Um roadmap é o documento que mostra, numa linha do tempo, quais iniciativas a empresa vai perseguir, em que ordem e por qual motivo. Ele não é cronograma, não é lista de tarefas e não é plano de ação: é a camada acima dos três, a que diz o que entra e o que fica de fora do período.
Leitura da CGLC: desenhar o primeiro roadmap é a parte fácil, e quase toda PME que nos procura já desenhou um. O que trava é a segunda versão. Passados três meses, a folha continua na parede com as datas de março, e ninguém marcou a reunião em que ela seria corrigida. Essa leitura é nossa. Aqui você vê as quatro camadas do documento, o passo a passo para montar o seu de trás para frente, o modelo pronto para copiar e a rotina que o mantém vivo.
Resumo rápido
- O que é. Um roadmap organiza iniciativas no tempo e explica a escolha. Cronograma tem datas e tarefas; roadmap tem intenção, ordem e recorte.
- O desafio real não é desenhar. Revisando mais de cem publicações da área, Vatananan e Gerdsri (2012) identificam manter o roadmap vivo como o desafio central do campo.
- Monte de trás para frente. Em quatro experimentos com participantes individuais, não com empresas, Wiese, Buehler e Griffin (2016) relatam previsões de conclusão mais longas quando o planejamento parte do objetivo final e volta em ordem inversa, e menos enviesadas no quarto estudo.
- Cada item precisa de quando, onde e quem. Gollwitzer e Sheeran (2006) sintetizam 94 testes com efeito médio a grande (d = 0,65) para intenções que especificam antecipadamente quando, onde e como agir. O estudo é sobre pessoas, não sobre empresas.
- A data é a parte mais frágil. Flyvbjerg (2006) atribui a imprecisão de previsões a viés de otimismo e a deturpação estratégica, e descreve a previsão por classe de referência como saída. A primeira aplicação prática que ele descreve é a previsão de custo de grandes projetos de infraestrutura de transporte.
- Ressalva de escopo, e ela vale para o artigo inteiro. Nenhum dos dez estudos citados mediu empresa brasileira de pequeno ou médio porte.
O que é um roadmap
Roadmap é um documento de direção. Ele responde a três perguntas na mesma folha: para onde a empresa está indo, quais iniciativas vão levá-la até lá e em que sequência elas acontecem.
A palavra vem da gestão de tecnologia, em que a prática tem nome próprio, technology roadmapping, e literatura acumulada há décadas.
Phaal, Farrukh e Probert (2004) tratam o roadmapping de tecnologia como um arcabouço de planejamento, e Phaal e Muller (2009) propõem para o roadmapping um arcabouço arquitetural, que enquadram como caminho para uma estratégia visual.
O que sobrou dessa origem, e que vale para qualquer empresa, é a ideia de estratégia visual: colocar numa única superfície o que costuma viver espalhado em atas, planilhas e conversas de corredor. A folha obriga a decidir. Se duas iniciativas ocupam o mesmo trimestre e a empresa tem apenas uma equipe, a folha mostra o conflito antes de ele virar atraso.
Kerr, Phaal e Probert (2011) descrevem a oficina de roadmapping como um mecanismo socialmente facilitado, que reúne um grupo diverso de participantes para explorar as oportunidades e os desafios que a organização enfrenta, e definem o roadmap resultante como a representação visual do esforço cognitivo coletivo desse grupo. Os autores apresentam um arcabouço inicial e postulam que roadmapping serve para cogitar, articular e comunicar. É postulação e arcabouço, não resultado medido, e o próprio artigo diz isso.
Na nossa prática, a consequência disso para a PME é direta. Se o roadmap sai pronto do computador do dono e é apresentado na reunião, a empresa fica com o desenho e perde a parte que a literatura descreve como o mecanismo, que é o grupo explorando junto as oportunidades e os desafios que a organização enfrenta. Na nossa leitura, o que acontece na PME é o grupo discutindo o recorte, e o documento é o subproduto. Essa leitura é nossa, e não um achado das fontes citadas.
