Inovação

Inovação aberta: o que é, como funciona e como começar na PME sem centro de P&D

Inovação aberta é a prática de buscar fora da empresa parte do conhecimento, da tecnologia e das ideias de que o negócio precisa, em vez de contar só com o que nasce dentro de casa. A prática inclui também levar para fora o que a empresa desenvolve e não aproveita sozinha. Neste guia, essa é a definição de trabalho da CGLC, e não a de uma fonte acadêmica.

O texto explica como a ideia se traduz para uma empresa pequena ou média e de onde pode vir o conhecimento de fora. Resume o que a pesquisa publicada em periódicos científicos registra sobre PMEs e sobre empresas industriais e propõe cinco passos para começar, sem montar um centro de P&D. O que for critério da casa vem marcado no texto.

Resumo rápido

  • O que é: buscar fora da empresa conhecimento, tecnologia e ideias, e também levar para fora o que a empresa desenvolve e não aproveita sozinha. Definição de trabalho da CGLC.
  • Quem pode usar: na leitura da CGLC, não exige laboratório. A PME pode começar com clientes, fornecedores, universidades e institutos de pesquisa, outras empresas e programas de fomento. A lista de fontes e a ordem de prioridade são critério da CGLC.
  • O que a pesquisa registra sobre PMEs: Hossain e Kauranen (2016), numa revisão sistemática da literatura, relatam que adotar inovação aberta melhora o desempenho geral de inovação das PMEs, e descrevem os estudos reunidos como limitados e dispersos. Van de Vrande e colegas (2009), numa pesquisa exploratória com 605 PMEs inovadoras holandesas, relatam que as empresas buscam a inovação aberta sobretudo por motivos de mercado e que os desafios percebidos mais importantes são organizacionais e culturais.
  • Busca ampla e profunda: Laursen e Salter (2006), com uma amostra de grande escala de empresas industriais do Reino Unido, relatam que buscar de forma ampla e profunda se relaciona com o desempenho inovador numa curva em U invertido. O estudo não é sobre PMEs.
  • Ressalva de escopo: os três estudos têm desenhos diferentes (uma revisão da literatura, um levantamento descritivo e um estudo de associação), e nenhum dos achados citados aqui tem recorte de PME brasileira. A aplicação à sua empresa é interpretação da CGLC.
  • Como começar: cinco passos (escolher o problema, mapear quem já resolve, combinar as regras, rodar um piloto curto e medir), descritos adiante como método da CGLC.

Na nossa prática (observação de prática, e não resultado dos estudos citados adiante): muitas das PMEs que acompanhamos já fazem algum tipo de inovação aberta sem chamar assim. O dono ouve o cliente reclamar, o fornecedor sugere uma matéria-prima, um conhecido indica uma máquina. O que costuma faltar é transformar essas conversas soltas em um caminho com problema definido, dono, prazo e regra de jogo.

O que é inovação aberta e o que ela não é

Leitura da CGLC: o contraste mais útil é com a inovação feita só dentro de casa. Na versão fechada, a empresa tenta gerar, desenvolver e lançar tudo com a própria equipe. Na versão aberta, ela decide caso a caso o que desenvolver sozinha e o que buscar, comprar, adaptar ou desenvolver com alguém de fora.

Ponto Inovação feita só dentro de casa Inovação aberta
De onde vem a ideia Da equipe interna Da equipe interna e de clientes, fornecedores, universidades e outras empresas
Quem desenvolve Só a empresa A empresa, sozinha ou com parceiro, conforme o caso
O que acontece com o que não serve ao negócio Fica guardado Pode ser licenciado, cedido ou levado a um parceiro
Exigência de gestão Coordenar a equipe Coordenar a equipe e as relações externas
Comparação da CGLC. As colunas seguem a definição de trabalho deste guia.

Leitura da CGLC: inovação aberta também não é terceirizar a inovação. Quem entrega a decisão a um parceiro tende a ficar dependente dele e a aprender pouco. O que define a prática é que a empresa continua escolhendo o problema, o parceiro e o que fará com o resultado.

