tamanho de efeito. O único número de desempenho aqui vem da indústria |
Lean funciona? O que os números disponíveis realmente dizem
Duas fontes ajudam a responder sem exagero, e as duas vêm com limite.
Shah e Ward (2003), no Journal of Operations Management, usaram dados do censo de indústrias da revista IndustryWeek para examinar o efeito de três fatores de contexto (tamanho da planta, idade da planta e sindicalização) sobre a probabilidade de implantar 22 práticas de manufatura ligadas a sistemas de produção enxuta. Eles agruparam essas práticas em quatro pacotes: just-in-time, gestão da qualidade total, manutenção preventiva total (assim no resumo do estudo) e gestão de pessoas.
Dois achados interessam a quem tem empresa pequena.
O primeiro: a evidência dá suporte forte à influência do tamanho da planta sobre a implantação, enquanto a influência da sindicalização e da idade da planta é menos generalizada do que a sabedoria convencional sugere. E é preciso separar bem: o que o estudo relaciona ao tamanho é a probabilidade de a planta implantar as práticas, e não o resultado obtido com elas. São coisas diferentes e, na nossa leitura, confundi-las produz o fatalismo que este artigo combate.
O segundo: os resultados indicam que os pacotes contribuem substancialmente para o desempenho operacional das plantas e explicam cerca de 23% da variação desse desempenho, depois de descontados os efeitos de setor e de contexto.
Vale ler esse número pelo que ele é. Vinte e três por cento de variação explicada não é ganho de 23% em nada. É a fatia da diferença de desempenho entre plantas que se associa aos pacotes de práticas, uma vez retirado o que se explica por setor e contexto. E isso vale para planta industrial americana. Não para serviço, e não para PME brasileira.
A segunda fonte é a que mais protege contra promessa fácil. Negrão, Godinho Filho e Marodin (2016) revisaram 83 estudos sobre o grau de adoção de práticas de manufatura enxuta pelo mundo e sobre a ligação entre essas práticas e o desempenho das organizações.
Os resultados, segundo os autores, revelaram que a aplicação ainda ocorre de forma fragmentada, desprezando a ligação sistêmica que é essencial à manufatura enxuta. Quarenta e um artigos sugeriram efeito positivo das práticas em pelo menos uma métrica de desempenho operacional, financeiro ou ambiental. E cinco estudos apontaram que algumas práticas tiveram efeito negativo sobre desempenho operacional ou financeiro.
Entre as razões que os autores oferecem para esse efeito negativo estão a alta variabilidade de demanda, que eles qualificam como um resultado percebido da implantação de longo prazo, a cultura organizacional do país ou da empresa, e a dificuldade dos sistemas tradicionais de custeio para medir e comparar investimentos e ganhos econômicos da adoção ao longo do tempo.
Leitura da CGLC: entre essas razões, a dificuldade dos sistemas tradicionais de custeio é a que mais atinge a PME. Se o sistema de custo da empresa não consegue mostrar o ganho, o projeto morre por falta de defensor, mesmo quando a operação melhorou de fato.
O que precisa estar presente, e quando
A pergunta que mais ouvimos de dono de PME é esta: preciso montar uma estrutura antes de começar? A resposta mais útil que encontramos vem de um estudo pequeno e bem específico, e a especificidade dele precisa vir junto.
Knol, Slomp, Schouteten e Lauche (2018), no International Journal of Production Research, usaram autoavaliações com múltiplos respondentes em 33 PMEs industriais holandesas e aplicaram uma análise de condição necessária. O objetivo era examinar em que medida os fatores de sucesso são críticos para graus diferentes de implantação das práticas.
O achado: a criticidade dos fatores depende do estágio.
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Estágio inicial
Segundo os autores, nos estágios iniciais da jornada as PMEs poderiam melhorar suas práticas lean de baixo para cima, por meio de fatores locais: foco em aprendizagem, treinamento em melhoria e congruência do apoio, três termos que o resumo do estudo nomeia sem detalhar. Repare no verbo condicional, que é dos autores
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Estágio avançado
Quando as práticas lean estão mais avançadas, alguns fatores de toda a empresa precisam estar presentes: apoio da alta direção, uma visão de melhoria compartilhada e uma ligação com os fornecedores
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O que isso põe em dúvida
Os achados questionam a universalidade de fatores de sucesso como o envolvimento estratégico, e indicam a necessidade de um modelo mais dinâmico de implantação do lean
Na nossa leitura, esse resultado contraria um conselho muito repetido no mercado, o de não começar nada sem patrocínio formal da diretoria e sem um programa estratégico desenhado. Onde a leitura precisa ser cuidadosa: o estudo não diz que o apoio da alta direção atrapalha no começo, nem que seja dispensável em qualquer estágio. Ele o encontra como condição necessária no estágio avançado.
