Pipeline de liderança é o nome que Ram Charan, Stephen Drotter e James Noel deram, em 2001, a um modelo simples de descrever e difícil de operar: a empresa forma os próprios gestores fazendo cada pessoa atravessar, em ordem, uma sequência de transições, e cada transição exige habilidades novas, outro uso do tempo e valores de trabalho diferentes dos do cargo anterior.
Este artigo explica o modelo, mostra o que a pesquisa revisada por pares sustenta dele e o que fica sem apoio, e traduz as seis transições para o tamanho de uma PME. Nela, a primeira transição, a do especialista que passa a chefiar a própria equipe, é, na nossa prática, a mais frequente e a que mais entope.
Resumo rápido
- Definição. Pipeline de liderança é a arquitetura interna de formação de gestores: uma sequência de passagens entre níveis, cada uma com exigências próprias de habilidade, tempo e valores. O modelo de Charan, Drotter e Noel (2001) tem seis passagens. A ideia é anterior: Freedman (1998) descreveu cinco caminhos e quatro encruzilhadas.
- O que a evidência sustenta. As exigências mudam de fato com o nível. Em Mumford, Campion e Morgeson (2007), com 1.023 profissionais, as quatro famílias de habilidade crescem com o nível hierárquico, e as de negócio e estratégia crescem mais rápido. Em Kaiser e Craig (2011), com 2.175 gestores, só uma dimensão de comportamento previu eficácia na mesma direção nos três níveis.
- O achado que contraria o mercado. Benson, Li e Shue (2019) acompanharam 38.843 vendedores em 131 empresas: dobrar as vendas em relação aos colegas correspondia a 32% mais chance de promoção, e, entre os promovidos, dobrar as vendas anteriores previa queda de 6,1% nas vendas de cada subordinado. Nas empresas do estudo, a promoção premiava o melhor no cargo atual, não o melhor para o próximo.
- Contratar de fora não substitui o pipeline. Em Bidwell (2011), numa única empresa, o braço de banco de investimento de uma financeira americana, os contratados externos recebiam no início cerca de 18% a mais do que os promovidos, tinham desempenho pior nos dois primeiros anos e saíam mais.
- Como se forma. Desafio no cargo desenvolve habilidade de liderança, mas com retorno decrescente, que o acesso a feedback pode compensar nos desafios altos (DeRue e Wellman, 2009). Treinamento de liderança funciona e transfere mais para o trabalho no primeiro nível de gestão (Lacerenza e colegas, 2017).
- Por onde começar. Na nossa prática, o pipeline da PME tem duas ou três passagens, não seis. Roteiro de seis passos e um plano de 90 dias para quem acabou de ser promovido, no artigo.
O que é pipeline de liderança
Pipeline de liderança é a estrutura interna pela qual uma empresa forma gestores em sequência, nível a nível, em vez de contratar um chefe pronto toda vez que abre uma vaga. A palavra vem de canalização: um cano com passagens, que conduz pessoas de um nível ao seguinte, e que pode entupir.
O modelo mais conhecido é o de Charan, Drotter e Noel (2001), que nasceu de trabalho de consultoria e foi publicado em livro, e não em revista científica.
Ele descreve seis passagens, da pessoa que gerencia só o próprio trabalho até quem dirige a empresa inteira. Em cada passagem, três coisas mudam de uma vez: as habilidades exigidas, a forma de aplicar o tempo e os valores de trabalho.
A ideia é anterior ao livro. Freedman (1998) descreveu, em artigo conceitual publicado em revista da APA, que quem sobe de colaborador individual a cargos de gestão enfrenta uma série de encruzilhadas, e que o percurso completo atravessa cinco caminhos e quatro delas, cada uma com mudanças descontínuas e sem precedente nas responsabilidades. Em cada encruzilhada, propõe ele, a pessoa enfrenta um desafio triplo: largar responsabilidades e competências que ficaram anacrônicas, preservar as que continuam úteis e adicionar as novas.
Leitura da CGLC: esse desafio triplo, largar, preservar e adicionar, é o que vamos usar ao longo do artigo. Ele é mais útil no dia a dia do que a lista de seis passagens, porque descreve o que a pessoa promovida precisa fazer na segunda-feira de manhã, e não só o cargo que ela ocupa.