Na nossa prática: na PME, a inovação aberta se parece menos com um programa corporativo e mais com uma rotina de gestão: sair do escritório, ouvir quem usa o produto, visitar quem fornece, procurar quem já resolveu um problema parecido. O guia sobre cultura de inovação trata da postura que faz essa rotina funcionar.

De onde pode vir o conhecimento de fora

Leitura da CGLC: cinco fontes aparecem com frequência quando a PME decide olhar para fora. A tabela organiza o que cada uma costuma trazer e o cuidado que pede.

Fonte externa O que costuma trazer Cuidado
Clientes Problema real de uso, pedido que ninguém atende, ideia de melhoria Cliente descreve o sintoma; a causa precisa ser investigada
Fornecedores Material novo, processo, equipamento, experiência de outros clientes O fornecedor tem interesse em vender; compare alternativas
Universidades e institutos de pesquisa Método, laboratório, estudante, pesquisador Os prazos do meio acadêmico e os da empresa costumam ser diferentes; combine entregas curtas
Outras empresas Tecnologia complementar, canal, uso conjunto de capacidade Defina de antemão quem fica com o quê
Programas de fomento e editais Recurso, parceiros já qualificados, prazos de execução O edital tem regras próprias; leia antes de montar o projeto
Quadro da CGLC, não derivado dos estudos citados adiante.

Leitura da CGLC: para escolher com quem conversar primeiro, o mapa de stakeholders ajuda a ordenar quem tem o conhecimento que o problema pede e quem tem interesse em ajudar. Comece por quem já está na sua rotina: normalmente é cliente ou fornecedor.

Na nossa prática (exemplo ilustrativo da CGLC, sem empresa real): uma metalúrgica de porte médio com refugo alto numa operação de estamparia pode começar procurando o fornecedor da matéria-prima e um instituto de pesquisa em materiais, antes de contratar um engenheiro de P&D. O ponto é que o problema, e não a tecnologia, define quem entra na conversa.

O que a pesquisa registra sobre inovação aberta em PMEs e em empresas industriais

Os três estudos abaixo tratam de inovação aberta em PMEs ou em empresas industriais e têm desenhos diferentes: uma revisão da literatura, um levantamento descritivo e um estudo de associação. A tradução dos nomes e das medidas é nossa, e a aplicação ao dia a dia de uma PME brasileira é interpretação da CGLC.

Estudo Tipo e amostra O que os autores relatam
Hossain e Kauranen (2016), Journal of Strategy and Management Revisão sistemática da literatura sobre inovação aberta em PMEs Adotar inovação aberta melhora o desempenho geral de inovação das PMEs; os estudos reunidos são limitados e dispersos
Van de Vrande e colegas (2009), Technovation Levantamento exploratório com 605 PMEs inovadoras da Holanda As empresas usam muitas práticas de inovação aberta; as empresas médias se envolvem, em média, mais do que as pequenas; não há grandes diferenças entre indústria e serviços; os motivos são sobretudo de mercado; os desafios percebidos mais importantes são organizacionais e culturais
Laursen e Salter (2006), Strategic Management Journal Estudo de associação em amostra de grande escala de empresas industriais do Reino Unido (não é sobre PMEs) Buscar de forma ampla e profunda se relaciona com o desempenho inovador numa curva em U invertido
Fonte: os três estudos listados em Fontes e referências. O estudo de Laursen e Salter não é sobre PMEs.

Revisão sobre inovação aberta em PMEs

Hossain e Kauranen (2016), no Journal of Strategy and Management, sintetizaram a literatura sobre inovação aberta em pequenas e médias empresas. Os autores relatam que a adoção da inovação aberta pelas PMEs melhora o desempenho geral de inovação e descrevem os estudos reunidos como limitados e dispersos.

A revisão trata de PMEs em geral, sem recorte de PME brasileira nos achados citados aqui, e os próprios autores descrevem a base de estudos como limitada e dispersa.

Leitura da CGLC: o achado de melhora do desempenho de inovação é um motivo para testar a prática, e não uma garantia de resultado. Uma literatura descrita como limitada e dispersa sustenta, no máximo, um teste pequeno e bem medido na sua empresa.

