Upskilling é o desenvolvimento de competências novas ou mais profundas em quem já trabalha na empresa, para que a pessoa faça melhor ou faça mais dentro da própria função, ou numa evolução natural dessa função. Esta é a definição de trabalho da CGLC.
Este guia explica a diferença para reskilling, o que três fontes revisadas por pares examinaram sobre treinamento nas organizações e um roteiro de cinco passos, da CGLC, para montar o plano de aprendizagem numa PME sem departamento de treinamento.
Resumo rápido
- Upskilling e reskilling respondem a perguntas diferentes. O primeiro aprofunda ou amplia o que a pessoa faz na função. O segundo prepara a pessoa para outra função. As definições usadas aqui são as de trabalho da CGLC, e não saem dos estudos citados.
- Arthur e colegas (2003), em meta-análise sobre treinamento em organizações, relatam médias de efeito entre 0,60 e 0,63 em quatro critérios (reação, aprendizagem, comportamento e resultados) e concluem que os resultados sugerem um efeito de médio a grande.
- Blume e colegas (2010), em meta-análise de 89 estudos, relatam relações positivas da transferência do treinamento para o trabalho com motivação e com um ambiente de trabalho de apoio, entre outros fatores.
- Aguinis e Kraiger (2009), em revisão da literatura, tratam dos benefícios do treinamento para indivíduos, equipes, organizações e sociedade, e das condições em que eles são maximizados.
- Limite das fontes: tratam de treinamento e desenvolvimento em organizações em geral, sem o termo “upskilling” no título e sem recorte de PME brasileira. Médias de efeito e associações não garantem o resultado de um programa específico.
- Roteiro da CGLC em cinco passos: mapear a lacuna, escolher o formato, prender ao trabalho real, combinar o apoio do gestor e medir no comportamento. É método da casa.
Na nossa prática: o upskilling que chega ao dono de uma PME raramente chega com esse nome. Chega como “o time precisa aprender o sistema novo”, “o vendedor não sabe negociar” ou “ninguém domina a ferramenta que compramos”. Pagar o curso é a parte fácil. Difícil é saber se, três meses depois, a pessoa trabalha de outro jeito.
O que é upskilling e qual a diferença para reskilling
Na nossa prática: o termo costuma aparecer com sentidos variados, e por isso vale fixar o que ele significa aqui. Na definição de trabalho da CGLC, upskilling é aprofundar ou ampliar competências na função que a pessoa já exerce. Reskilling é preparar a pessoa para exercer outra função. A tabela mostra a diferença na rotina de uma PME, com exemplos ilustrativos.
| Caminho | Pergunta que responde (leitura da CGLC) | Exemplo ilustrativo | Quando costuma ser a escolha |
|---|---|---|---|
| Upskilling | A pessoa certa, na função certa, precisa de mais competência? | Atendente que passa a resolver reclamações complexas sozinha | A função continua existindo e a pessoa tem base para crescer nela |
| Reskilling | A pessoa precisa ocupar outra função? | Operador cuja tarefa mudou e que passa a cuidar do estoque | A função antiga encolheu ou mudou de natureza |
| Contratar | A competência é necessária agora, e não há tempo de construí-la? | Especialista em um sistema que ninguém do time conhece | O prazo é curto e a competência é rara dentro de casa |
Leitura da CGLC: a fronteira entre upskilling e reskilling é menos nítida na prática do que na tabela, e discutir o rótulo rende pouco. A pergunta útil para o dono é outra: que lacuna concreta existe entre o que o trabalho pede e o que a pessoa faz hoje, e como fechá-la sem parar a operação.
Quando o upskilling é a decisão certa para a PME
Na nossa prática: antes de abrir o orçamento de treinamento, três perguntas costumam separar o upskilling que funciona do que vira despesa.
- A lacuna é de competência? Se a pessoa sabe fazer e o processo, a ferramenta ou o prazo impedem, o curso não resolve.
- A pessoa tem base e interesse? Upskilling parte do que já existe. Sem interesse, o curso vira obrigação, e a motivação é um dos fatores que Blume e colegas (2010) associam à transferência, como mostra a seção seguinte.
- A competência será usada nas próximas semanas? Aprender algo sem ocasião de aplicar tende a ficar no caderno.
Para separar o que é competência técnica do que é comportamental, vale ler os guias de hard skills e de soft skills. Na nossa prática: a natureza da competência muda o formato de aprendizagem, como mostra o passo 2 do roteiro, mais abaixo.