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1. De gerenciar a si mesmo a gerenciar os outros
O especialista vira chefe de equipe. Larga a execução de tudo, preserva o domínio técnico como referência e adiciona planejar, distribuir, treinar e acompanhar o trabalho dos outros
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2. De gerenciar os outros a gerenciar gerentes
Passa a escolher e formar quem fará a passagem 1. O trabalho técnico sai por completo da rotina
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3. De gerenciar gerentes a gerenciar uma função
Responde por uma área inteira, inclusive por partes que não domina, e precisa pensar no prazo longo da função
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4. De gerente funcional a gerente de negócios
Passa a responder por resultado financeiro e a comandar funções diferentes
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5. De gerente de negócios a gerente de grupo
Passa a valorizar o sucesso de negócios dirigidos por outros, e não só do próprio
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6. De gerente de grupo a gestor da empresa
Define direção e mecanismos para a empresa inteira. A mudança é mais de valores do que de habilidade
Leitura da CGLC: o que faz o modelo valer para uma empresa de 30 ou 80 pessoas não é o número de níveis. É a afirmação de que uma passagem é uma troca de trabalho, e não uma versão maior do mesmo trabalho. Quem entende isso para de tratar a promoção como prêmio e passa a tratá-la como mudança de ofício.
O que a pesquisa sustenta do modelo, e o que não
O livro é de consultores e circula sem os testes que a ciência exige. Mas a premissa central dele, a de que o que se exige de um gestor muda com o nível, foi testada por pesquisadores que não são os autores do livro, e vale ver o que eles encontraram antes de aplicar qualquer coisa.
Mumford, Campion e Morgeson (2007) mediram as exigências de habilidade em 1.023 profissionais de uma agência do governo dos Estados Unidos, em três níveis de carreira: júnior, médio e sênior.
Eles propõem quatro famílias de habilidade, cognitiva, interpessoal, de negócio e estratégica, e relatam que as quatro são mais exigidas quanto mais alto o cargo. As de negócio e as estratégicas, porém, crescem com o nível em ritmo maior do que as interpessoais e as cognitivas.

Um limite que os próprios autores registram: a organização é pública, com sistema formal de promoção do tipo “sobe ou sai”, e os resultados podem não valer para empresas privadas. E há um segundo limite, que vem do desenho da medida: ela é o que a pessoa diz que o cargo exige, e não o quanto essa pessoa entrega.
O estudo seguinte é mais direto, porque olha para a eficácia e não para a exigência. Kaiser e Craig (2011) cruzaram avaliações de subordinados sobre sete dimensões de comportamento com a avaliação de eficácia dada pelo superior, em 2.175 gestores de 15 setores nos Estados Unidos: 225 supervisores, 1.457 gerentes médios e 493 executivos.
O que eles relatam vai além da premissa do modelo. Muitas diferenças entre níveis foram descontínuas: um comportamento que previa eficácia num nível previa ineficácia em outro.
Só uma dimensão, a agilidade de aprendizado, se associou positivamente à eficácia nos três níveis. E a inversão mais nítida ficou entre dirigir e dar autonomia: a eficácia do gerente médio se associou a mais direção e menos autonomia concedida, e a do executivo, ao contrário.
Há ainda um terceiro estudo, de Dai, Tang e De Meuse (2011), com dados de um arquivo de feedback 360 graus (n = 770) em quatro níveis de cargo. Eles relatam que a diferença entre dois cargos, na importância relativa das competências, aumenta com a distância hierárquica entre os dois. Vale saber que os três autores trabalhavam numa consultoria que vende avaliação de competências.