O que 605 PMEs holandesas relataram

Van de Vrande, de Jong, Vanhaverbeke e de Rochemont (2009), na Technovation, observam que a inovação aberta tinha sido estudada principalmente em multinacionais de alta tecnologia e, num trabalho exploratório, investigaram 605 PMEs inovadoras da Holanda. Os autores relatam que as empresas respondentes usam muitas práticas de inovação aberta, que as empresas médias se envolvem, em média, mais do que as pequenas e que não há grandes diferenças entre indústria e serviços.

Os autores relatam também que as PMEs buscam a inovação aberta sobretudo por motivos de mercado, como atender a demanda dos clientes e acompanhar os concorrentes. Relatam ainda que os maiores desafios percebidos pelas empresas são organizacionais e culturais, decorrentes do aumento de contatos externos.

É uma amostra de PMEs inovadoras de um país, sem recorte de PME brasileira, e o trabalho é exploratório: descreve práticas, motivos e desafios relatados pelas empresas.

Leitura da CGLC: o relato de que o desafio percebido é organizacional e cultural combina com o que a CGLC observa na rotina das PMEs: o obstáculo costuma ser o time e o dono aceitarem que a resposta pode estar fora, mais do que encontrar o parceiro.

Busca ampla e profunda e desempenho inovador

Laursen e Salter (2006), no Strategic Management Journal, estudaram a relação entre a estratégia de busca de ideias e o desempenho inovador numa amostra de grande escala de empresas industriais do Reino Unido. Os autores relatam que buscar de forma ampla e profunda se relaciona com o desempenho inovador numa curva em U invertido.

O estudo trata de empresas industriais britânicas, sem recorte de PME, e relata uma associação entre estratégia de busca e desempenho.

Leitura da CGLC: uma curva em U invertido sugere que a relação sobe e depois cai. Para a PME, que pode ter pouco tempo de gestão, a leitura prática é começar com poucas fontes externas e aprofundar nelas com critério antes de abrir um novo canal. Essa leitura é da CGLC: a curva descreve a amostra britânica, e a profundidade da busca também aparece no resultado relatado pelos autores, de modo que aprofundar não é, por si, um caminho seguro.

Como começar a inovação aberta sem centro de P&D: cinco passos

Leitura da CGLC: os cinco passos abaixo são método da CGLC para a PME que quer testar a prática com baixo custo. Eles não vêm dos estudos citados.

  1. 1. Escolher o problema

    Um problema concreto, com dono e medida

  2. 2. Mapear quem já resolve

    Cliente, fornecedor, instituto, outra empresa

  3. 3. Combinar as regras

    Escopo, prazo, confidencialidade e quem fica com o quê

  4. 4. Rodar um piloto curto

    Um teste pequeno, com data para acabar

  5. 5. Medir e decidir

    Escalar, ajustar ou encerrar, com base na medida

Os cinco passos são método da CGLC, e não protocolo validado em estudo.

1. Escolher o problema

Leitura da CGLC: comece por um problema que dói e dá para medir, como o refugo de uma linha, o prazo de um tipo de pedido ou o custo de uma etapa. Evite começar pela vontade de “fazer inovação aberta”. Escreva o problema em uma frase, o indicador que mostra se melhorou e a pessoa da empresa que responde por ele.

2. Mapear quem já resolve

Leitura da CGLC: liste quem, fora da empresa, conhece o problema ou já lidou com ele: clientes que usam o produto, fornecedores que atendem outras empresas, institutos e universidades da região, empresas de outros setores com problema parecido. Converse com duas ou três dessas fontes antes de investir em qualquer coisa. O mapa de stakeholders ajuda a priorizar.

3. Combinar as regras

Leitura da CGLC: antes de compartilhar informação ou dinheiro, deixe por escrito o escopo, o prazo, o que é confidencial e quem fica com o resultado. Em acordo que envolve propriedade intelectual ou transferência de tecnologia, peça a revisão de um advogado. Regra combinada no começo evita a conversa difícil no final.

4. Rodar um piloto curto

Leitura da CGLC: faça um teste pequeno, com data para terminar e custo limitado, em vez de um projeto longo. O piloto é uma versão reduzida da solução, testada numa parte da operação. O guia sobre MVP detalha como montar um teste antes de investir, e o de quick wins mostra como escolher resultados cedo para dar tração ao projeto.