Roadmap, cronograma, plano de ação e backlog: o que muda
A confusão entre os quatro é a causa mais comum de roadmap inútil. Quando o roadmap vira cronograma, ele herda o nível de detalhe do cronograma e passa a estar errado toda semana. Quando vira lista de desejos, não recorta nada.
| Documento | Responde | Horizonte | Muda quando |
|---|---|---|---|
| Roadmap | Que iniciativas, em que ordem e por quê | 6 a 18 meses | A prioridade muda |
| Cronograma | Que tarefa, quem faz, em que data | Dias a semanas | Uma tarefa atrasa |
| Plano de ação | Como uma iniciativa sai do papel | Semanas a meses | A execução exige |
| Backlog | Tudo que foi pedido e ainda não foi feito | Sem horizonte | Alguém pede algo |
O teste prático é o nível de granularidade. Se um item do seu roadmap pode ser feito por uma pessoa em dois dias, ele é tarefa e está no documento errado. Se um item leva mais de um trimestre e ninguém sabe dizer por onde começar, ele é intenção e ainda precisa virar iniciativa.
Para descer da iniciativa ao plano detalhado, o método que usamos está no guia de 5W2H; para o diagnóstico que antecede a escolha das iniciativas, o de matriz SWOT.
As quatro camadas de um roadmap
Um roadmap que só tem a linha do tempo e os retângulos coloridos é uma agenda. O que o transforma em instrumento de decisão são as camadas que ficam acima e abaixo da linha do tempo, e a leitura na vertical: qualquer item de baixo deve ser rastreável até um objetivo de cima.
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1. Por quê
O resultado que a empresa quer no fim do período, em uma frase, com o número que diz se chegou lá. É a camada que autoriza dizer não
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2. O quê
As iniciativas escolhidas, poucas, cada uma amarrada a um objetivo da camada de cima. Item que não se amarra a um objetivo da camada 1 não entra
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3. Quando
A ordem e a janela de cada iniciativa, em trimestre ou em mês, nunca em dia. Dia é cronograma
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4. Com o quê
Pessoas, dinheiro e fornecedores de que cada iniciativa depende. É a camada que revela que três frentes não cabem na mesma equipe
Na nossa prática, a camada 4 é a que mais falta nos modelos prontos em circulação, e é a que evita a maior parte dos atrasos que encontramos. Uma folha com sete iniciativas simultâneas parece ambiciosa até alguém escrever, embaixo de cada uma, quem vai executar. Quando o mesmo nome aparece em cinco delas, a folha deixa de ser um plano e passa a ser uma lista de intenções.
O que a pesquisa sustenta, e o que ela não sustenta
Esta seção existe porque a promessa que mais aparece nos primeiros resultados do Google para roadmap é a de ganho de produtividade e de alinhamento, feita sem nenhuma fonte. A evidência disponível é mais modesta, e é honesto dizer o tamanho dela antes de ensinar o método.
| Fonte | O que ela sustenta | O que ela não sustenta |
|---|---|---|
| Schwenk e Shrader (1993), meta-análise | Em pequenas empresas, a relação geral entre planejamento estratégico formal e desempenho é positiva e significativa no conjunto dos estudos | Que o efeito seja grande. Os autores registram que o tamanho do efeito nos estudos individuais não é grande, e que boa parte da variância não é explicada por erro amostral, o que indica possíveis moderadores |
| Brinckmann, Grichnik e Kapsa (2010), meta-análise | Que a relação entre planejamento de negócio e desempenho em pequenas empresas é atravessada por fatores contextuais, que é o objeto anunciado do estudo | Qualquer direção, tamanho ou condição específica. Esta fonte não tem resumo público e é citada aqui apenas pelo que o título afirma |
| Vatananan e Gerdsri (2012), revisão de mais de cem publicações | Que manter o roadmap vivo é identificado, a partir da literatura, como o desafio central do campo | Qualquer percentual de empresas que abandonam o roadmap. O resumo não traz número nenhum |
| Münch, Trieflinger e Lang (2019), revisão sistemática | Que a busca resultou em 23 artigos relevantes e que a literatura oferece pouco conhecimento sobre como criar roadmap de produto sob condições de alta dinâmica | Que incluir objetivos ou resultados no roadmap seja prática comprovada. Os autores listam isso como lacuna de pesquisa |
Vale reparar no que a Tabela 2 mostra quando lida de ponta a ponta. A evidência mais próxima da PME é a mais antiga e a mais genérica, e fala de planejamento formal, não de roadmap. A evidência específica sobre roadmap é recente, mas é revisão de literatura de tecnologia e de produto, e não medição em empresa.