| O que o modelo afirma | O que a pesquisa examinou | O que encontrou | Limite |
|---|---|---|---|
| Cada nível exige habilidades diferentes | Mumford, Campion e Morgeson (2007): exigência de quatro famílias de habilidade em 1.023 profissionais, três níveis | As quatro crescem com o nível; negócio e estratégia crescem mais rápido | Órgão público, autorrelato da exigência, promoção “sobe ou sai” |
| O que funciona num nível pode não funcionar no seguinte | Kaiser e Craig (2011): sete comportamentos e eficácia em 2.175 gestores, três níveis | Diferenças descontínuas; só a agilidade de aprendizado previu eficácia na mesma direção nos três níveis | Desenho transversal; 225 supervisores, amostra pequena nesse nível |
| Cada passagem muda as exigências (a hipótese da distância entre cargos é derivação dos autores do teste, não frase do livro) | Dai, Tang e De Meuse (2011): arquivo de feedback 360 graus, n = 770, quatro níveis | A diferença de importância das competências cresce com a distância hierárquica | Autores de consultoria que vende avaliação de competências; dados de arquivo, não coletados para o teste |
| Pular passagens pode entupir o pipeline | Nenhum dos três estudos testou isso | Sem evidência direta nas fontes deste artigo | É afirmação do livro, não achado de pesquisa |
Leitura da CGLC: os três estudos dão apoio à premissa e nenhum deles valida o modelo inteiro, com as seis passagens e a regra de não pular nenhuma. O que se pode dizer com segurança é menos ambicioso e mais útil: subir de nível troca o trabalho, e o comportamento que fez a pessoa ser promovida não garante nada no cargo seguinte.
Por que o pipeline entope na primeira passagem
Se o cargo seguinte exige outro trabalho, a pergunta óbvia é se as empresas escolhem quem promover olhando para o próximo cargo ou para o atual. Benson, Li e Shue (2019) responderam com dados de 38.843 vendedores em 131 empresas americanas, entre 2005 e 2011, dos quais 1.553 foram promovidos a gerente no período.
O primeiro resultado ninguém estranha: dobrar as vendas em relação aos colegas correspondia a 32% mais chance de promoção, medida contra a taxa de base. Dobrar as vendas, ali, equivale a sair do 50º para o 67º percentil, o que não é raro nos dados deles.
O segundo resultado é o que interessa. Os autores mediram a qualidade de cada novo gerente pelo valor que ele adicionava às vendas dos próprios subordinados, descontados o efeito de cada vendedor e as condições da empresa no mês.
E, entre os promovidos, quanto maiores as vendas anteriores do gerente, pior o resultado do time: dobrar as vendas pré-promoção previa queda de 6,1% nas vendas de cada subordinado. Com uma equipe típica de cinco pessoas, isso equivale a perder quase um terço de um vendedor.
Eles ainda simularam uma política que promovesse só pelo potencial de gestão observável e estimaram uma qualidade média de gerente 30% maior. E notaram outra coisa: os “lobos solitários”, vendedores que não dividem crédito com ninguém, eram promovidos com mais frequência e rendiam menos como gerentes, enquanto quem tinha mais experiência de colaboração parecia render mais como gerente, num resultado que os autores chamam de sugestivo, e não conclusivo.
Três ressalvas que o leitor precisa carregar. É um estudo de vendas, área em que o desempenho individual é fácil de medir, e feito nos Estados Unidos. A qualidade do gerente foi medida pelas vendas dos subordinados, e não por tudo o que um gerente faz.
E os autores escrevem que o achado não implica necessariamente erro das empresas: promover o melhor vendedor é também um incentivo para todos os outros, e as empresas parecem administrar essa troca, porque dão menos peso às vendas quando o cargo de gerente envolve equipes maiores.
Na nossa prática: a PME faz a mesma conta sem ter os números. O dono promove o melhor técnico porque ele mereceu, porque o time aceitaria e porque é o único nome que vem à cabeça. No dia seguinte a empresa perdeu o melhor técnico e ganhou um chefe que ninguém preparou.
Quem quiser entender o que separa esse chefe de um líder pode ler nosso artigo sobre a diferença entre líder e chefe.
| O que se observa | O que costuma estar por trás | Pergunta para o dono |
|---|---|---|
| O novo gestor continua fazendo o trabalho técnico e o time espera por ele | Ele não largou o trabalho antigo, porque ninguém disse que precisava largar | Quem faz hoje o que ele fazia antes? |
| Toda vaga de gestão vira contratação externa | Não existe ninguém sendo preparado para a passagem seguinte | Se o gestor da área saísse amanhã, quem assumiria? |
| A promoção é anunciada como prêmio pelo desempenho | O critério é o cargo atual, e não o próximo | O que essa pessoa já fez que se parece com o novo cargo? |
| O promovido resolve tudo sozinho e o time só executa | O perfil de lobo solitário foi premiado com a gestão de um grupo | Com quem ele dividiu crédito nos últimos doze meses? |
| Os melhores técnicos recusam a promoção ou pedem para voltar ao cargo antigo | A única forma de crescer na empresa é virar chefe | Existe um caminho de crescimento que não passe pela gestão? |
Formar por dentro ou contratar de fora?