O que a pesquisa examinou sobre treinar pessoas
Três fontes sustentam esta seção. Nenhuma foi desenhada para PME, e nenhuma traz “upskilling” no título: todas tratam de treinamento e desenvolvimento em organizações de trabalho.
Arthur e colegas (2003) reuniram, em meta-análise, estudos sobre a eficácia do treinamento em organizações. A tabela traz as médias de efeito que os autores informam, todas do mesmo bloco de análise: a média ponderada pela amostra do tamanho de efeito (d) por critério de avaliação.
| Critério de avaliação | Média de efeito (d) | Estudos (k) | Participantes (N) |
|---|---|---|---|
| Reação | 0,60 | 15 | 936 |
| Aprendizagem | 0,63 | 234 | 15.014 |
| Comportamento | 0,62 | 122 | 15.627 |
| Resultados | 0,62 | 26 | 1.748 |
Os autores também relatam que o método de treinamento, a característica da habilidade treinada e a escolha dos critérios de avaliação se relacionaram com a eficácia dos programas.
| Fonte | O que examinou | O que os autores relatam | Limite para a PME |
|---|---|---|---|
| Arthur et al. (2003) | Eficácia do treinamento em organizações, segundo características do desenho e da avaliação | Médias de efeito de 0,60 a 0,63 nos quatro critérios, que, segundo os autores, sugerem um efeito de médio a grande | Treinamento em geral. Associação entre características e eficácia, sem recorte de porte |
| Blume et al. (2010) | Fatores associados à transferência do treinamento para o trabalho (89 estudos) | Relações positivas da transferência com capacidade cognitiva, conscienciosidade, motivação e ambiente de trabalho de apoio. Na maioria dos fatores, relações mais fortes quando o treinamento foca habilidades abertas, como desenvolvimento de liderança, do que fechadas, como software | Treinamento em geral. Relações medidas entre variáveis, e não efeito de uma intervenção na sua empresa |
| Aguinis e Kraiger (2009) | Revisão da literatura de treinamento e desenvolvimento desde 2000 | Benefícios para indivíduos, equipes, organizações e sociedade, e condições em que são maximizados, ligadas a levantamento de necessidades, desenho, avaliação e transferência | Revisão da literatura. Sem recorte de PME |
O que as fontes dizem contra duas ideias comuns
Leitura da CGLC: duas ideias opostas costumam aparecer na conversa sobre treinamento: a de que ele é gasto sem retorno e a de que basta escolher um bom curso. O que as fontes relatam não se encaixa em nenhuma das duas. Arthur e colegas (2003) relatam médias de efeito que, segundo eles, sugerem um efeito de médio a grande para o treinamento em organizações, inclusive no critério de comportamento.
Blume e colegas (2010), por sua vez, relatam que a transferência para o trabalho se associa a fatores que vão além do conteúdo do curso, como a motivação de quem aprende e um ambiente de trabalho de apoio.
Há ainda um aviso de medição. Segundo Blume e colegas, quando os resultados de transferência vieram da mesma fonte e do mesmo contexto de medida, as relações entre os fatores e a transferência apareceram infladas. Leitura da CGLC: o aviso é sobre como a pesquisa mede, e não diz que o treinado superestima o quanto aplicou. Ainda assim, ele reforça um hábito que adotamos na PME: não depender de uma só fonte, no mesmo dia, para saber se o trabalho mudou.
Aguinis e Kraiger (2009) fecham o quadro com uma revisão da literatura desde 2000. Os autores tratam dos benefícios do treinamento para indivíduos, equipes, organizações e sociedade, e examinam levantamento de necessidades, desenho, avaliação e transferência para identificar as condições em que esses benefícios são maiores.
Ressalva de escopo, válida para toda menção a essas fontes neste artigo: os números e as relações vêm de estudos sobre treinamento organizacional em geral. Não provam que o seu programa terá o mesmo efeito, e a CGLC não transporta os números para a sua PME.
Leitura da CGLC: o que fica de útil para o gestor é a mudança de pergunta. Em vez de “qual curso comprar”, vale perguntar “o que acontece na semana seguinte ao curso”. O roteiro abaixo foi desenhado em torno dessa pergunta e percorre os mesmos temas que a revisão de Aguinis e Kraiger organiza: necessidade, desenho, transferência e avaliação.