Leitura da CGLC: isso não desqualifica o instrumento, e nós o usamos com clientes toda semana. Significa que quem promete número de ganho está inventando, e que o argumento correto para adotar um roadmap é outro: ele torna explícita uma escolha que a empresa faria de qualquer jeito, e que hoje acontece por acúmulo.
O achado que contraria o senso comum
Os nove primeiros resultados do Google para roadmap ensinam a desenhar. Nenhum deles trata do problema que a própria literatura da área colocou no centro. Vatananan e Gerdsri (2012), depois de revisar mais de cem publicações, apontam manter o roadmap vivo como o desafio-chave, e indicam a operacionalização e a implementação efetiva como áreas potenciais de pesquisa futura. O campo que inventou a prática elegeu a manutenção, e não o desenho, como o desafio central.
Münch, Trieflinger e Lang (2019) chegam por outro caminho ao mesmo incômodo. A revisão sistemática deles, com 23 artigos de ciência da computação, conclui que a literatura cobre muitos aspectos do roadmapping, mas oferece pouco conhecimento sobre como criar roadmap de produto sob condições de alta dinâmica, e atribui a dificuldade à previsibilidade decrescente de mercados, tecnologias e comportamentos de cliente.
Entre as lacunas que os autores apontam está justamente incluir objetivos ou resultados no roadmap de produto. É preciso ler isso pelo que é: uma agenda de pesquisa aberta, não uma técnica validada.
Como fazer um roadmap: o passo a passo
O roteiro abaixo é o que usamos em empresas sem área de planejamento. A ordem importa, e os passos 3 e 5 são os que mais mudam o resultado, pelos motivos das duas seções seguintes.
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1. Fechar o horizonte
Seis, doze ou dezoito meses, e escrito na folha. Roadmap sem horizonte declarado não tem como ficar desatualizado, porque não prometeu nada
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2. Escrever de dois a quatro objetivos
Cada um com o número que diz se foi atingido. São eles que vão autorizar a recusa de uma iniciativa depois
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3. Levantar iniciativas de trás para frente
Partindo do objetivo no fim do período e voltando em ordem inversa até hoje, em vez de listar o que já está na cabeça de todos
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4. Cortar até caber
Escrever ao lado de cada iniciativa quem executa. Nome repetido em três linhas do mesmo trimestre significa que duas saem
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5. Datar por comparação
Cada janela apoiada em quanto demorou algo parecido nesta empresa, e não em quanto deveria demorar
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6. Marcar a reunião de revisão
No calendário de todo mundo, antes de publicar a folha. É o passo que quase ninguém dá e o único que mantém o documento vivo
Por que levantar as iniciativas de trás para frente
Wiese, Buehler e Griffin (2016) testaram em quatro experimentos uma estratégia que chamam de planejamento de trás para frente: começar o plano pelo objetivo final e percorrer os passos necessários em ordem cronológica inversa.
Os participantes planejaram uma tarefa em uma de três direções (de trás para frente, para frente ou sem direção especificada) e previram quando ela terminaria. As previsões foram mais longas na condição de trás para frente nos quatro estudos, e menos enviesadas no quarto.
As medidas de processo, escrevem os autores, sugerem que planejar assim pode aumentar a atenção a fatores situacionais que atrasam o progresso (obstáculos, interrupções e demandas concorrentes), suscitar novas percepções de planejamento e alterar a conceituação do tempo.
Valem duas ressalvas antes de transportar isso para a sua empresa. A redução de viés é resultado do quarto estudo; o que se observou nos quatro foi previsão mais longa. E os participantes eram pessoas planejando tarefas em experimento, não equipes montando roadmap de empresa.
Na nossa prática, o efeito colateral mais útil de aplicar isso numa sala com sócios é outro, e o estudo só chega perto dele: partir do resultado final faz aparecer a etapa que ninguém tinha lembrado, aquela sem a qual as outras não funcionam. As medidas de processo sugerem que planejar assim pode suscitar novas percepções de planejamento; chamar isso de etapa esquecida é leitura nossa.
Por que a data é a parte mais frágil
Flyvbjerg (2006) aponta a previsão imprecisa de custos, demanda e outros impactos como uma fonte importante de risco na gestão de projetos, e explica essa imprecisão por duas causas distintas: viés de otimismo, que é erro honesto, e deturpação estratégica, que é apresentar deliberadamente número melhor do que se acredita para conseguir a aprovação do projeto.