Quando o pipeline está vazio, a saída habitual é contratar um gestor pronto. Bidwell (2011) comparou os dois caminhos com os dados de pessoal do braço de banco de investimento de uma empresa financeira americana, entre 2003 e 2009, e o resultado dá nome ao artigo dele: pagar mais para receber menos.
Os contratados de fora recebiam, no início, cerca de 18% a mais do que os promovidos para cargos equivalentes, e chegavam com mais experiência e mais formação. Mesmo assim, tiveram avaliações de desempenho piores nos dois primeiros anos, depois dos quais os dois grupos convergiram. Em nenhum momento o desempenho dos contratados foi significativamente melhor.
Eles também saíam mais: o risco de desligamento involuntário foi cerca de 61% maior do que o dos promovidos, e o de saída voluntária, cerca de 21% maior. Por outro lado, os contratados eram promovidos mais rápido.
O limite é claro: uma empresa só, com cargos que exigem conhecimento muito específico da casa. O próprio autor atribui a convergência ao tempo que o contratado leva para adquirir esse conhecimento.
Leitura da CGLC: numa PME, esse conhecimento costuma ser menos formal e mais espalhado, o que não reduz o tempo de aprendizado: torna-o mais difícil de medir. E contratar de fora não é erro. Depender disso é. A PME que só contrata paga o prêmio duas vezes, no salário e nos dois anos de aprendizado, e ainda sinaliza para dentro que ninguém cresce ali.
O pipeline existe para que a contratação externa seja escolha, e não socorro. Quem já pensou no assunto pela ótica da sucessão pode ler nosso artigo sobre plano de sucessão.
Como montar um pipeline de liderança na PME
O roteiro abaixo é o que usamos nos programas da CGLC, adaptado ao tamanho da empresa. Ele não reproduz as seis passagens do livro: reduz o modelo às passagens que a PME tem de verdade e concentra o esforço na primeira, que é a mais frequente e a mais barata de acertar.
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1. Mapeie as passagens reais
Na maioria das PMEs são duas ou três, entre quatro níveis: técnico, líder de equipe, gestor de área e dono. Escreva quem ocupa cada nível hoje e quem poderia ocupar amanhã
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2. Escreva o que muda em cada passagem
Em comportamento observável: o que a pessoa larga, o que preserva e o que adiciona. Se a lista de “larga” estiver vazia, a passagem não foi desenhada
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3. Escolha pelo próximo cargo, não pelo atual
Procure sinais do trabalho de gestão já feito: quem forma colegas, quem divide crédito, quem organiza o trabalho dos outros sem ter cargo para isso
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4. Desenvolva por atribuição, com feedback
Antes de promover, entregue pedaços do trabalho de gestão com retorno frequente. Cada dose extra de desafio rende menos, e o feedback pode compensar isso nos desafios grandes
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5. Treine do jeito que transfere
Diagnóstico antes, prática, sessões espaçadas e feedback. Uma palestra isolada contraria a prática e o espaçamento, dois moderadores com apoio na meta-análise
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6. Acompanhe a passagem por 90 dias e meça o pipeline
Quem promoveu acompanha. E a empresa conta quantas vagas de gestão preenche por dentro
Passos 1 e 2: as passagens da PME e o que muda em cada uma
Na nossa prática: uma empresa de 40 pessoas raramente tem gerente de gerentes, gerente funcional e gerente de grupo. Tem o dono, dois ou três gestores de área, alguns líderes de equipe, às vezes sem o nome no crachá, e os técnicos. A tabela abaixo é a nossa tradução do desafio triplo de Freedman (1998) para as passagens entre esses níveis.
| Passagem | O que larga | O que preserva | O que adiciona |
|---|---|---|---|
| De técnico a líder de equipe | Executar tudo o que sabe fazer melhor que os outros | O domínio técnico, como critério para avaliar e ensinar | Planejar a semana do time, distribuir tarefas, acompanhar e dar retorno |
| De líder de equipe a gestor de área | Resolver pessoalmente os problemas do dia | A relação com o time, agora por meio dos líderes | Escolher e formar líderes de equipe, definir prioridades da área, responder pelos números da área |
| De gestor de área a dono ou diretor | Defender a própria área | O conhecimento da operação, como base para decidir | Integrar áreas, decidir o que a empresa não vai fazer, formar os gestores |
O teste do passo 2 é simples de aplicar. Peça ao gestor que descreva o novo cargo de alguém que ele quer promover. Se a descrição só tiver acréscimos, e nenhuma coisa que essa pessoa vai deixar de fazer, a passagem não foi desenhada, e ela vai acumular os dois trabalhos até desistir de um deles.