Para uma PME, em que o dono costuma ser a alta direção e o chão da operação ao mesmo tempo, a tradução prática é outra. Nas PMEs que acompanhamos, o que falta no começo raramente é autorização. É treinamento, e é constância.
Há um segundo estudo que vale colocar ao lado deste, com um cuidado que muda tudo. Netland (2016), no mesmo periódico, perguntou a 432 profissionais de 83 fábricas pertencentes a duas empresas multinacionais quais seriam, na opinião deles, as coisas que os gestores deveriam fazer para garantir o sucesso da implantação do lean no nível da fábrica.
As respostas foram agrupadas em fatores gerais de sucesso e testadas em relação a quatro variáveis de contingência: corporação, tamanho da fábrica, estágio de implantação e cultura nacional.
O cuidado é este: esse estudo mediu opinião, não efeito. Ele registra o que profissionais percebem como fator de sucesso, e não se esses fatores de fato funcionam. Feita a ressalva, o resultado é interessante: em geral, a análise sustenta uma lista genérica de fatores críticos de sucesso, com algumas exceções menores. E, das exceções, o resumo do estudo detalha apenas uma: o estágio de implantação influencia, em pequena medida, quais fatores são percebidos como mais efetivos do que outros.
Juntando os dois estudos com honestidade sobre o que cada um pode dizer: a variável comum é o estágio. Em Netland ela move as percepções em pequena medida; em Knol e colegas ela muda quais fatores são condição necessária.
Leitura da CGLC, e é uma extensão da casa: a desculpa mais comum que ouvimos para não começar é a de que “o nosso caso é diferente”. Nenhuma das duas fontes testou setor: sobre ramo elas simplesmente não dizem nada, nem a favor nem contra.
| Pergunta do dono | O que as fontes permitem responder |
|---|---|
| Minha empresa é diferente demais para isso funcionar? | Em Netland (2016), a análise sustenta em geral uma lista genérica de fatores, com exceções menores, nas quatro contingências testadas (corporação, tamanho da fábrica, estágio e cultura nacional; setor não foi testado). Atenção: são percepções de 432 profissionais de 83 fábricas de duas multinacionais, não medição de efeito |
| Ser pequeno me impede? | Shah e Ward (2003) encontram suporte forte para a influência do tamanho sobre a probabilidade de implantar. O estudo não liga o tamanho ao resultado obtido com as práticas |
Como começar: seis passos para as primeiras semanas
O roteiro abaixo sai da nossa prática, não das fontes: ele foi montado a partir do que funciona nas PMEs que acompanhamos. Ele não foi testado em pesquisa.
O que ele faz é respeitar o achado de Knol e colegas sobre o estágio inicial: começa no nível local, em escala pequena, e por aprendizagem em vez de estrutura.
| Passo | O que fazer | Erro que este passo evita |
|---|---|---|
| 1. Escolher um fluxo só | Um fluxo que o cliente enxerga e que dói: do pedido à entrega, da solicitação ao laudo, da proposta ao contrato assinado. Um, não três | Começar por um mapa da empresa inteira, que consome semanas e não muda nada |
| 2. Medir o tempo de ponta a ponta | Cronometrar o tempo corrido, do primeiro contato até a entrega. Não a soma das tarefas: o tempo real que o cliente espera | Discutir melhoria com base em opinião. Sem o número de antes, não há como saber se melhorou |
| 3. Separar trabalho de espera | Dentro do tempo total, quanto é alguém fazendo alguma coisa e quanto é o caso parado aguardando. Anotar as duas somas lado a lado | Atacar a velocidade de quem executa, quando o problema está nas filas entre as etapas |
| 4. Atacar a maior espera | Uma só, a maior. Quase sempre é aprovação, informação que falta ou uma pessoa que virou gargalo por concentrar acesso | Distribuir esforço em dez melhorias pequenas e não conseguir mostrar efeito em nenhuma |
| 5. Fechar o ciclo | Medir de novo, com a mesma régua, depois de quatro a seis semanas. Se não melhorou, desfazer e tentar outra coisa | Declarar vitória na reunião de encerramento sem nunca ter voltado ao número |
| 6. Ensinar quem executa a repetir | Passar o método adiante, para que a próxima rodada não dependa de você. É o que se aproxima do que Knol e colegas chamam de foco em aprendizagem e treinamento em melhoria | Virar o único na empresa capaz de conduzir a melhoria, o que trava tudo quando você não está |
Os passos 2, 3 e 5 são o essencial, e são os que costumam ser pulados. Sem medir antes e depois com a mesma régua, o esforço vira percepção, e percepção não sobrevive à primeira semana difícil. O passo 5 é o mesmo movimento do ciclo PDCA, e a razão de ele falhar, no que vemos, é quase sempre a mesma: ninguém volta para conferir.