O roteiro de upskilling em cinco passos
Na nossa prática: o roteiro abaixo é da CGLC. Nasceu do trabalho com PMEs e não vem dos estudos citados. Os prazos e os exemplos são referência de trabalho, e devem ser ajustados ao seu time.
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1. Mapear a lacuna
Definir qual tarefa a pessoa não consegue fazer hoje e que o trabalho exige
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2. Escolher o formato
Casar o jeito de aprender com o tipo de competência, e não com o catálogo do fornecedor
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3. Prender ao trabalho real
Marcar uma tarefa de aplicação para as duas semanas seguintes ao aprendizado
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4. Combinar o apoio
Acertar com o gestor o que ele fará: liberar tempo, dar retorno, abrir ocasião de uso
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5. Medir e decidir
Observar o comportamento no trabalho e decidir se continua, ajusta ou encerra
Passo 1: mapear a lacuna em termos de tarefa
Escreva a lacuna como uma tarefa, e não como um curso. “Falta negociação” é vago. “O vendedor cede desconto antes de entender a necessidade do cliente” é uma lacuna que se pode treinar e observar. Se a lacuna é de um indivíduo, o plano de desenvolvimento individual organiza o registro e o acompanhamento.
Passo 2: escolher o formato conforme a competência
Na nossa prática: competência técnica e fechada, como operar um sistema, costuma caber em treinamento curto e prático. Competência comportamental e aberta, como conduzir conversas ou liderar, pede prática repetida com retorno. Blume e colegas (2010) relatam que a maioria dos fatores estudados teve relações mais fortes com a transferência em habilidades abertas, e isso reforça, como leitura da CGLC, o cuidado com o apoio do gestor nesses casos.
Passo 3: prender o aprendizado ao trabalho real
Na nossa prática: combine, antes de o aprendizado começar, uma tarefa real em que a pessoa vai aplicá-lo nas duas semanas seguintes. Quem aprende negociação e só negocia de novo daqui a três meses tende a perder o que aprendeu. A tarefa de aplicação pode ser pequena: conduzir uma proposta, revisar um procedimento, atender um tipo novo de chamado.
Passo 4: combinar o apoio do gestor
Blume e colegas (2010) relatam que um ambiente de trabalho de apoio se associa à transferência. Leitura da CGLC: numa PME, esse ambiente costuma ser o gestor direto, ou o próprio dono. Combine com ele três coisas: liberar o tempo da pessoa, dar um retorno curto sobre a tarefa de aplicação e abrir ocasiões de uso. Sem esse combinado, o curso depende da boa vontade da rotina.
Passo 5: medir no comportamento e decidir
Arthur e colegas (2003) separam quatro critérios de avaliação, e reação é apenas um deles. Na nossa prática: a reação (“gostei do curso”) é a medida mais fácil e a menos útil para decidir. Prefira observar o comportamento, com um indicador simples ligado à tarefa do passo 1, e ouvir também o gestor, além do treinado. Ao fim, decida: continuar, ajustar ou encerrar.
A ficha abaixo reúne o plano numa página. É material de trabalho da CGLC, e os exemplos são ilustrativos.
| Campo da ficha | O que preencher | Exemplo ilustrativo |
|---|---|---|
| Lacuna em tarefa | O que a pessoa não faz hoje e o trabalho exige | Atende reclamação complexa só com ajuda do gestor |
| Formato | Como a pessoa vai aprender | Acompanhar três atendimentos e praticar com casos reais |
| Tarefa de aplicação | Onde usará nas próximas duas semanas | Resolver sozinha as reclamações da semana |
| Apoio do gestor | O que o gestor se compromete a fazer | Liberar duas horas e dar retorno na sexta |
| Evidência | Como saber que mudou, vista por mais de uma pessoa | Reclamações resolvidas sem escalar, relato do gestor e da pessoa |
| Decisão e data | Quando decidir e o que fazer em cada caso | Revisão em 60 dias: continuar, ajustar ou encerrar |
Erros comuns em programas de upskilling
Leitura da CGLC: os erros abaixo vêm da nossa prática com PMEs, e não de estudo.
- Comprar o curso antes de definir a lacuna. O catálogo passa a decidir o que o time aprende.
- Treinar quem não vai usar. Se a competência não tem ocasião de uso, o investimento evapora.
- Tratar o treinamento como evento. O curso termina na sexta, e ninguém combina o que acontece na segunda.
- Medir só a satisfação. “Gostei” não diz se o trabalho mudou.