A saída que ele apresenta é a previsão por classe de referência, que busca acurácia baseando a previsão no desempenho real de uma classe de projetos comparáveis, e não na estimativa feita de dentro do projeto.
O artigo descreve a previsão de custo de grandes projetos de infraestrutura de transporte como a primeira aplicação prática do método. A distância para uma PME é enorme, e trazer o método para cá é adaptação, não aplicação.
O que sobrevive à adaptação é o procedimento: em vez de estimar quanto uma iniciativa deveria levar, procurar na própria empresa quanto levou a última coisa parecida, contando do primeiro dia de conversa até o dia em que estava rodando.
Quem já implantou um sistema, contratou um vendedor ou abriu uma linha nova tem essa classe de referência dentro de casa, e quase nunca a consulta.
Leitura da CGLC: a segunda causa que Flyvbjerg nomeia costuma ser a que mais aparece em empresas familiares, e ela não é um problema técnico de estimativa. Quando a data existe para convencer um sócio, ela não é previsão, é argumento de reunião. Diagnosticar isso é constrangedor e resolve mais do que qualquer planilha. A observação é nossa; o estudo localiza o fenômeno em projetos de infraestrutura, não em empresas familiares.
Cada item precisa dizer quando, onde e quem
Gollwitzer e Sheeran (2006), numa revisão de psicologia sobre indivíduos, analisaram se a realização de uma intenção é facilitada pela formação de uma intenção de implementação, que especifica antecipadamente o quando, o onde e o como da ação, no formato “se a situação Y acontecer, então farei X”.
Reunindo 94 testes independentes, os autores relatam efeito positivo de magnitude média a grande, com d = 0,65, sobre o alcance da meta. As intenções de implementação, escrevem, foram eficazes em promover o início da ação, em proteger a busca já em curso contra influências indesejadas, em promover o desengajamento de cursos de ação que fracassam e em conservar capacidade para metas futuras.
A ressalva aqui é a maior de todo o artigo e precisa estar antes do conselho, não depois. Trata-se de um capítulo de revisão em psicologia, que sintetiza 94 testes sobre indivíduos, e não sobre empresas, equipes ou projetos. O d = 0,65 não se transporta para um roadmap.
O que se transporta é a forma da frase, com uma troca que é nossa: onde o estudo diz "como", um item de roadmap de empresa precisa dizer "quem". Um item de roadmap escrito como “melhorar o pós-venda” não diz quando, onde nem quem; escrito como “a partir de abril, a Ana liga para todo cliente que comprou há trinta dias, nas quintas de manhã”, diz.
Na nossa prática, a maior parte dos roadmaps de PME que revisamos tem itens do primeiro tipo, e é por isso que a revisão seguinte não consegue nem dizer se o item andou. Essa leitura é nossa.
| Técnica | Resolve | De onde vem | Quem o estudo mediu ou descreveu |
|---|---|---|---|
| Levantar de trás para frente | A previsão de prazo que nasce otimista. As medidas de processo do estudo sugerem que planejar assim pode suscitar novas percepções de planejamento; ler isso como o aparecimento da etapa esquecida é leitura da CGLC | Wiese, Buehler e Griffin (2016), quatro experimentos | Participantes individuais prevendo a conclusão de uma tarefa |
| Datar por classe de referência | A janela otimista, e a janela feita para convencer alguém | Flyvbjerg (2006) | Grandes projetos de infraestrutura de transporte |
| Escrever quando, onde e quem (no estudo, quando, onde e como) | O item que ninguém consegue conferir na revisão seguinte | Gollwitzer e Sheeran (2006), 94 testes, d = 0,65 | Indivíduos perseguindo metas, em 94 testes de psicologia |
O modelo de roadmap para copiar
Este é o formato mais simples que sustenta as camadas 1 a 3 do Diagrama 1 e a parte de pessoas da camada 4. Dinheiro e fornecedor entram em colunas extras quando a iniciativa depende deles. Cabe numa planilha, numa folha A3 na parede ou num quadro. Não podem faltar a coluna do dono e a do sinal de que a iniciativa terminou, porque são as duas que a reunião de revisão usa.