Se você quiser desenhar o fluxo antes de medir, o fluxograma de processos resolve, desde que fique pequeno.
Lean, kaizen e Six Sigma: o que é o quê
A confusão de nomes que Hines, Holweg e Rich (2004) apontam como consequência da falta de definição aparece, na PME, de um jeito bem concreto: três fornecedores vendem três coisas com nomes diferentes e a mesma promessa. Vale separar.
| Lean | Kaizen | Six Sigma | |
|---|---|---|---|
| O que é | O sistema de gestão | A rotina de melhoria em pequenos passos | A disciplina estatística de redução de variação |
| A pergunta que faz | Onde está o desperdício no fluxo? | O que dá para melhorar aqui esta semana? | Por que este resultado oscila? |
| Quando serve | O cliente espera demais e ninguém sabe dizer onde o tempo se perde | Depois do primeiro projeto, para a melhoria não parar | O resultado varia sem explicação, e a média esconde a variação |
| Quem conduz | Quem enxerga o fluxo inteiro | Quem executa a tarefa | Quem sabe tratar o dado |
Na prática das PMEs que acompanhamos, o erro caro tem endereço: comprar a estatística do Six Sigma para resolver um problema de espera. Espera é assunto de lean, e se resolve olhando a fila.
Ferramentas menores entram depois e sem cerimônia. Um plano de ação em 5W2H serve para não perder o combinado da primeira rodada. Um diagrama de Ishikawa ajuda quando a causa do defeito não é óbvia. Um escritório de projetos enxuto só faz sentido quando já há projetos demais para acompanhar de cabeça, o que, na nossa experiência com PMEs, raramente é o caso no começo.
Nenhuma delas é pré-requisito. Tratar qualquer uma como pré-requisito é, no que vemos, um jeito comum de não começar nunca.
Os erros que mais vemos
Esta seção é inteiramente observação nossa, a partir do que encontramos nas empresas que acompanhamos. Nenhuma das fontes citadas mediu estes pontos.
| O erro | Como ele aparece | O que fazer no lugar |
|---|---|---|
| Começar pela ferramenta | A empresa compra um quadro de gestão à vista, instala e não muda nada | Medir a fila antes de comprar qualquer coisa. O quadro mostra o trabalho, mas não toca na espera que o trava |
| Cortar pessoas e chamar isso de lean | O programa é anunciado junto com redução de quadro, e a colaboração acaba na mesma semana | Perseguir as etapas que não criam valor, e preservar quem executa as que criam. Gupta, Sharma e Sunder M. (2016) registram que respeito pelas pessoas e engajamento são críticos para o lean em serviço |
| Medir o que é fácil | O indicador vira o número de melhorias propostas, que é fácil de contar e não diz nada ao cliente | Medir o tempo que o cliente espera. É chato de levantar e é o número que importa |
| Esperar o momento certo | O início fica para depois do sistema novo, da alta temporada ou da contratação que vem | Começar por um fluxo só. Na maior parte das PMEs, a alta direção pela qual se espera já está na sala |
| Não conseguir mostrar o ganho | A operação melhorou e ninguém consegue provar, então o projeto perde o defensor | Combinar antes de começar qual número vai contar a história. Negrão, Godinho Filho e Marodin (2016) listam a dificuldade dos sistemas tradicionais de custeio entre as explicações oferecidas para efeito negativo |
Se a intenção é fazer disso um jeito de trabalhar, em vez de um projeto com data de encerramento, o assunto passa a ser cultura de inovação, que é onde tratamos de como a melhoria deixa de depender de uma pessoa.
Perguntas frequentes sobre lean
O que é lean em poucas palavras?
É um sistema de gestão que organiza o trabalho em torno da eliminação sistemática de desperdício, entendido como qualquer etapa que consome recurso sem criar valor para quem paga. Nasceu na indústria automotiva japonesa e é conhecido em português como produção enxuta ou mentalidade enxuta. O alvo não é a máquina nem a pessoa: é o fluxo de trabalho, do primeiro contato do cliente até a entrega.
Lean só serve para indústria?