Passo 3: escolher pelo próximo cargo
A pergunta que Benson, Li e Shue (2019) ajudam a fazer é esta: o que essa pessoa já fez que se parece com o trabalho de gestão? Não é o volume de entrega no cargo atual. É se ela forma os colegas, se organiza o trabalho dos outros sem ter cargo para isso, se divide crédito. No estudo, quem colaborava mais parecia render mais como gerente e parecia ser menos promovido, num resultado que os autores tratam como sugestivo.
Na nossa prática: a PME precisa de um segundo caminho de crescimento, que reconheça o técnico excelente sem obrigá-lo a virar chefe, com título, remuneração e autonomia próprios. Sem isso, a promoção à gestão continua sendo o único prêmio disponível, e o pipeline volta a ser preenchido pelo critério errado.
Passo 4: desenvolver por atribuição, com feedback
Gestor se forma fazendo trabalho de gestor, e isso pode começar antes da promoção: conduzir a reunião semanal, treinar o novato, organizar a escala. DeRue e Wellman (2009) estudaram 225 experiências de trabalho em 60 gestores e relatam que a relação entre o desafio da experiência e o desenvolvimento de habilidades de liderança tem retorno decrescente.
Cada dose extra de desafio rende menos. E o acesso a feedback pode compensar esse achatamento nos níveis altos de desafio.
Isso muda a receita: não é jogar a pessoa no problema mais difícil e ver se ela sobrevive. É dar o pedaço de trabalho e conversar sobre ele toda semana. Como dar esse retorno sem transformá-lo em avaliação está no nosso artigo sobre como dar feedback.
Passo 5: treinar do jeito que transfere
Treinamento de liderança funciona, e a evidência sobre isso é grande. Lacerenza e colegas (2017) reuniram 335 amostras independentes em meta-análise e estimam efeitos positivos em reação, aprendizado, transferência para o trabalho e resultados, da organização e dos subordinados.
O tamanho do efeito varia com o desenho: os programas com melhor resultado usam diagnóstico de necessidades antes, feedback, mais de um método de entrega, em especial prática, sessões espaçadas no tempo e entrega presencial que não seja autoadministrada.
Para a PME, o achado mais útil está numa comparação por nível: a transferência para o trabalho foi significativamente mais forte em programas para líderes de primeiro nível do que em programas para gerentes médios ou altos executivos.
Ou seja, o treino transfere mais para o trabalho exatamente na passagem que a PME mais faz. Sessão única teve efeito menor do que sessões espaçadas em transferência e em resultados, e a prática é o método de entrega com mais apoio. Uma palestra de um dia, sem prática nem continuidade, contraria os dois.
Passo 6: os primeiros 90 dias de quem acabou de ser promovido
A passagem não termina no anúncio. Os primeiros 90 dias são o período em que o especialista promovido decide, quase sempre sem perceber, se vai largar o trabalho antigo ou acumular os dois. O plano abaixo organiza esse período pelo desafio triplo, com o que o promovido faz e o que quem o promoveu faz.
| Período | O que o novo líder faz | O que quem promoveu faz |
|---|---|---|
| Semanas 1 e 2: largar | Lista tudo o que executava e decide, com o gestor, o que sai da própria mesa e para quem vai | Anuncia ao time o que mudou no papel dele e retira as demandas técnicas que ainda chegam por hábito |
| Semanas 3 a 6: preservar | Usa o domínio técnico para acompanhar e ensinar, sem retomar a execução. Conduz a reunião semanal e uma conversa individual com cada pessoa | Conversa toda semana, 20 minutos, sobre uma decisão que o novo líder tomou, e não sobre a entrega do time |
| Semanas 7 a 12: adicionar | Planeja o mês seguinte, distribui o trabalho por pessoa e dá retorno sobre o que viu | Avalia a passagem por comportamento observável, e não pelo resultado do time, que ainda carrega o trabalho anterior |
Uma nota sobre a segunda coluna. O novo líder precisa decidir, pessoa a pessoa, quanto dirige e quanto delega, e isso muda conforme quem está na frente dele e a tarefa. Esse critério está desenvolvido no nosso artigo sobre liderança situacional.