| Objetivo do período | Iniciativa | Janela | Quem executa | Como sabemos que acabou |
|---|---|---|---|---|
| Reduzir o prazo de entrega de 9 para 5 dias úteis | Mapear o fluxo atual da expedição | 1º trimestre | Supervisor de logística | Fluxo desenhado e validado com quem opera |
| Reduzir o prazo de entrega de 9 para 5 dias úteis | Trocar a rotina de separação | 2º trimestre | Supervisor de logística | Rotina nova rodando há 30 dias sem exceção |
| Abrir um canal novo de venda com 15 clientes ativos | Testar venda direta com 10 clientes | 2º trimestre | Sócio comercial | 10 conversas feitas e resultado escrito |
| Abrir um canal novo de venda com 15 clientes ativos | Decidir se o canal continua | 4º trimestre | Sócios | Decisão registrada em ata, com o número que a sustentou |
| Parar de depender de uma só pessoa, com duas aptas a orçar | Documentar o processo de orçamento | 3º trimestre | Analista administrativo | Orçamento feito sozinha por outra pessoa, usando o documento |
Repare que a última coluna nunca diz “concluído”. Ela descreve um estado observável que alguém consegue conferir na reunião sem depender da opinião de quem executou. É a mesma exigência que a camada de objetivos faz, só que no nível da iniciativa. Para transformar cada linha dessas num plano detalhado, com responsável, prazo e custo, o método está no guia de 5W2H; para amarrar os objetivos do período a metas mensuráveis, o de OKR.
Como manter o roadmap vivo
É aqui que o instrumento se ganha ou se perde, e é o ponto que a literatura da área elegeu como central. A rotina abaixo é a nossa, e ela existe para que a folha mude de estado de maneira previsível, em vez de envelhecer em silêncio até alguém tirá-la da parede.
| Encontro | Quando | Quem | O que sai de lá |
|---|---|---|---|
| Conferência | Mensal, 30 minutos | Os donos das iniciativas do trimestre | Cada iniciativa marcada como andando, parada ou terminada, sem discussão de mérito |
| Revisão | Trimestral, 2 horas | Sócios e donos de iniciativa | Iniciativa entra, sai ou muda de janela, e o motivo fica escrito ao lado |
| Reconstrução | Anual, meio dia | Todo o grupo que decide | Objetivos do período seguinte e um roadmap novo, do zero |
O encontro que quase sempre falta é o primeiro, e ele é o mais barato. Trinta minutos por mês sem discussão de mérito, só marcando estado, resolvem o problema de chegar à revisão trimestral sem saber o que aconteceu. Na nossa prática, quando esse encontro existe, a revisão trimestral vira uma reunião de decisão; quando não existe, ela vira uma reunião de atualização, e não sobra tempo para decidir nada. Essa observação é nossa, de campo.
Registrar o motivo de cada mudança tem um segundo efeito, menos óbvio.
Leitura da CGLC: ao fim de um ano, a coluna de motivos conta a história real das prioridades da empresa, e costuma revelar um padrão: as mesmas iniciativas sendo empurradas trimestre após trimestre pela mesma razão.
Isso não é falha de planejamento, é informação sobre a capacidade real de execução, e é o que permite fazer o roadmap seguinte com menos linhas. O mesmo raciocínio de voltar para conferir está no guia de ciclo PDCA.
Tipos de roadmap
A palavra aparece com sobrenome em contextos diferentes. As diferenças são de objeto e de quem decide, e o esqueleto das quatro camadas serve para todos os tipos.