Não. A revisão sistemática de Gupta, Sharma e Sunder M. (2016) conclui que lean é aplicável em serviços, com uma ressalva que os próprios autores fazem: a transferência dos princípios da manufatura tem certos limites por causa das características dos serviços, e é preciso focar na diferença de processo entre os dois. A mesma revisão registra que a pesquisa sobre lean em serviços ainda está em estágio inicial e pede estudos em países em desenvolvimento.
Qual a diferença entre lean e kaizen?
Lean é o sistema e kaizen é a prática que o mantém andando. O sistema define o que perseguir, que é o desperdício ao longo do fluxo. O kaizen é a rotina de melhoria contínua em pequenos passos, conduzida por quem executa a tarefa. Na nossa leitura, dá para fazer kaizen sem nunca usar a palavra lean, e dá para desenhar um projeto lean que morre por não ter instalado a rotina de kaizen depois.
Preciso do apoio da diretoria para começar?
Segundo Knol, Slomp, Schouteten e Lauche (2018), o apoio da alta direção aparece como fator necessário quando as práticas já estão mais avançadas, e não nos estágios iniciais, em que os autores dizem que as PMEs poderiam avançar por fatores locais: foco em aprendizagem, treinamento em melhoria e congruência do apoio. Vale o recorte da base: 33 PMEs industriais holandesas, por autoavaliação com múltiplos respondentes. O estudo não diz que o apoio da direção seja dispensável, e sim que a criticidade dos fatores depende do estágio.
Lean garante redução de custo?
Não. Na revisão de 83 estudos de Negrão, Godinho Filho e Marodin (2016), 41 artigos sugeriram efeito positivo das práticas em pelo menos uma métrica operacional, financeira ou ambiental, e cinco estudos apontaram que algumas práticas tiveram efeito negativo sobre desempenho operacional ou financeiro. Os autores registram ainda que a aplicação ocorre de forma fragmentada, desprezando a ligação sistêmica que consideram essencial.
Lean significa demitir para enxugar a equipe?
Não, e essa é a confusão que mais vemos. O que o método persegue são etapas que consomem recurso sem criar valor, como espera, retrabalho e conferência repetida. Gupta, Sharma e Sunder M. (2016) registram que respeito pelas pessoas e engajamento são críticos para o lean em serviço. Na nossa leitura, um programa anunciado como corte de pessoal costuma encerrar a colaboração de quem conhece o processo, que é justamente quem enxerga o desperdício.
Fontes e referências
- Gupta, S., Sharma, M., & Sunder M., V. (2016). Lean services: a systematic review. International Journal of Productivity and Performance Management, 65(8), 1025-1056. https://doi.org/10.1108/IJPPM-02-2015-0032
- Hines, P., Holweg, M., & Rich, N. (2004). Learning to evolve: A review of contemporary lean thinking. International Journal of Operations & Production Management, 24(10), 994-1011. https://doi.org/10.1108/01443570410558049
- Knol, W. H., Slomp, J., Schouteten, R. L. J., & Lauche, K. (2018). Implementing lean practices in manufacturing SMEs: testing ‘critical success factors’ using Necessary Condition Analysis. International Journal of Production Research, 56(11), 3955-3973. https://doi.org/10.1080/00207543.2017.1419583
- Negrão, L. L. L., Godinho Filho, M., & Marodin, G. (2016). Lean practices and their effect on performance: a literature review. Production Planning & Control, 1-24. https://doi.org/10.1080/09537287.2016.1231853
- Netland, T. H. (2016). Critical success factors for implementing lean production: the effect of contingencies. International Journal of Production Research, 54(8), 2433-2448. https://doi.org/10.1080/00207543.2015.1096976
- Shah, R., & Ward, P. T. (2003). Lean manufacturing: context, practice bundles, and performance. Journal of Operations Management, 21(2), 129-149. https://doi.org/10.1016/S0272-6963(02)00108-0
Nenhuma das seis fontes estudou pequenas e médias empresas brasileiras, e nenhuma delas foi lida em texto completo: todas foram verificadas pelo resumo, e os identificadores foram conferidos no Crossref. Cinco são de acesso fechado e a única híbrida não abriu nem no periódico nem no repositório institucional.
Netland (2016) mediu a opinião de profissionais sobre fatores de sucesso, e não o efeito desses fatores. A tabela de tradução do desperdício, o roteiro de seis passos e as tabelas de comparação e de erros são leitura da CGLC e não foram testados em pesquisa.
Quer tirar o desperdício do seu processo sem parar a operação para isso?
Por: Clayton Lambert, engenheiro de produção com trinta anos de indústria e responsável pelo silo de Inovação na CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 16/09/2026. Última atualização: 16/09/2026.
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