Como medir se o pipeline está funcionando
Pipeline de liderança se mede por poucos números, e a PME consegue acompanhar todos numa planilha. Os quatro abaixo são os que usamos.
| Indicador | Como calcular | O que sinaliza |
|---|---|---|
| Preenchimento interno | Vagas de gestão preenchidas por dentro, divididas pelo total de vagas de gestão no ano | Se o pipeline entrega. Perto de zero, a empresa depende de contratação externa |
| Prontidão | Para cada cargo de gestão, quantas pessoas poderiam assumir em até seis meses | Zero em qualquer cargo é vaga descoberta esperando acontecer |
| Sobrevivência da passagem | Promovidos que seguem no cargo após 12 e 24 meses, e por que os outros saíram | Queda entre 12 e 24 meses indica passagem que não se sustentou |
| Desligamento no time do novo líder | Saídas voluntárias na equipe nos 12 meses seguintes à promoção, comparadas aos 12 anteriores | Alta pode ser sinal de uma passagem mal feita, e pede conversa antes de concluir |
Erros comuns ao montar o pipeline de liderança
Na nossa prática: quatro erros aparecem com frequência quando a PME começa a montar o seu pipeline.
O primeiro é copiar as seis passagens do livro numa empresa que tem três. O organograma ganha nomes e a formação não muda. O segundo é promover e só depois treinar, quando o desenvolvimento por atribuição, com feedback, poderia ter começado meses antes.
O terceiro é avaliar a passagem pelo resultado do time no trimestre seguinte, que ainda carrega o trabalho que o promovido fazia antes. O quarto é usar o pipeline como argumento para nunca contratar de fora, o que transforma uma ferramenta de escolha em dogma.
Os três primeiros se resolvem na mesma etapa: a passagem escrita, com o que a pessoa larga, preserva e adiciona. O quarto se resolve antes disso, na decisão de para que serve o pipeline. Quem quiser ver como a passagem escrita se encaixa numa estratégia maior de formação de líderes pode começar pelo nosso guia sobre como formar líderes.
Perguntas frequentes sobre pipeline de liderança
O que é pipeline de liderança?
É a estrutura interna pela qual a empresa forma gestores em sequência, de um nível ao seguinte, em vez de contratar um chefe pronto a cada vaga. O modelo de Charan, Drotter e Noel (2001) descreve seis passagens e afirma que cada uma muda as habilidades exigidas, o uso do tempo e os valores de trabalho. A ideia é anterior: Freedman (1998) descreveu cinco caminhos e quatro encruzilhadas, cada uma com o desafio de largar, preservar e adicionar responsabilidades.
Quais são as seis transições do pipeline de liderança?
No modelo de Charan, Drotter e Noel (2001): de gerenciar a si mesmo a gerenciar os outros; de gerenciar os outros a gerenciar gerentes; de gerenciar gerentes a gerenciar uma função; de gerente funcional a gerente de negócios; de gerente de negócios a gerente de grupo; e de gerente de grupo a gestor da empresa. A maioria das PMEs tem apenas duas ou três dessas passagens, e essa redução é leitura da CGLC.
O pipeline de liderança funciona em empresa pequena?
A premissa dele tem apoio em pesquisa: as exigências mudam com o nível (Mumford, Campion e Morgeson, 2007) e o comportamento que prevê eficácia num nível pode não prever no seguinte (Kaiser e Craig, 2011). Na PME, o que muda é a escala. Na nossa prática, em vez de seis passagens costumam existir duas ou três, e a primeira, do técnico a líder de equipe, é a que acontece com mais frequência; é nela que vale concentrar o esforço.
Por que o melhor funcionário nem sempre vira o melhor gestor?