- Esquecer o gestor. O apoio dele costuma ser o que separa o aprendizado aplicado do esquecido.
- Usar o upskilling para evitar uma decisão difícil. Se a pessoa não tem o perfil da função, treinar adia a conversa, e não a resolve.
Leitura da CGLC: quando a mudança vem da tecnologia, a lacuna costuma ser mais rápida e mais ampla, e vale começar pelo mapa de quais funções mudam. O artigo sobre IA e empregos trata desse recorte.
Quando vale ter apoio de RH para estruturar o upskilling
Na nossa prática: o dono de uma PME consegue conduzir um upskilling pontual com a ficha acima e disciplina de acompanhamento. O apoio de RH passa a valer a pena em quatro situações: quando há várias lacunas ao mesmo tempo, e ninguém decide a ordem; quando o gestor direto não tem tempo ou repertório para apoiar; quando o treinamento se repete sem mudança visível no trabalho; e quando o upskilling precisa conversar com avaliação, carreira e retenção.
Leitura da CGLC: essa lista não é critério de pesquisa. Para o quadro mais amplo, veja o guia de gestão de pessoas.
Seu time faz treinamentos, mas ninguém acompanha o que mudou no trabalho? Na Cogestão de RH da CGLC, o desenvolvimento das pessoas é tratado como rotina de gestão, com plano, apoio do gestor e acompanhamento. Conheça a Cogestão de RH e veja como ela se aplica à sua empresa.
Perguntas frequentes
O que é upskilling?
Na definição de trabalho da CGLC, é aprofundar ou ampliar competências em quem já trabalha na empresa, dentro da função que a pessoa exerce ou de uma evolução natural dela. Não é definição extraída dos estudos citados. As fontes citadas aqui tratam de treinamento em organizações em geral.
Qual a diferença entre upskilling e reskilling?
Na leitura da CGLC, o upskilling aprofunda ou amplia o que a pessoa faz na função atual, e o reskilling prepara a pessoa para outra função. Na prática a fronteira é menos nítida, e a pergunta útil é qual lacuna concreta o trabalho exige fechar.
O treinamento realmente funciona?
Arthur e colegas (2003) relatam, em meta-análise, médias de efeito de 0,60 a 0,63 em quatro critérios, e concluem que os resultados sugerem um efeito de médio a grande. Blume e colegas (2010) relatam que a transferência para o trabalho se associa à motivação e a um ambiente de apoio. São médias de estudos sobre treinamento organizacional em geral, e não há base aqui para afirmar o efeito numa PME específica.
Como medir se o upskilling deu resultado?
Na leitura da CGLC, observando o comportamento no trabalho com um indicador ligado à tarefa que motivou o treinamento, e não só a satisfação com o curso, e ouvindo mais de uma pessoa, como o gestor. Blume e colegas (2010) relatam que, em pesquisa, medir a transferência pela mesma fonte e no mesmo contexto inflou as relações estudadas. A fonte trata de treinamento organizacional em geral, e não de PME.
Upskilling vale para PME sem RH estruturado?
Na nossa prática, sim, em escala pequena: uma lacuna, uma tarefa de aplicação, um combinado com o gestor e uma data de revisão. As fontes citadas não tratam de PME, e o roteiro é método da CGLC, e não um instrumento validado em pesquisa.
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Fontes e referências
- Aguinis, H., & Kraiger, K. (2009). Benefits of training and development for individuals and teams, organizations, and society. Annual Review of Psychology, 60, 451-474. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.60.110707.163505
- Arthur, W., Jr., Bennett, W., Jr., Edens, P. S., & Bell, S. T. (2003). Effectiveness of training in organizations: A meta-analysis of design and evaluation features. Journal of Applied Psychology, 88(2), 234-245. https://doi.org/10.1037/0021-9010.88.2.234
- Blume, B. D., Ford, J. K., Baldwin, T. T., & Huang, J. L. (2010). Transfer of training: A meta-analytic review. Journal of Management, 36(4), 1065-1105. https://doi.org/10.1177/0149206309352880
Por: Luciana Silva, administradora especializada em neurociência aplicada à gestão de pessoas, da CGLC. A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
Publicado em 10/10/2026.
A CGLC (Centro de Gestão e Liderança Contemporânea) é um laboratório de cocriação de soluções que apoia empresas e líderes no desenvolvimento de lideranças, cultura de inovação e gestão de pessoas.
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