| Tipo | Organiza | Quem decide | Quando faz sentido na PME |
|---|---|---|---|
| Estratégico | As iniciativas da empresa inteira | Sócios e diretoria | Sempre. É o que este artigo descreve |
| De produto | O que o produto vai passar a fazer | Produto e comercial | Quando a empresa vende software ou produto próprio com versões |
| De tecnologia | Que capacidade técnica a empresa precisa ter e quando | Operação e TI | Quando há decisão grande de sistema ou de máquina à frente |
| De projeto | As fases de uma iniciativa só | Quem lidera o projeto | Quando uma iniciativa do roadmap estratégico é grande demais para uma linha |
Erros comuns
| Erro | Como aparece | O que fazer |
|---|---|---|
| Roadmap virou cronograma | Itens com data exata e duração em dias | Subir o nível: a janela volta a ser trimestre, e a data exata vai para o cronograma |
| Iniciativa sem dono | A coluna de responsável diz “comercial” ou “a equipe” | Nome de pessoa. Área não vai a reuniões e não responde por prazo |
| Tudo cabe | Sete frentes no mesmo trimestre, com três equipes | Escrever quem executa cada uma e cortar até o nome parar de se repetir |
| Nenhuma reunião marcada | A folha foi publicada e o calendário está vazio | Marcar a revisão antes de divulgar o roadmap, e não depois |
| Item que não dá para conferir | “Melhorar o atendimento”, sem estado observável | Reescrever dizendo quando, onde e quem, e o que se vê quando terminar |
| Roadmap feito por uma pessoa só | Chega pronto na reunião, para aprovação | Montar com o grupo que vai executar, mesmo que leve o dobro do tempo |
Por onde começar
Se a empresa nunca teve um roadmap, o primeiro não precisa cobrir doze meses. Na nossa prática, um roadmap de seis meses, com dois objetivos e quatro iniciativas, montado numa manhã com quem vai executar, entrega quase todo o valor. E tem uma vantagem decisiva sobre o roadmap completo: chega ao fim do primeiro ciclo de revisão em três meses, e é aí que a empresa descobre se a rotina de manutenção funciona nela.
O que não pode faltar nesse primeiro roadmap é a data da revisão no calendário de todo mundo. Sem ela, o documento nasce com a doença que a literatura da área identificou como desafio central: não tem quem o mantenha vivo.
Tem um roadmap desenhado e nenhuma reunião marcada para revisá-lo?
Perguntas frequentes
O que é um roadmap?
É o documento que organiza, numa linha do tempo, quais iniciativas a empresa vai perseguir, em que ordem e por qual motivo. Ele fica acima do cronograma e do plano de ação: enquanto esses dois detalham tarefas e prazos, o roadmap declara o recorte, ou seja, o que entra e o que fica de fora do período.
Qual a diferença entre roadmap e cronograma?
O horizonte e o nível de detalhe. O roadmap trabalha em janelas de trimestre ou mês, num horizonte de 6 a 18 meses, e muda quando a prioridade muda. O cronograma trabalha em dias, num horizonte de semanas, e muda quando uma tarefa atrasa. Se um item do seu roadmap pode ser feito por uma pessoa em dois dias, ele é tarefa e está no documento errado.
Como fazer um roadmap passo a passo?
Feche o horizonte; escreva de dois a quatro objetivos, cada um com um número; levante as iniciativas partindo do objetivo final e voltando em ordem inversa; escreva ao lado de cada uma quem executa e corte até o nome parar de se repetir; date cada janela por comparação com quanto levou algo parecido nesta empresa; e marque a reunião de revisão no calendário antes de publicar a folha.
Por que o roadmap para de ser atualizado?
Na nossa experiência, porque a rotina de revisão não foi marcada junto com o documento. Vatananan e Gerdsri (2012), revisando mais de cem publicações da área, identificam manter o roadmap vivo como o desafio central do campo, e apontam a operacionalização e a implementação efetiva como áreas potenciais de pesquisa futura. Convém dizer que o resumo desse estudo não traz percentual de abandono, e que ele não mediu empresa brasileira de pequeno ou médio porte.
Roadmap funciona em empresa pequena?
A evidência disponível é sobre planejamento formal, não sobre roadmap, e é modesta. Schwenk e Shrader (1993), em meta-análise sobre pequenas empresas, relatam relação positiva e significativa entre planejamento estratégico formal e desempenho financeiro no conjunto dos estudos, registrando que o tamanho do efeito nos estudos individuais não é grande e que boa parte da variância não é explicada por erro amostral. Nenhum dos estudos citados neste artigo mediu PME brasileira, e quem promete número de ganho de produtividade com roadmap está inventando.
Quantas iniciativas um roadmap deve ter?
Quantas couberem na equipe que a empresa tem, e o teste é escrever o nome de quem executa ao lado de cada uma. Na nossa experiência com PME, quando o mesmo nome aparece em três linhas do mesmo trimestre, duas delas saem ou atrasam, e um primeiro roadmap de seis meses com dois objetivos e quatro iniciativas entrega quase todo o valor de um roadmap de doze meses, chegando mais rápido ao primeiro ciclo de revisão.