Porque o cargo seguinte exige outro trabalho. Benson, Li e Shue (2019), com 38.843 vendedores em 131 empresas, relatam que dobrar as vendas em relação aos colegas correspondia a 32% mais chance de promoção e que, entre os promovidos, dobrar as vendas anteriores previa queda de 6,1% nas vendas de cada subordinado. Os autores registram que isso não implica necessariamente erro: promover pelo desempenho também funciona como incentivo para os demais.
É melhor promover alguém de dentro ou contratar um gestor de fora?
Na única empresa que Bidwell (2011) estudou, o braço de banco de investimento de uma financeira americana, os contratados de fora recebiam no início cerca de 18% a mais, tinham desempenho pior nos dois primeiros anos e saíam mais, tanto por demissão quanto por vontade própria. Depois de dois anos, o desempenho convergia. É um caso só, com cargos que exigem conhecimento muito específico da casa. Leitura da CGLC: contratar de fora é escolha legítima; depender disso é sinal de pipeline vazio.
Como saber se o pipeline de liderança da minha empresa está obstruído?
Na nossa prática: pelos sinais e pelos números. Sinais: o novo gestor segue fazendo o trabalho técnico, toda vaga de gestão vira contratação externa e a promoção é anunciada como prêmio. Números: a fração de vagas de gestão preenchidas por dentro, quantas pessoas estão prontas para cada cargo em até seis meses e quantos promovidos seguem no cargo depois de 12 e 24 meses. Se o preenchimento interno estiver perto de zero, a empresa depende de contratação externa.
Fontes e referências
- Benson, A., Li, D., e Shue, K. (2019). Promotions and the Peter Principle. The Quarterly Journal of Economics, 134(4), 2085-2134. https://doi.org/10.1093/qje/qjz022
- Bidwell, M. (2011). Paying more to get less: The effects of external hiring versus internal mobility. Administrative Science Quarterly, 56(3), 369-407. https://doi.org/10.1177/0001839211433562
- Charan, R., Drotter, S., e Noel, J. (2001). The leadership pipeline: How to build the leadership-powered company. Jossey-Bass. Edição brasileira: Pipeline de liderança: o desenvolvimento de líderes como diferencial competitivo (Sextante). Livro de consultoria, não revisado por pares.
- Dai, G., Tang, K. Y., e De Meuse, K. P. (2011). Leadership competencies across organizational levels: A test of the pipeline model. Journal of Management Development, 30(4), 366-380. https://doi.org/10.1108/02621711111126837
- DeRue, D. S., e Wellman, N. (2009). Developing leaders via experience: The role of developmental challenge, learning orientation, and feedback availability. Journal of Applied Psychology, 94(4), 859-875. https://doi.org/10.1037/a0015317
- Freedman, A. M. (1998). Pathways and crossroads to institutional leadership. Consulting Psychology Journal: Practice and Research, 50(3), 131-151. https://doi.org/10.1037/1061-4087.50.3.131
- Kaiser, R. B., e Craig, S. B. (2011). Do the behaviors related to managerial effectiveness really change with organizational level? An empirical test. The Psychologist-Manager Journal, 14(2), 92-119. https://doi.org/10.1080/10887156.2011.570140
- Lacerenza, C. N., Reyes, D. L., Marlow, S. L., Joseph, D. L., e Salas, E. (2017). Leadership training design, delivery, and implementation: A meta-analysis. Journal of Applied Psychology, 102(12), 1686-1718. https://doi.org/10.1037/apl0000241
- Mumford, T. V., Campion, M. A., e Morgeson, F. P. (2007). The leadership skills strataplex: Leadership skill requirements across organizational levels. The Leadership Quarterly, 18(2), 154-166. https://doi.org/10.1016/j.leaqua.2007.01.005
- Sobre Dai, Tang e De Meuse (2011), DeRue e Wellman (2009) e Freedman (1998), este artigo relata direções e desenhos de estudo, sem magnitudes, a partir dos resumos publicados. As seis passagens de Charan, Drotter e Noel (2001) são descritas conforme a sinopse da edição brasileira (Sextante) e o resumo que o próprio Charan divulgou, reproduzido pelo Na Prática, sem citação literal do livro.
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Por: Wilma Morais, psicóloga e executive coach, responsável pelo silo de Liderança da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 07/09/2026. Última atualização: 07/09/2026.
A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
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