5. Medir e decidir

Leitura da CGLC: ao fim do prazo, compare o indicador do passo 1 com o ponto de partida e decida: escalar, ajustar ou encerrar. Registre o que aprendeu sobre o parceiro e sobre a sua própria capacidade de absorver o que veio de fora. O passo a passo para levar o piloto à rotina está no guia sobre como implementar inovação na empresa.

Erros comuns na inovação aberta

Na nossa prática: os erros que mais vemos nas PMEs são cinco.

  • Procurar parceiro antes de definir o problema. Sem problema claro, a conversa vira apresentação de produtos.
  • Abrir muitas frentes ao mesmo tempo. A equipe pequena não consegue acompanhar várias relações, e todas ficam rasas.
  • Não combinar quem fica com o quê. O conflito aparece quando o resultado funciona.
  • Ignorar a resistência interna. A ideia que veio de fora encontra o time acostumado a só confiar no que nasce em casa, e o piloto morre sem ser testado.
  • Não medir. Sem indicador, o piloto vira simpatia, e a decisão de continuar vira opinião.

Quer testar a inovação aberta na sua empresa, com um problema real e um piloto curto?

Perguntas frequentes

O que é inovação aberta?

Neste guia, é a prática de buscar fora da empresa parte do conhecimento, da tecnologia e das ideias de que o negócio precisa, em vez de contar só com o que nasce dentro de casa. Inclui também levar para fora o que a empresa desenvolve e não aproveita sozinha. É uma definição de trabalho da CGLC.

Inovação aberta serve para PME sem centro de P&D?

Na leitura da CGLC, sim. A prática pode começar com um problema concreto e conversas com clientes, fornecedores, institutos de pesquisa e outras empresas, sem laboratório próprio. Os estudos citados neste guia não têm recorte de PME brasileira, e um deles (Laursen e Salter) não é sobre PMEs.

O que a pesquisa registra sobre inovação aberta em PMEs?

Hossain e Kauranen (2016) relatam, numa revisão da literatura, que adotar inovação aberta melhora o desempenho geral de inovação das PMEs, e descrevem os estudos como limitados e dispersos. Van de Vrande e colegas (2009) relatam, numa pesquisa exploratória com 605 PMEs inovadoras holandesas, motivos sobretudo de mercado e desafios percebidos sobretudo organizacionais e culturais. A revisão não tem recorte de PME brasileira nos achados citados aqui, a pesquisa foi feita na Holanda, e a aplicação à sua empresa é interpretação da CGLC.

Quais são os riscos da inovação aberta?

Na leitura da CGLC, os principais são abrir muitas frentes ao mesmo tempo, não combinar quem fica com o resultado e não medir o piloto. Laursen e Salter (2006), num estudo de empresas industriais do Reino Unido (não é sobre PMEs nem sobre empresas brasileiras), relatam que buscar de forma ampla e profunda se relaciona com o desempenho inovador numa curva em U invertido. A cautela com excesso de frentes é leitura da CGLC.

Por onde começar a inovação aberta na PME?

Na leitura da CGLC, por um problema que dói e dá para medir, com duas ou três conversas com quem já lida com ele, regras combinadas por escrito e um piloto curto com data para terminar.

Fontes e referências

  • Hossain, M., & Kauranen, I. (2016). Open innovation in SMEs: a systematic literature review. Journal of Strategy and Management, 9(1), 58-73. https://doi.org/10.1108/jsma-08-2014-0072
  • Laursen, K., & Salter, A. (2006). Open for innovation: the role of openness in explaining innovation performance among U.K. manufacturing firms. Strategic Management Journal, 27(2), 131-150. https://doi.org/10.1002/smj.507
  • van de Vrande, V., de Jong, J. P. J., Vanhaverbeke, W., & de Rochemont, M. (2009). Open innovation in SMEs: Trends, motives and management challenges. Technovation, 29(6-7), 423-437. https://doi.org/10.1016/j.technovation.2008.10.001

Por: Clayton Lambert, engenheiro de produção e consultor de transformação e inovação da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.

Publicado em 29/10/2026.

A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.

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