Fontes e referências
- Brinckmann, J., Grichnik, D., & Kapsa, D. (2010). Should entrepreneurs plan or just storm the castle? A meta-analysis on contextual factors impacting the business planning-performance relationship in small firms. Journal of Business Venturing, 25(1), 24-40. https://doi.org/10.1016/j.jbusvent.2008.10.007
- Flyvbjerg, B. (2006). From Nobel Prize to project management: Getting risks right. Project Management Journal, 37(3), 5-15. https://doi.org/10.1177/875697280603700302
- Gollwitzer, P. M., & Sheeran, P. (2006). Implementation intentions and goal achievement: A meta-analysis of effects and processes. Advances in Experimental Social Psychology, 38, 69-119. https://doi.org/10.1016/S0065-2601(06)38002-1
- Kerr, C., Phaal, R., & Probert, D. (2011). Cogitate, articulate, communicate: The psychosocial reality of technology roadmapping and roadmaps. R&D Management, 42(1), 1-13. https://doi.org/10.1111/j.1467-9310.2011.00658.x
- Münch, J., Trieflinger, S., & Lang, D. (2019). Product roadmap: From vision to reality. A systematic literature review. 2019 IEEE International Conference on Engineering, Technology and Innovation (ICE/ITMC), 1-8. https://doi.org/10.1109/ICE.2019.8792654
- Phaal, R., Farrukh, C. J. P., & Probert, D. R. (2004). Technology roadmapping: A planning framework for evolution and revolution. Technological Forecasting and Social Change, 71(1-2), 5-26. https://doi.org/10.1016/S0040-1625(03)00072-6
- Phaal, R., & Muller, G. (2009). An architectural framework for roadmapping: Towards visual strategy. Technological Forecasting and Social Change, 76(1), 39-49. https://doi.org/10.1016/j.techfore.2008.03.018
- Schwenk, C. R., & Shrader, C. B. (1993). Effects of formal strategic planning on financial performance in small firms: A meta-analysis. Entrepreneurship Theory and Practice, 17(3), 53-64. https://doi.org/10.1177/104225879301700304
- Vatananan, R. S., & Gerdsri, N. (2012). The current state of technology roadmapping (TRM) research and practice. International Journal of Innovation and Technology Management, 9(3), 1250032. https://doi.org/10.1142/S0219877012500320
- Wiese, J., Buehler, R., & Griffin, D. (2016). Backward planning: Effects of planning direction on predictions of task completion time. Judgment and Decision Making, 11(2), 147-167. https://doi.org/10.1017/S1930297500007269
Limite de verificação, declarado: as dez referências acima tiveram o DOI conferido; nove são artigos revisados por pares e uma, Gollwitzer e Sheeran (2006), é capítulo de revisão em série de livros editada. Nenhuma foi lida em texto completo. Sete foram lidas em resumo: Kerr e colegas (2011), Vatananan e Gerdsri (2012), Münch e colegas (2019), Schwenk e Shrader (1993), Flyvbjerg (2006), Wiese e colegas (2016) e Gollwitzer e Sheeran (2006). Três não têm resumo público em Crossref, OpenAlex nem Semantic Scholar, e por isso são citadas aqui apenas pelo que o título afirma: Phaal, Farrukh e Probert (2004), Phaal e Muller (2009) e Brinckmann, Grichnik e Kapsa (2010).
Nenhum dos dez estudos mediu empresa brasileira de pequeno ou médio porte. Kerr, Vatananan, Phaal e Münch tratam de roadmapping de tecnologia e de produto no mundo corporativo; Vatananan e Münch são revisões de literatura, e os dois artigos de Phaal não têm resumo público, de modo que nada se sabe sobre as empresas por trás deles. Flyvbjerg descreve grandes projetos de infraestrutura de transporte. Wiese e Gollwitzer medem indivíduos em experimento de psicologia, não empresas. Schwenk e Brinckmann são os dois únicos sobre pequena empresa, e nenhum dos dois estudos é brasileiro nem recente. Onde o artigo recomenda um método, a recomendação é da CGLC e está marcada como tal.
Por: Clayton Lambert, engenheiro de produção com trinta anos de indústria, responsável pelo silo de Inovação da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, de cultura de inovação e de gestão de pessoas. Veja também o guia de cultura de inovação.
Publicado em 22/09/2026.
A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
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